19/4/2008 00:15:00

Memória da Folia: O Pelé e o Garrincha do samba

Luis Carlos Magalhães usa o futebol como referência para procurar o Kaká, o Pato e o Robinho do Samba

Por Luis Carlos Magalhães
(Colunista O Dia na Folia)


Abro a tela e "clico" no espaço aberto do site "Galeria do Samba"; um dos inúmeros portelenses ali aninhados, de nome César Frezzato, manda esta pérola: “ (...) a força da Portela está no samba e não simplesmente no desfile de carnaval (...)”.

Bem, antes de mais nada, e antes que alguém me mande um e-meião daqueles enooormes, reclamando que falo demais na Portela, aviso que o tema hoje é bem outro, juro...a majestade do samba será somente uma referência.
 
Embora goste tanto e esteja tão envolvido com o universo dos desfiles, gosto muito e não deixo de participar das principais rodas de samba da cidade. Nessa condição quero assinar em baixo do que diz o “eaense” portelense, que só falta ser fluminense.

Monarco, Casquinha, Casemiro e Seu Jair

A presença constante da Portela nas rodas e mesas de samba da cidade, independente de qualquer que seja o resultado da Sapucaí, se deve a uma incomparável geração de compositores nascidos no período de ouro de Oswaldo Cruz, ou pouco depois, ainda à sombra, com um ou outro retardatário: Paulo, Paulinho, Candeia, Monarco, Casquinha, Manacéia, Zé Kéti, Noca, João Nogueira, Wilson Moreira, Mauro Duarte, Argemiro, Jair do Cavaquinho, Mijinha, Alvaiade,Lincoln, Alcides, Alvarenga, Valter Rosa, Bubu, Ventura, Aniceto, Chico Santana,Valdir 59.

Sem contar uma imensa galeria de novos e não tão novos artistas espalhados pela Lapa e por todo canto da cidade: Zeca, Cristina Buarque, Marquinhos de O. Cruz, Tereza Cristina, Dorina, Marisa Monte, Bandeira Brasil, Mauro Diniz, Marquinho Diniz, Vanderlei Monteiro, Diogo Nogueira, Ciraninho, o grande Ratinho, Juliana Diniz entre tantos outros que a memória não me traz, sejam eles integrantes ou não da ala de compositores.

Tia Surica, Cristina Buarque e Teresa Cristina

 

 

 

 

 

 

 

 


Interessante e curioso destacar que muito poucos dos enumerados chegam sequer a ser autores de um único samba-enredo. Exceto quanto a alguns que tenham feito um ou outro, como Paulo, Paulinho e Zé Kéti (um cada), Manacéia, Valter Rosa e Candeia, Noca e Valdir que fizeram vários, os demais são compositores de sambas-de-terreiro, ou sambas-de-qualquer-mês-do-ano, nunca no carnaval.

Na verdade, nem acho que a Portela tenha se destacado na história por seus sambas-enredo. Tirando uns quatro ou cinco, os demais foram bons sambas que cumpriram bem seu papel no desfile, equilibrando-se entre outros quesitos.

Mas, e as demais escolas? A Mangueira, por exemplo. A Mangueira entre todas é a que, além de grande presença nas rodas, sempre teve maior fama. Atribuo isso ao fato de, além de sua formidável ala de compositores, a escola ter tido em sua história nada menos que o Pelé e Garrincha do samba: Cartola e Nelson Cavaquinho.

Igualmente interessante e curioso é o fato de o nosso “Pelé” ter feito seu último samba-para-desfile ainda na primeira metade do século do samba,sendo incerto afirmar que qualquer deles possa ser considerado algo parecido com o que assim chamamos hoje de samba-enredo.

Xangô, Nelson Sargento, Zagaia, Babaú e Padeirinho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E o “Garrincha” do samba? Bem, o “Garrincha”com certeza nunca fez nenhum, não era a praia dele. A tarefa ficou mesmo para a brilhante ala de compositores que nunca deveu nada a nenhuma outra.

Xangô, Nelson Sargento, Zagaia, Babaú e Padeirinho

 

 

 

 

 

 

 

 

O Império, pudera! Com aquela dupla Silas/Mano Décio, tanta coisa bonita aconteceu na raia dos sambas-enredo. E mais Campolino, Tio Hélio, D.Ivone, Aloísio Machado, Zé Luiz, Aniceto durante o ano marcaram a lenda imperiana e marcam hoje as rodas de samba, longe, entretanto, de se igualar à Portela.

O Salgueiro deu à cidade uma bela fornada de sambas-de-terreiro; “o neguinho e a senhorita”, a “Miss mulata”, “Água do rio” e "Vem chegando a Madrugada" são apenas alguns exemplos.

E a Vila? Bem, a Vila tem Martinho o que torna as coisas difíceis já que o “cara” se confunde com a própria escola.

Tal como a Vila, as escolas não citadas se destacaram muito mais, algumas exclusivamente, por seus sambas de carnaval, pouquíssimos sambas cantados nas rodas da cidade.

Voltando aos sambas-enredo considero que do ponto de vista individual, de um compositor, integro aquela massa que consagra Silas como o maioral. Se é para tocar nos sambas das rodas, do ponto de vista do conjunto de compositores de sua ala (e pensar que antigamente era assim!) fico com todas as rodas de samba da cidade e voto na Portela, deixando claro que não me refiro a sambas-enredo.

Mas e os sambas-enredo do Salgueiro, pulei? Esqueci? Foi de propósito?

É, foi de propósito. Do ponto de vista da quantidade de sambas memoráveis, inesquecíveis e antológicos voto no Salgueiro, com absoluto e especial destaque para o conjunto da obra dos anos 1960.

Isabel de ValençaPalmares, de 1960, antológico; Chica da Silva, de 1963, histórico; Chico-Rei, de 1964, formal e melodicamente perfeito; História do carnaval carioca-Eneida, de 1965, emocionante; História da liberdade no Brasil, de 1967, i-ni-gua-lá-vel; Dona Beja, feiticeira de Araxá, de 1968, inesquecível. Sem contar Bahia de todos os deuses que está nesta lista por ter incendiado o Brasil.

Não por acaso, a escola naquela década marcaria a história dos carnavais conquistando, repito, em 10 anos, três campeonatos,dois vices e três terceiras colocações.

Só para manter o clima, podemos dizer que os artistas Dirceu Nery e Marie-Louise Nery fizeram o lançamento em 1959 para Pamplona matar no peito e marcar um gol atrás do outro. Pamplona camisa 10 e Arlindo Rodrigues camisa 9. Foi mesmo show de bola.

Não por acaso, o samba de 1967, História da liberdade no Brasil é aquele que destaco como o meu preferido entre todos. Considero, entretanto, "Os cinco bailes", de Silas, Ivone Lara e Bacalhau, o mais bonito, o mais perfeito, o melhor elaborado. É o samba que mandaria para o espaço como exemplo para outras civilizações.

É claro que tudo isso é muito pessoal. De minha parte, entendo, ou procuro entender, o samba-enredo como a ópera brasileira que canta para o povo brasileiro a história do povo brasileiro, de seus heróis. É nesse sentido que essa safra do Salgueiro merece meu destaque não só por exercer esse papel como também desvendar, descobrir, apresentar personagens desconhecidos, ignorados pela história oficial.

Assim se deu com Chica da Silva, Chico-rei, D. Beja personagens sobre os quais nunca eu ouvira falar, mesmo tendo estudado em um colégio prestigiado como o Pedro II.

Nascida, criada, crescida e embalada por sambas tão empolgantes, difícil para minha geração se emocionar com uma boa parte dos sambas atuais. Oportuno aqui lembrar outro jovem do “espaço aberto” que ao saber que o enredo da Grande Rio era sobre o gás de Coari , exagerou: “ o enredo é sobre o pum.”

A comparação aqui não é entre compositores, é entre momentos, entre parâmetros. Gostaria tanto de ver compositores do passado escrever sambas com temas de hoje, principalmente os patrocinados, como gostaria de ver os jovens compositores de hoje escrever sambas com enredos mais livres, com temas do passado.

Chega a ser quase “inconcebível” que a Vila de 1980 tenha nos emocionado tanto com um belíssimo enredo que não foi nem sobre Carlos Drummond de Andrade; menos que isso, não chegou nem a ser sobre a obra do poeta, o enredo teve a ousadia de tratar tão somente de um único poema - Sonho Sonhado - sambaço de Martinho, Rodolfo e Graúna que levou a escola de um rebaixamento para um segundo lugar embolado com Ilha e Mocidade, atrás de Beija-Flor, Portela e Imperatriz emboladas em primeiro.

Mas voltemos a Pelé e Garrincha. Sem eles, poderíamos dizer que Portela teve o Tostão, o Zico, o Didi, o Rivelino...que o Império teve o Nilton Santos, Amarildo, Romário, Gerson...Que Salgueiro teve Dinamite, Torres, Júnior, Falcão, Jairzinho, por aí...e acabaram equilibrando o jogo.

E a vida segue...o jogo da vida continua... E aí a gente fica pensando: onde estará o Ronaldinho Gaúcho? Em que escola estará o Kaká, o Pato, o Robinho. Ou será que vamos ficar assistindo a reapresentações da Suécia, do Chile, do do México, dos EUA e da Coréia e Japão, cantando na lapa sambas das das décadas de 1950, no Candongueiro sambas dos anos 60, e cantando por aí Os Sertões, Macunaíma, Chica da Silva, Cinco bailes e Monteiro Lobato?

Sugestão para ouvir:

"História do Carnaval Carioca": Eneida
Autores: Geraldo Babão e Valdevino Rosa
Voz: coro


História do carnaval carioca: Eneida

Recordando a história do carnaval
Sob o comando do Rei Momo,
Abrimos o desfile tradicional.
O povo abrilhantando
O festival de alegria,
Retratando trajes típicos de uma época.
Entrudo em sensacional euforia.
Ranchos, blocos de sujos e sociedades,
Alegres foliões, aqui relembrados.
E o Zé Pereira,
Pioneiro da folia no passado,
Corso, tradições antigas,
Moças e rapazes
Em carros decorados,
Ornamentados por confetes e serpentinas,
Davam um colorido multicor, ô-ô-ô,
Traziam a presença de Arlequim,
De Colombina e Pierrô.
Bonde é motivo de saudade,
Conduzia passageiros mascarados
Que sambavam e cantavam de verdade.
A inesquecível Praça Onze
Sempre foi reduto de bamba,
Glória e consagração
Da primeira escola de samba.
Os imortais compositores,
Revivemos seus talentos, seus valores.
Hoje reina mais alegria,
Luxo e esplendor,
O famoso baile de Veneza
Nesta apoteose triunfal
Traz sua eterna saudação
Ao baile de gala do Municipal.
Ricas fantasias,
Desfilando em passarela,
Tornam a nossa geografia
Muito mais bela.
Através destes estandartes,
Da união das nossa co-irmãs,
Defendendo o mesmo ideal,
A soberania da música nacional.
Salve o Rio de Janeiro,
Seu carnaval, seu quatrocentão,
Feliz abraço do Salgueiro
À cidade de São Sebastião.
Ó abre alas, que eu quero passar,
Eu sou da Lira, não posso negar,
Rosa de Ouro é quem vai ganhar!

Fotos:

1) Monarco, Casimiro da Cuíca, Jair do Cavaquinho e Casquinha,da Velha Guarda da Portela. Tirada do Álbum da Família Portelense, do CCCP-Paulo da Portela (Centro Comunitário der Capacitação Profissional), de Nilton Júnior e Mozart Chalfum, fotos de Marcio Chalfun, Rio de Janeiro, Arquimedes edições, 2006;

2) Tia Surica, Cristina Buarque e Teresa Cristina, nas inesquecíveis Rodas de Bamba do MIS quando presidido por Marilia Barboza, no show “Mulheres cantam Candeia” produzido por este colunista. Tirada do livro “500 anos da Música Popular Brasileira”, de Marília Trindade Barboza e Arthur Loureiro Filho, Faperj, Rio de Janeiro, 2000;

3) Babaú, Nelson Sargento, Xangô, Padeirinho e Zagaia, todos integrantes do time de “Pelé’ e “Garrincha”. Tirada do livro “Padeirinho da Mangueira, Retrato Sincopado de um Artista”, de Franco Paulino,editora Hedra, S.Paulo, 2005:

4) Isabel Valença, a inesquecível Chica que manda, do não menos inesquecível carnaval de 1963 do Salgueiro. Tirada do livro “Salgueiro-50 Anos de Glória, do não menos Salgueirense Haroldo Costa, editora Record, Rio de Janeiro, 2003;


• E-mail para contatos: lcciata@hotmail.com

* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

Inclua esta matéria no Del.icio.us Inclua esta matéria no Google Inclua esta matéria no Digg Inclua esta matéria no StumbleUpon



Mais notícias...

 MATÉRIAS RELACIONADAS
Memória da Folia: O Brasil e seu povo, o Encontro Marcado (8/5/2008 02:24:00)

Memória da Folia: Um samba-poema-mangueirense histórico (23/4/2008 20:42:00)

Memória da Folia: Carnaval, simbologia e tradição (9/4/2008 01:46:00)

Memória da Folia: Carta à Danielle Nascimento (2/4/2008 02:08:00)

20:05 - Carnaval
Carnavalesco da Mocidade convoca compositores para tirar dúvidas sobre o enredo

19:19 - Carnaval
Estácio de Sá segue com 14 sambas na disputa

19:17 - Carnaval
Bateria da Mangueira faz ensaio de rua nesta sexta-feira

18:58 - Carnaval
Globo acerta com a Sebastiana comerciais para incentivar limpeza das ruas

16:58 - Carnaval
Inscrições para Rei Momo e Rainha terminam nesta sexta-feira


Escolas de Samba
Enquete

Qual dia de desfile do Grupo Especial está mais forte?

Domingo
Segunda
Os dois dias estão equilibrados


 



Grupos Especial CamarotesGrupo AGrupo B Galerias Foto do Leitor Fale Conosco Notícias, bastidores, fotos e tudo mais relacionado ao maior espetáculo da Terra.
O Dia na Folia: Carnaval o ano inteiro, do Grupo Especial ao Grupo de Acesso E, passando por todos blocos e bandas da cidade. O Dia na Folia é um produto do Dia Online

Todos os direitos reservados