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Memória da Folia: O Pelé e o Garrincha do samba Luis Carlos Magalhães usa o futebol como referência para procurar o Kaká, o Pato e o Robinho do Samba Por Luis Carlos Magalhães
Bem, antes de mais nada, e antes que alguém me mande um e-meião daqueles enooormes, reclamando que falo demais na Portela, aviso que o tema hoje é bem outro, juro...a majestade do samba será somente uma referência.
A presença constante da Portela nas rodas e mesas de samba da cidade, independente de qualquer que seja o resultado da Sapucaí, se deve a uma incomparável geração de compositores nascidos no período de ouro de Oswaldo Cruz, ou pouco depois, ainda à sombra, com um ou outro retardatário: Paulo, Paulinho, Candeia, Monarco, Casquinha, Manacéia, Zé Kéti, Noca, João Nogueira, Wilson Moreira, Mauro Duarte, Argemiro, Jair do Cavaquinho, Mijinha, Alvaiade,Lincoln, Alcides, Alvarenga, Valter Rosa, Bubu, Ventura, Aniceto, Chico Santana,Valdir 59. Sem contar uma imensa galeria de novos e não tão novos artistas espalhados pela Lapa e por todo canto da cidade: Zeca, Cristina Buarque, Marquinhos de O. Cruz, Tereza Cristina, Dorina, Marisa Monte, Bandeira Brasil, Mauro Diniz, Marquinho Diniz, Vanderlei Monteiro, Diogo Nogueira, Ciraninho, o grande Ratinho, Juliana Diniz entre tantos outros que a memória não me traz, sejam eles integrantes ou não da ala de compositores.
Na verdade, nem acho que a Portela tenha se destacado na história por seus sambas-enredo. Tirando uns quatro ou cinco, os demais foram bons sambas que cumpriram bem seu papel no desfile, equilibrando-se entre outros quesitos. Mas, e as demais escolas? A Mangueira, por exemplo. A Mangueira entre todas é a que, além de grande presença nas rodas, sempre teve maior fama. Atribuo isso ao fato de, além de sua formidável ala de compositores, a escola ter tido em sua história nada menos que o Pelé e Garrincha do samba: Cartola e Nelson Cavaquinho. Igualmente interessante e curioso é o fato de o nosso “Pelé” ter feito seu último samba-para-desfile ainda na primeira metade do século do samba,sendo incerto afirmar que qualquer deles possa ser considerado algo parecido com o que assim chamamos hoje de samba-enredo.
E o “Garrincha” do samba? Bem, o “Garrincha”com certeza nunca fez nenhum, não era a praia dele. A tarefa ficou mesmo para a brilhante ala de compositores que nunca deveu nada a nenhuma outra.
O Império, pudera! Com aquela dupla Silas/Mano Décio, tanta coisa bonita aconteceu na raia dos sambas-enredo. E mais Campolino, Tio Hélio, D.Ivone, Aloísio Machado, Zé Luiz, Aniceto durante o ano marcaram a lenda imperiana e marcam hoje as rodas de samba, longe, entretanto, de se igualar à Portela. O Salgueiro deu à cidade uma bela fornada de sambas-de-terreiro; “o neguinho e a senhorita”, a “Miss mulata”, “Água do rio” e "Vem chegando a Madrugada" são apenas alguns exemplos. E a Vila? Bem, a Vila tem Martinho o que torna as coisas difíceis já que o “cara” se confunde com a própria escola. Tal como a Vila, as escolas não citadas se destacaram muito mais, algumas exclusivamente, por seus sambas de carnaval, pouquíssimos sambas cantados nas rodas da cidade. Voltando aos sambas-enredo considero que do ponto de vista individual, de um compositor, integro aquela massa que consagra Silas como o maioral. Se é para tocar nos sambas das rodas, do ponto de vista do conjunto de compositores de sua ala (e pensar que antigamente era assim!) fico com todas as rodas de samba da cidade e voto na Portela, deixando claro que não me refiro a sambas-enredo. Mas e os sambas-enredo do Salgueiro, pulei? Esqueci? Foi de propósito? É, foi de propósito. Do ponto de vista da quantidade de sambas memoráveis, inesquecíveis e antológicos voto no Salgueiro, com absoluto e especial destaque para o conjunto da obra dos anos 1960.
Não por acaso, a escola naquela década marcaria a história dos carnavais conquistando, repito, em 10 anos, três campeonatos,dois vices e três terceiras colocações. Só para manter o clima, podemos dizer que os artistas Dirceu Nery e Marie-Louise Nery fizeram o lançamento em 1959 para Pamplona matar no peito e marcar um gol atrás do outro. Pamplona camisa 10 e Arlindo Rodrigues camisa 9. Foi mesmo show de bola. Não por acaso, o samba de 1967, História da liberdade no Brasil é aquele que destaco como o meu preferido entre todos. Considero, entretanto, "Os cinco bailes", de Silas, Ivone Lara e Bacalhau, o mais bonito, o mais perfeito, o melhor elaborado. É o samba que mandaria para o espaço como exemplo para outras civilizações. É claro que tudo isso é muito pessoal. De minha parte, entendo, ou procuro entender, o samba-enredo como a ópera brasileira que canta para o povo brasileiro a história do povo brasileiro, de seus heróis. É nesse sentido que essa safra do Salgueiro merece meu destaque não só por exercer esse papel como também desvendar, descobrir, apresentar personagens desconhecidos, ignorados pela história oficial. Assim se deu com Chica da Silva, Chico-rei, D. Beja personagens sobre os quais nunca eu ouvira falar, mesmo tendo estudado em um colégio prestigiado como o Pedro II. Nascida, criada, crescida e embalada por sambas tão empolgantes, difícil para minha geração se emocionar com uma boa parte dos sambas atuais. Oportuno aqui lembrar outro jovem do “espaço aberto” que ao saber que o enredo da Grande Rio era sobre o gás de Coari , exagerou: “ o enredo é sobre o pum.” A comparação aqui não é entre compositores, é entre momentos, entre parâmetros. Gostaria tanto de ver compositores do passado escrever sambas com temas de hoje, principalmente os patrocinados, como gostaria de ver os jovens compositores de hoje escrever sambas com enredos mais livres, com temas do passado. Chega a ser quase “inconcebível” que a Vila de 1980 tenha nos emocionado tanto com um belíssimo enredo que não foi nem sobre Carlos Drummond de Andrade; menos que isso, não chegou nem a ser sobre a obra do poeta, o enredo teve a ousadia de tratar tão somente de um único poema - Sonho Sonhado - sambaço de Martinho, Rodolfo e Graúna que levou a escola de um rebaixamento para um segundo lugar embolado com Ilha e Mocidade, atrás de Beija-Flor, Portela e Imperatriz emboladas em primeiro. Mas voltemos a Pelé e Garrincha. Sem eles, poderíamos dizer que Portela teve o Tostão, o Zico, o Didi, o Rivelino...que o Império teve o Nilton Santos, Amarildo, Romário, Gerson...Que Salgueiro teve Dinamite, Torres, Júnior, Falcão, Jairzinho, por aí...e acabaram equilibrando o jogo. E a vida segue...o jogo da vida continua... E aí a gente fica pensando: onde estará o Ronaldinho Gaúcho? Em que escola estará o Kaká, o Pato, o Robinho. Ou será que vamos ficar assistindo a reapresentações da Suécia, do Chile, do do México, dos EUA e da Coréia e Japão, cantando na lapa sambas das das décadas de 1950, no Candongueiro sambas dos anos 60, e cantando por aí Os Sertões, Macunaíma, Chica da Silva, Cinco bailes e Monteiro Lobato? Sugestão para ouvir:
Recordando a história do carnaval Fotos: 1) Monarco, Casimiro da Cuíca, Jair do Cavaquinho e Casquinha,da Velha Guarda da Portela. Tirada do Álbum da Família Portelense, do CCCP-Paulo da Portela (Centro Comunitário der Capacitação Profissional), de Nilton Júnior e Mozart Chalfum, fotos de Marcio Chalfun, Rio de Janeiro, Arquimedes edições, 2006; 2) Tia Surica, Cristina Buarque e Teresa Cristina, nas inesquecíveis Rodas de Bamba do MIS quando presidido por Marilia Barboza, no show “Mulheres cantam Candeia” produzido por este colunista. Tirada do livro “500 anos da Música Popular Brasileira”, de Marília Trindade Barboza e Arthur Loureiro Filho, Faperj, Rio de Janeiro, 2000; 3) Babaú, Nelson Sargento, Xangô, Padeirinho e Zagaia, todos integrantes do time de “Pelé’ e “Garrincha”. Tirada do livro “Padeirinho da Mangueira, Retrato Sincopado de um Artista”, de Franco Paulino,editora Hedra, S.Paulo, 2005: 4) Isabel Valença, a inesquecível Chica que manda, do não menos inesquecível carnaval de 1963 do Salgueiro. Tirada do livro “Salgueiro-50 Anos de Glória, do não menos Salgueirense Haroldo Costa, editora Record, Rio de Janeiro, 2003;
* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval
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