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Memória da Folia: O samba-enredo mais bonito da história Luis Carlos Magalhães volta ao carnaval de 90 para relembrar o samba 'E deu a louco no barroco', mais conhecido como Sinhá Olímpia' Luis Carlos Magalhães Se um dia... mil mangueirenses forem consultados e indicarem os vinte mais bonitos sambas da escola, certamente nenhum, mas nenhum mesmo, apontará em sua lista o samba “Deu a louca no Barroco”, de autoria de Helio Turco, Jurandir e Álvaro Caetano (Alvinho). Mas na minha lista ele está! Vale um esclarecimento: nada de se falar em “eficácia” do samba para conduzir a escola à vitória. Neste carnaval de 1990, a Mangueira obteve um modestíssimo 8º lugar. O quesito aqui é outro. Considero que do ponto de vista cultural, tomando por base as precaríssimas condições de ensino a que nossa gente é submetida, o samba-enredo exerce um papel fundamental como forma de se contar a nossa história. Sobretudo a história não oficial. Contar um enredo é muito mais do que captar recursos e produzir um carnaval vencedor; é instrumento de formação da nacionalidade. Quantos de nós, antes de o samba-enredo contar, conhecia Chica da Silva, Chico Rei, a D. Beja de Araxá? Quem sabia quem foi Dom Obá II o príncipe do povo, IÁ-IÁ do Caias Dourado? Até mesmo Zumbi dos Palmares, tão pouco conhecido! Quem de nós sabia da Sinhá Olímpia, de Vila Rica? O Rio de Janeiro não teve um Jorge Amado. É notável que este escritor tenha revelado para a Bahia e para o Brasil (e até para o mundo!) personagens imaginários ou reais do universo baiano trazendo-os ao nosso conhecimento. O samba-enredo é como um Jorge Amado a revelar figuras, fatos do povo brasileiro, tirando-os da história “não oficial”, trazendo-os para dentro da história-viva de nosso povo e do nosso tempo. Assim fez a Mangueira com Sinhá Olímpia. Contava-se pelas ruas de Ouro Preto que ela vivia até bem pouco tempo pelas ladeiras da cidade contando estórias para turistas e para quem mais quisesse ouvir. Pedia sempre uma moeda em troca e disputava as atenções com os monumentos históricos da cidade. Misturava fatos históricos de épocas diferentes. Foi considerada por Rita Lee a primeira hippie do Brasil e transformou-se em musa de Carlos Drumond de Andrade e de Milton Nascimento. Contava-se também que era de família importante da região e que uma desilusão amorosa a levou a vagar pelas ruas. Conta ela que viveu naquela cidade no tempo em que era chamada de Vila Rica, sede do Império Brasileiro. A Vila Rica dos Inconfidentes, lá pelos anos mil setecentos e tal. Dizia ter convivido com o Alferes Joaquim José e que era amada pelo poeta revolucionário Cláudio Manoel da Costa. Que freqüentou porões clandestinos dos inconfidentes cultivando os mais belos ideais de liberdade. Que era belíssima. Rainha dos salões dos bailes imperiais e freqüentava ambientes de raríssimo esplendor. Que amou tanto quanto foi amada. A Cinderela de Vila Rica... Contam que sempre era vista com seu vestido de fitas, chapéu florido e seu imponente cajado; uns diziam que era louca, outros que vivia inventando estórias... Para ela, nada disto importava. Coisas do nosso tempo, do nosso mundo tão chato, tão medíocre... tão previsível. Para ela nada disto valia, se era verdade ou se era invenção, se era real ou se era delírio. Delírio, isto sim. Sua vida era bela, era fascinante de emoções porque “ela” acreditava naquilo que contava. E vivia intensamente, cada baile, a dor de cada romance. Transformava tudo que julgamos “mentira, na mais fiel realidade”. A realidade do mundo irreal em que vivia. Que se passava nas ruas da Vila Rica dos Inconfidentes. Assim era o que se dizia... Um dia Sinhá Olímpia morre. Foi na década de 70. Ela que havia nascido em 1888 segundo consta de um papel carimbado por um cartório local. Ela que viveu entre sonhos e quimeras todo o esplendor do século XVIII, sem que nenhum cartório tenha registrado isto. Aí vem o carnaval de 1990. Os poetas do povo captam a magia de uma personagem tão formidável, tão singular, para tirar-nos do nosso mundo-pé-no-chão, através das cores, cheiros e sons do carnaval e nos conduzir ao mundo dela. Ao espaço infinito de suas estórias, sem datas, sem regras, sem limites. O mundo dela que não era mais aqui, e nem é o “mundo dela” de Vila Rica. Agora não acordará mais. Não haverá amanhecer... Suas estórias aqui não fazem mais sentido, serão agora contadas em outros lugares, em outros planos: “...vai contar história no infinito E num desfecho inspiradíssimo, momento mágico do carnaval, a escola colorida se identifica com a musa e pergunta: Quem é essa mulher, intangível, indecifrável? E assim é a própria Mangueira que, em pleno delírio de carnaval, responde sua própria pergunta, travestindo-se nela, para deixar que ela mesma, em verde e rosa, se defina para nós, pobres, equilibrados e sensatos mortais, e revele a sua paixão maior: “...Sinhá Olimpia Sugestão para ouvir: • Deu a louca no barroco • E-mail para contato (não para comentários) lcciata@hotmail.com
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