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Memória da Folia: O supercampeonato de 1953 - 2º tempo * Luis Carlos Magalhães Tia Surica da Portela é de outro tempo... _ Eu sou do tempo da rivalidade; hoje é que tem esse negócio de co-irmã pra lá, co-irmã pra cá. No meu tempo não era assim, não! E é com essa autoridade que ela diz: _ Tá certo! Naqueles anos a rivalidade com o Império era muito séria, mas era uma rivalidade local. A rivalidade mesmo, antiga, era com a Mangueira. A briga era entre nós e a Mangueira. E ela tinha mesmo razão. No período anterior a 1947, fundação do Império, a escola do morro era o Prazer da Serrinha; raras vezes a escola obteve colocação entre as dez primeiras. Desde o primeiro desfile até então a Mangueira alternava 1º, 2º e 3º lugares, exceto em 1948 que tirou em 4º. Rivalizava com a Portela que venceu em 1935, 1939 e mais sete vezes seguidas entre 1941 e 1947. O que Surica diz é que a grande rivalidade já vinha de longe... de muito longe... Mas a partir de 1948, em entidades separadas, o Império sagrou-se tetracampeão de 1948 até 1951. O ano de 1952 era o do tão esperado confronto do heptacampeonato contra o tetracampeonato. E aconteceu o que sabemos, a tão polêmica anulação. Segundo os imperianos, a chuva impediu o desfile. Segundo os portelenses, o império viu que ia perder pra Portela e anulou o desfile. Vida que segue... A cada dia o grande embate, adiado por um ano, se aproximava. A Portela já não tinha Paulo, mas agora tinha Natal. O Império tinha Mano Elói, e tinha Irenio Delgado por perto, homem astucioso e muito influente “lá em baixo”. A ele os portelenses atribuíram os quatro títulos “não engolidos” e a anulação do desfile anterior. Vida que segue... Um outro complicador era que todo mundo era de Madureira. Havia fortes e sólidas relações de amizade e respeito entre alguns dos agora arqui-rivais. O Presidente do Império era Manoel Feliciano, o Manula, que era grande amigo de Armando Santos, presidente da Portela; em respeito ao amigo, Manula renunciou em favor de Mocorongo que conduziu a escola em 1953. Sebastião Molequinho está aí muitíssimo vivo pra contar que no primeiro desfile do Império (1948) a escola pegou, emprestado da Portela, seu grande baluarte e fundador Antonio Caetano que coordenou o enredo sobre Castro Alves que levaria a escola ao seu primeiro título. E aí, como é que fica? Fica que o carnaval chegou... Domingo, 15 de fevereiro de 1953. Choveu tanto quanto no dia do desfile anulado do ano anterior. A diferença era que desta vez a Prefeitura fizera um palanque que protegia os jurados. Os representantes das três entidades acordaram pela realização de dois desfiles: o supercampeonato, na Avenida Presidente Vargas, entre a Uruguaiana e a Rio Branco. Eram 25 escolas, oito representando cada entidade e mais o Império, campeão de 1951. Cada escola com no mínimo 300 componentes (isso mesmo, 300 componentes, pode?). O outro desfile era na Praça Onze, com as demais filiadas, com no mínimo 100 componentes. Naquele ano o Departamento de Turismo construiu um tablado de 60 metros de comprimento e 20 metros de largura, com 1 metro de altura, para facilitar a visão do enorme público que era esperado. Uma arquibancada especial foi erguida para os turistas. Ali se inaugurava o sistema de acesso das escolas do grupo II. Três escolas vencedoras subiriam. Os críticos da época já advertiam “...que o poder público (...) estava criando parafernália burocrática bitololadora do livre folgar, do verdadeiro espírito carnavalesco, promovendo cada vez mais o carnaval espetáculo em detrimento da lúcida espontânea e libertaria das ruas”. Mano Elói era o Presidente do poderoso Sindicato Resistência, de trabalhadores da estiva do cais do porto. Eram tantos Imperianos ali trabalhando que suas contribuições mensais tornavam a escola conhecida como “Império Rico”, expressão que D. Neném ouviu muitas vezes naqueles dias, nas ruas de Madureira. Tal posição financeira garantiu naquele supercampeonato ao Império Serrano um desfile de grande impacto, com o enredo “Último Baile da Corte ou Ilha Fiscal”. Era o que o jornal “O Globo” estampava no dia seguinte. “ os carros do Império Serrano foram este ano um bom exemplo dessa tradição. Procurando mostrar o último baile realizado no Brasil pela Corte de D. Pedro II, seus artistas fizeram toscas figuras de homens e mulheres em movimento de dança, com feições que fazem pensar nas dos profetas do Aleijadinho. (...) o requinte de sua apresentação, a beleza típica de suas evoluções, a beleza rítmica de seu samba, tudo isso faz do Império a mais provável vencedora do desfile deste ano, com a conseqüente conquista do título de pentacampeã”. Como podemos ver, já naquele tempo os jornais já erravam em seus prognósticos pós-desfile. Naquele ano não ia ser diferente. Sob a batuta de Natal a Portela entrou deslumbrante. O samba de Candeia e Altair Prego soava como uma sinfonia. Alvaiade tocava a harmonia como um pastor a seu rebanho. A bateria do mestre Betinho, com seus 40 homens, garantia o andamento do canto. Nunca se viu a Portela cantar tanto quanto naquele domingo, parecia que era a última vez. A escola cantou como se fosse o último desfile de sua história. D. Neném não desfilou em 1952 porque estava grávida de Áurea Maria. Em 1953 ficou em casa cuidando do bebê. Ela e toda Madureira acordaram no dia seguinte com um estranho clima. Todo mundo da Serrinha tinha certeza da vitória, confirmada pelas páginas do jornal. Todo mundo da Portela tinha certeza da vitória, certeza esta “sombreada” pela força dos cartolas do Império e pela lembrança da anulação desfile do ano anterior. Veio a 5ª feira, dia da apuração. Natal e sua turma foram “lá pra baixo” conferir. Mano Elói, seu Molequinho, Mestre Fuleiro... o Império estava todo lá. No final da tarde, em Madureira, no botequim do Nozinho, junto à Portelinha, chegavam notícias esparsas. Primeiro que Império havia vencido, logo desmentida. Depois que a Portela tinha tirado 10 em cenografia e 10 na comissão de frente. Outro chegou dizendo que soube de três notas 10: bateria, comissão de frente e conjunto. Logo depois outra notícia dava conta de outra nota 10 no quesito bandeira. Uma mulher vindo da casa de Dna. Neném chegou muito orgulhosa dizendo que o samba da escola era nota 10, letra e música. Disse também que houve notas 10 para enredo e harmonia também. De repente... o silêncio. Naquela altura no botequim do Nozinho não cabia mais ninguém. Todos se entreolharam. Parece que no mesmo instante se deram conta de que a Portela marcara inimagináveis 400 pontos, com nota máxima em todos os quesitos, feito nunca antes conseguido em toda história passada, presente e futura do samba. Ante a incredulidade, o silêncio prosseguiu por alguns instantes; silêncio só quebrado por uma voz vinda lá de dentro do bar. Eram as primeiras notas e versos do samba do menino Candeia lembrando cada um dos heróis das Seis Datas Magnas: Foi Tiradentes... Em tempo: naquele ano o jovem Monarco, hoje glória da Portela, tendo vivenciado tanta emoção, compôs seu primeiro samba para a escola, um dos mais bonitos de sua obra, um dos mais bonitos da história da Portela: ‘VITÓRIA RETUMBANTE”. Fontes: As mesmas do texto da semana anterior e mais: - Alvorada: um tributo a Carlos Cachaça. Marilia Barboza. Funarte, 1989; - Carnaval: Seis Milênios de História. Hiran Araújo. Griphus, 2000. Sugestão: YOUTUBE: Portela 1953 – As seis datas magmas. * Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval e advogado
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