19/02/2009 10:12:00

Memória da Folia: Qual o Carnaval que queremos?


por Luis Carlos Magalhães


O debate realizado por um jornal do Rio esta semana trouxe questões importantíssimas sobre o atual momento dos desfiles das escolas de samba.

Entre os temas tratados destaco aquele que considero o X do problema: a falsa, inoportuna e obscura anteposição da tradição à modernidade.

Destaco alguns pontos, esclarecendo que os grifos são meus:

Dr. Hiran Araújo: “O julgamento é subjetivo, não é matemática é o pensamento de cada um”.

Laíla: “Todas as escolas por onde passei foram montadas em cima do regulamento” (...) A escola não vive do espetáculo, vive de sua essência: canto, dança e ritmo. Temos que aprender a mesclar (...) o que é o grande espetáculo e o que é a essência do samba”.

Dr. Hiran: (...) “hoje o visual é predominante (...) desde 1973 quando colocamos o público olhando de cima para baixo nas arquibancadas tubulares (...) o valor das artes plásticas começou a crescer sobre os valores do samba”. (...) “é o visual que nos exporta para o mundo, não é o samba tradicional”. (...) “ a escola de samba desfila para a televisão”.

Bem, vamos lá. Quanto ao fato de o julgamento não ser matemática, não chega a ser nenhuma novidade. É fato também que prevalece o pensamento de cada um. A questão que se coloca nesta discussão é o quê o julgamento deve privilegiar.

Laíla tanto quanto qualquer dirigente tem a missão de ganhar o carnaval. Nem ele nem nenhum outro poderá ignorar o regulamento. Regulamento quer dizer: corpo de jurados.

Este é o ponto relevante nisto tudo: o julgamento. O carnaval, o desfile, o caminho que será trilhado depende, afinal, daquilo que a comissão julgadora vai privilegiar. Ou será que o rumo do carnaval é determinado pela televisão, pelo público externo que compra as imagens?

Se for esta a hipótese o Dr. Hiran tem toda razão. O público estrangeiro não conhece nossa história, não tem o menor compromisso com as tradições brasileiras e não conhece a nossa língua. Para que o espetáculo lhe seja atraente tem que ser um espetáculo visual com predominância das artes plásticas sobre os valores do samba tradicional.

Mas e se não for assim. E se o que é mais importante em um desfile de escolas de samba for a preservação da cultura brasileira, da história de sua gente? E se muito mais do que isto o desfile significar uma forma de uma parte de o povo brasileiro brincar o carnaval a sua maneira? Aí Laíla terá razão ao afirmar que a essência das escolas de samba é o canto, a dança e o ritmo.

O que Dr. Hiran parece estar dizendo é que o desfile vive do espetáculo, ao contrário de Laíla, de Milton Cunha que pede “uma segurada do visual”, que se privilegie o humano de Arlindo Cruz que pede que “se brinque o carnaval” e de Helena Theodoro que pede que “as escolas de samba possam ser escolas de samba”.

E aí eu fico me perguntando: afinal quem é o dono do carnaval? Quem é que estabelece qual é, afinal, sua essência? Tem que ser dançado e cantado e sambado com a alegria própria do carnaval ou sua essência é ser transformado em um produto atraente para platéias estrangeiras?

Será que o desfile das escolas de samba é para ser concebido, embrulhado e vendido tal como um pacote de rapadura, “visualmente melhorada”, para ser um item a mais na pauta de exportações brasileiras? Tal como foi o açúcar um dia, o café depois?

Afinal quem é que determina que o visual prevaleça? Quem determina que as escolas cometam o supremo exagero de desfilar com 4000 pessoas? Quem é que determina que a bateria tenha andamento tão acelerado, que o samba seja mediocremente marcheado?

De onde sai a “mensagem” determinadora do paradigma da perfeição. Ou seja: que todo erro deva ser punido, tal como fazem os sargentos do 3° R.I. com seus soldados que erram no 7 de setembro?

Não tardará o dia em que o dirigente puxará a orelha do sambista: “aqui não é lugar para se divertir; aqui é lugar de ser disciplinado”.

De que maneira é formada a cultura determinadora de que as alas de passistas - das maiores atrações de todos os carnavais - fiquem escondidas atrás do carro de som tirando do alcance do público um momento tão formidável da festa?

Tal como cabeça de bacalhau, que nunca ninguém vê, assim são estas marcas e verdades estabelecidas que ninguém assume defender. O que mais vemos é tanta gente reclamar; o que menos vemos é alguém justificar.

Certo ou errado, justiça seja feita, Dr. Hiran está expondo claramente sua opinião. Com isto possibilita que se coloque a questão claramente na mesa do carnaval: qual é o desfile que nós queremos? E, mais difícil ainda, quem é afinal esse nós, cara pálida?

Quero também deixar bem claro meu pensamento já tantas vezes exposto neste espaço. Por esta razão me permito reproduzir aqui um trecho de minha coluna de 24 de janeiro último:

“Entendo que o desfile de escolas de samba só alcançou este nível de prestígio porque teve a qualidade, o mérito, de reunir, de misturar o “samba” e o “carnaval” em um único espetáculo. Um incomparável e inesgotável jogo de forças que se fortalece, que jamais se anulará, forças que se complementam e se nutrem mutuamente. Uma simbiose de fazer inveja à própria natureza.

Por outro lado, incorporou outras formas carnavalescas anteriores, formando a síntese da história da folia carioca. Do rancho, a forma processional, a exibição e proteção da bandeira. Das Grandes Sociedades, as alegorias. Dos bailes, o exibicionismo das frisas e camarotes de teatros e de clubes. E das festas ‘de santo’, do jongo a incorporação do batuque vindo do Congo e de Angola.

Nesse caldeirão, nessa mistura, ao samba cabe garantir a perenidade da festa, com suas fundas raízes, sua infinita tradição ancestral. São fundamentos do desfile extraídos da mais dura, forte e resistente história sócio-cultural de uma gente que para cá foi trazida deixando marcas tão relevantes para todos nós.

Assim é o batuque das nossas baterias, mesmo com andamento tão forçado. Assim são as baianas, como as tias da Praça Onze. Assim nossos passistas, com traços dos velhos capoeiras do passado, mesmo tão sem espaço em nossas quadras, mesmo tão escondidos nos desfiles atrás dos carros de som.

A beleza maior de nossas porta-bandeiras, com seus mestres-salas, a nos lembrar os ranchos da Pedra do Sal. Assim o samba, mesmo hoje tão marcheado, deixando a ‘síncopa’ - a marca do samba - cada vez menos perceptível, cada vez menos valorizada.

O resto é carnaval, e não é pouco, não!

Ao carnaval cabe a ‘glamourização’ da festa em luzes, cores, fantasia, alegoria, surpresa, descontração, irreverência e tudo mais que o sensualize na medida exata da nossa maneira de ser, sem os excessos que o vulgarize.

Espaço, aí sim, para modernidades com e sem aspas, experimentos, ousadias, maluquices de toda ordem pontuadas sempre pela beleza e pela marca da nossa cara.

Aí está a “chave”!

A medida deste equilíbrio de forças entre o carnaval e a tradição está na marca da nossa cara, da nossa gente, da nossa mistura, da nossa história, da nossa diferença perante outros povos e outras culturas - nem melhor nem pior, sempre.

A convivência nestes espaços separadamente misturados faz a festa brilhar mais e mais; mesmo tendo que admitir que a reverência aos baluartes tenha se deslocado da frente da escola, dando lugar a coreografias ensaiadas relacionadas ao melhor desenvolvimento do enredo.

Em sentido inverso, o da incompatibilidade, estará a supressão do ‘samba’ pelo carnaval, ou vice-versa, em razão do pragmatismo do desfile-para-jurado-ver ( ou para estrangeiros verem). Não consigo imaginar o espaço do canto e da dança do samba ser transformado em pista de batalha de confete, ou de pula-pula de mãos acenando”.

Enfim, entendo que é isto que Laíla quis dizer no debate: “temos que aprender a mesclar o que é grande espetáculo com o que é essência das escolas de samba”. E aqui tomo liberdade de trocar apenas a palavra “mesclar” por “equilibrar”.

E ouvindo mais uma vez o resumo do debate, nem acho que Dr. Hiram estivesse querendo expurgar os fundamentos “sambísticos” do desfile, digamos assim, pelos fundamentos excludentemente carnavalescos. Acho mesmo que tal impressão pode ter ficado em razão do tom acalorado do debate. Isto fica bem claro no trecho final,retrucando Laila que o mandava para a Broadway: “a escola de samba faz tanto uma coisa (espetáculo) quanto outra (samba); eu não quero carnaval sem bateria, sem mestre sala”.

Assino em baixo de tudo que foi dito por Laíla. E mais: mesmo já tendo até pedido a Papai Noel uma escola que derrote a Beija-Flor, tenho a imensa esperança de que sua escola marque este ano seu carnaval pela alegria de sua gente.

Que faça de seu desfile uma “prova’ de que nosso carnaval é possível, mostrando seus componentes como sambistas que são, alegres foliões do carnaval e não soldados de um exército treinado para não errar.

 


Em tempo: Para acessar o resumo do debate:

www.galeriadosamba.com.br

Espaço Aberto: postagem de Marcos Rodrigo Poletto em 14/02/2009

Tópico: Palmas para Laíla

 

* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval


Email para contato: lcciata@hotmail.com

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