24/12/2008 10:11:00

Memória da Folia: 'Querido Papai Noel...'

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)



Querido Papai Noel,

Puxa, há quanto tempo...

A última cartinha que fiz nem lembro mais o ano. Pedi uma bola de couro bem vermelho, igual às de verdade (tipo G-18) como aquelas do Maracanã.

Pedi também um uniforme completo tricolor, inclusive com aquelas meias com listas horizontais, lembra?

Cada menino da minha rua pediu a mesma coisa, cada um de seu time. Aquela manhã de natal foi a mais colorida da minha rua...

A mais feliz de toda minha vida.

Tô escrevendo hoje, Papai Noel, porque o carnaval é para mim agora tão importante como aqueles natais da minha infância.

Sabe, Papai Noel, o tempo passou muito depressa. Muitas pessoas queridas se foram e o natal foi ficando, queiramos ou não, com aquela marca meio entristecida... e a gente fica ali...lembrando...querendo recuperar um tempo perdido no tempo... com a inútil sensação de que não amamos tanto a quem devíamos ter amado tanto.

O melhor do Natal hoje para mim, Papai Noel, é que depois dele tudo cheira a carnaval. Por isto que resolvi mandar esta cartinha cheia de esperança.

Sabe, Papai Noel, o carnaval ‘tá chegando. E aí a gente fica se perguntando: que escola será a campeã? E a resposta é mais ou menos parecida com aquela que temos que dar quando perguntam: quem vai ser o campeão brasileiro do ano que vem?

Tudo indica, Papai Noel, que as respostas serão Beija Flor e São Paulo.

E aí, Papai Noel, a gente fica pensando. Por um lado é a tal da meritocracia: que vença o melhor. A escola e o clube mais estruturados; a  que erra menos e o que perde menos.

E aí, meu bom velhinho, é  que está minha esperança. Não no futebol, caso quase perdido, mas no carnaval. E vou dizer por quê.

Tenho percebido entre sambistas, jornalistas, leitores, estudiosos, internautas e até, juro, por parte dos dirigentes do carnaval, uma vontade de que alguma coisa ficasse diferente desta previsibilidade que vem ocorrendo nos últimos anos.

Sabe, n’é papai Noel, a gente tem esta mania de tudo ser o maior do mundo. Maior espetáculo da terra, maior reveillon do mundo, maior estádio do mundo... não tem jeito. É sempre assim.

Eu só acho que no carnaval este fato está interferindo de uma forma um pouco exagerada.

Sempre lembrando Eneida, temos que tomar cuidado com saudosismos, até porque ninguém gosta de se assumir saudosista. Bom lembrar Sergio Cabral, grande folião, sempre advertindo que o carnaval é o espaço irresistível para  saudosismos.

Então vamos falar do Reveillon em Copacabana. Foi uma festa inventada, criada, parida pelos praticantes das religiões de origem africana e que contagiou todo o povo da cidade de todas as religiões.

Um dia inventaram os fogos de artifício para ‘incrementar a festa’: muito bom.

Depois começaram a instalar palcos pequenos para pequenos shows que divertissem o público de outras religiões enquanto os ‘do santo’ cumpriam seus rituais, enquanto não chegava a meia-noite.

E os palcos começaram a crescer, superstars convidados.

Robustíssimos equipamentos de som e de imagens passaram a atrair mais e mais público de todas as procedências sociais e religiosas: nascia o maior reveillon do mundo, certo?

Hoje, papai Noel, aquela festa originalíssima, única no mundo, ab-so-lu-ta-men-te pacífica, com uma energia incomparável sendo trocada por milhões de pessoas de branco, foi descoberta por outros interesses e transformada em um imenso festão, um bundalelê de sons, fogos e cores, com certeza fazendo a alegria de muita gente.

E ainda se vê grupos de branco cumprindo obrigações religiosas, secundariamente. enquanto outros grupos buscaram outros locais e até outros dias.

Sabe, Papai Noel, na verdade, na verdade, nessas horas eu me sinto um pouco ‘roubado’, violentado até.

É mais ou menos assim como  sair para jantar com amigos, saborear um prato, tomar um bom vinho? Outra coisa é ir ao Mc Donald's comer a tal ‘fast food’.

Sabe como é ir ao Cinemark de um shopping center, chegar lá comprar ingresso, comprar pipoca, sentar assistir o filme, comer uma fast-food na praça de alimentação e ir embora? Eu faço isto, Papai Noel... tanto quanto vou ao maior reveillon do mundo, mais eu não queria isto para mim sempre, a vida toda...a menos que seja inevitável como tantos ‘sapos’ que temos que engolir por aí.

Tô contando isto, Papai Noel, não é para dizer que queria de volta o velho cinema São Luis. O velho Metro, o Santa Alice, o Carioca, o Copacabana de volta. E nem aquele ritual de ficar na ante-sala olhando as fotos de nossos ídolos, ouvindo os  sinais sonoros e coloridos que anunciavam o filme.

Não, nada disso.

Nem muito menos ir ao cinema Palácio, no tempo da Belle-époque, e ficar ouvindo Ernesto Nazareth e Pixinguinha tocando na ante-sala enquanto ao ‘fita’ não começava.

Nada disso...

Sei muito bem que são outros tempos. As dificuldades de estacionamento, a insegurança, a praticidade e o pragmatismo que a vida moderna impõe acabam por transformar um cinema em dois, às vezes em três como em São Paulo., todos aglutinados nas estruturas dos shoppings.

Tá legal que a gente vá assistir cinema entretenimento, cinema passa-tempo, cinema exibição de tecnologia, eu sei que o mercado impõe isto e é um direito das novas gerações fazer esta opção. Mas há um outro cinema; diferente do “só aventura’, “só entretenimento’. Há um  cinema feito com um outro tipo de arte que constrói, que ilumina, que lapida a alma da gente, e que cada vez fica mais distante.
 
Hoje vivemos inevitavelmente o tempo do fast-food, do fast-reveillon, do fast-cinema, do fast-futebol e do fast-quase tudo. Será que o carnaval também vai ficar assim?

A festa cresceu muito desde a minha última cartinha. A presença da TV, as altas arquibancadas, a comercialização dos horários com conseqüente cronometragem, tudo isto aconteceu. Aconteceu e fez muita coisa mudar, tal como a marcha natural e inevitável do progresso, da ciência, da tecnologia e das comunicações; não há como evitar isto...  Novos materiais, novos ângulos, novos profissionais, novas cabeças: o maior espetáculo da terra.

Para nosso orgulho.

O que me anima, Papai Noel, é ver e ouvir um pouco além disto. Ouvir e ler outros sentimentos. É ficar perguntando a quem beneficia um tipo de carnaval tão previsível, carnavais em que o que prevalece não é a cultura do samba e sim a cultura do grande espetáculo. É ver e ouvir perguntar por quê, quem é que disse que a prevalência da cultura do samba elimina a possibilidade do grande espetáculo, da beleza do espetáculo, da organização do espetáculo?

Em que medida o grande espetáculo não pode conviver com marcas tão ricas, tão fortes,
da ancestralidade de nossa gente, marcas que nos fizeram chegar tão fortes até aqui?

Só para pegarmos os fundamentos da cultura do samba dos carnavais de hoje: o samba-enredo, as baianas, os passistas, a bateria, o mestre-sala e a porta-bandeira.

 Toda essa evolução favoreceu uma nova, mais vistosa, mais exuberante maneira de contar o enredo. Basta ver os velhos filmes dos antigos desfiles: fantasias de capa-espada, cabeleiras e caixotes-alegorias. Um tempo para ser respeitado e reverenciado... o tempo heróico do carnaval das escolas; um tempo que ficou para trás, que foi a base do que vemos hoje.

Para todo  o nosso orgulho.

As mudanças...que venham as mudanças...

 As escolas encontraram uma outra forma de reverenciar seus baluartes abrindo espaço para  que as novas comissões de frente contribuam para facilitar a leitura de seus enredos.

A tradição...que se respeite a tradição...

O que se pergunta, Papai Noel, é qual a relação do samba-enredo marcheado ou sincopado com a grandeza ou não do carnaval espetáculo. Onde um ou outro  interfere neste tipo de resultado.

Será que vamos acabar um dia conseguindo cantar um ‘samba’ com a mesma batida ‘assincopada’ de um “parabéns p’ra você? Tente aí, você vai ver que já é quase possível.

Vamos lá...tente: “ tengo, tengo, Santo Antonio chalé; minha gente é muito samba no pé”

Em que medida passistas escondidos, sem espaço, quase clandestinos, atrapalham a evolução das escolas fazendo-as perder pontos? Muito mais lento é o bailar  dos mestres salas e porta-bandeiras.Nem por isto os casais perdem pontos.

Muito mais difícil é o entrar e sair das baterias em seus boxes. E as escolas todas têm feito isto muito bem. Que venha a escola até em cima de uma alegoria, como já vimos, mais que mantenha sagrada sua batida, a matriz do batuque ancestral. Mestre Ciça cuidou disto muito bem. Ele sabe que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Sabe, Papai Noel, fico perguntando: por que tamanha boa vontade, tamanha competência para inventar o espaço coreográfico das comissões de frente e nenhuma competência, nenhuma boa vontade para criar espaços de evolução para aqueles que tanto nos encantam, os passistas e as cabrochas exemplos maiores de uma forma tão brasileira de dançar?

Fico pensando, Papai Noel, como a tradição das baianas é forte. Não me lembro de ninguém querendo  transformar uma daquelas alas.  Já pensou Papai Noel alguém sair por aí inventando “a maior ala das baianas do mundo: lindíssimas... iluminadas, sonorizadas como a festa do reveillon, com torso modernoso, bata prafrentex, pano-mais-ou-menos-da-costa e saia pouco rodada.

A gente sabe, Papai Noel, que não é pelo fato de alguém ser da estrutura de uma escola de samba que faz dele um sambista comprometido com o samba. Pode haver um carnavalesco apenas  comprometido com a plasticidade do enredo, produzindo belíssimos espetáculos visuais, sem que seja necessariamente sambista? Claro que pode e deve haver mais de um.

Pode haver diretores de carnaval e de harmonia competentíssimos para colocar a escola na pista, e fazê-la evoluir sem um único erro,  sem que seja necessariamente comprometido com a cultura do samba. Claro que sim, e deve haver vários.  Tanto quanto pode haver  dirigentes e até compositores que compreensivelmente privilegiam a vitória pouco se lixando para a cultura do samba. Sem falar nas artistas que buscam o maior proveito das câmeras de tv e de jornais no momento do desfile sem nem querer saber o resultado final.

Por isso tudo Papai Noel é que escrevo esta cartinha.

Acho que estamos vivendo um momento em que  cabeças e pensamentos diversificados do carnaval devem ser chamados a discutir, identificar  exageros. Identificar e incentivar os fundamentos culturais e étnicos da festa, identificar os pontos cujas alterações são necessárias e extirpar modernices que só servem á lógica fast-food daqueles que não têm o menor compromisso com as tradições brasileiras.

Tradições que nos fizeram chegar tão fortes até aqui.

Resumindo, ensinar a dança clássica para mestres-sala e porta-bandeiras é como jantar frango assado de televisão de cachorro, tomando vinho em copo de plástico; é como tomar caipirinha com adoçante em copo de papel; cerveja sem álcool.

O carnaval sem passistas, sem bateria-que-nos-faça-dançar, sem samba-que-nos-faça-cantar, sem baianas que nos deixem com água na boca, sem porta-bandeiras que nos apaixonem é fast-food.

E o pior, sem bateria que nos arrepie...

E assim termino estas mal traçadas, mostrando ao senhor minha listinha com 15 pedidos de natal:

1°) Quero um carnaval vibrante, bonito, luminoso, criativo, surpreendente e , acima de tudo, carnavalizado e bem, muito bem, humorado;

2°) Um carnaval coroado de sucesso por não ter enredos geográficos nem mineralizados;

3°) Um carnaval que faça justiça a cada escola mas que mantenha forte as quatro grandes do passado para que sejam sempre referência do futuro;

4°) Um carnaval moderno, evolutivo, repleto de novos caminhos e novas soluções  mas que respeite sempre a sacralidade da síncopa dos sambas, a cadência
intocável das baterias, o espaço sagrado dos passistas, a divindade das baianas, a graça e a beleza natural da dança dos mestre-sala e das porta-bandeiras;

5°) Que cada escola, cada samba, cada bateria traga para todos nós um desejo incontido de cantar e dançar;

6°) Que as escolas alcancem o equilíbrio financeiro que propicie progressivamente a gratuidade das fantasias para suas comunidades de origem;

7°) Que as alas de compositores se fortaleçam e forcem suas escolas a rejeitar os ‘escritórios’ de parcerias;
8°) Que os jovens compositores tenham liberdade para compor sem a ‘parelha’ de sinopses complicadas;

9°) Que a Lesga dê certo e que os demais grupos igualmente encontrem seus caminhos;

10°) Que o dinheiro do carnaval de todos os grupos seja tratado com mais rigor ainda, com prestações de conta  ainda mais rigorosas, com ampla fiscalização, com um plano de contas próprio;

11°) Que a terça-feira de carnaval deixe de ser uma terça-feira murcha e encontre o evento certo que a transforme em terça-feira gorda;

12) Que a campeã do acesso passe a desfilar com honra e glórias no sábado das campeãs;

13) Que seu Sebastião Molequinho abra o desfile do alto de seus 88 anos exibindo sua condição de último herói vivo remanescente dos tempos heróicos das escolas de samba;

14°) Que  a cidade volte a ser ornamentada para o carnaval:

15°) Que apareça uma escola para superar  a Beija-Flor mesmo reconhecendo sua condição de escola que mais respeita e pratica os fundamentos dos desfiles.


Em tempo I:  Se couber no seu saco vermelho, traga também um time de futebol para derrotar o São Paulo.

Em tempo II: Não pense que estou fazendo pedidos de Natal em causa própria. Em nenhum momento estou pedindo que tal escola seja a Portela e que tal time seja o Fluminense.

Em tempo III: A menos que o senhor queira dar àquele menino, que já não existe mais , uma alegria tão grande quanto aquela daquele Natal. Se o senhor assim quiser...a escola é uma que desfila toda orgulhosa com uma águia imensa bem na frente. O time é um
que usa o uniforme mais bonito de todos: verde, branco e grená.

Em tempo IV: Se quiser me fazer mais feliz ainda, é só fazer o Cabuçu passar para o grupo RJ-2.


* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

Inclua esta matéria no Del.icio.us Inclua esta matéria no Google Inclua esta matéria no Digg Inclua esta matéria no StumbleUpon



Mais notícias...

 MATÉRIAS RELACIONADAS
Artigo: Xangô da Mangueira, o velho (e eterno) companheiro (08/01/2009 09:41:00)

Memória da Folia: Feliz Ano Novo, Dona História... (31/12/2008 01:00:00)

Luis Carlos Magalhães: Elton Medeiros faz show imperdível na Toca do Rato (05/12/2008 11:55:00)

Memória da Folia: Uma história do Pagode do Trem (01/12/2008 14:49:00)


Escolas de Samba
Enquete

Na sua opinião, qual desfile pode ser considerado o
mais importante da
história do Sambódromo?


'Braguinha' (Mangueira, 84)

'Kizomba' (Vila Isabel, 88)

'Liberdade, liberdade' (Imperatriz, 89)

'Ratos e Urubus'
(Beija-Flor, 89)

'Vira, Virou...a Mocidade chegou' (Mocidade, 90)

'Vou cair na gandaia', (Viradouro, 97)


 



Grupos Especial CamarotesGrupo AGrupo B Galerias Foto do Leitor Fale Conosco Notícias, bastidores, fotos e tudo mais relacionado ao maior espetáculo da Terra.
O Dia na Folia: Carnaval o ano inteiro, do Grupo Especial ao Grupo de Acesso E, passando por todos blocos e bandas da cidade. O Dia na Folia é um produto do Dia Online

Todos os direitos reservados