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Memória da Folia: Um samba-poema-mangueirense histórico Colunista vai buscar na alma sofrida do povo brasileiro a marca de um samba que é orgulho da Nação Mangueirense, e de todos nós Luis Carlos Magalhães A música é sem dúvida a forma de arte mais e melhor utilizada pelo povo brasileiro, em seu cotidiano, seja para contar suas alegrias, seja para as tristezas. Maior exemplo disso são os sambas-enredo, marca maior do carnaval, como tantas vezes dissemos aqui. Certamente o fenômeno climático das secas nordestinas é um dos que historicamente mais castigou e castiga uma parte de nossa gente. Para esses brasileiros a seca e o fenômeno da urbanização progressiva, acentuada na década de 1930, agiram no sentido de afastá-los de seus lugares de origem em busca de melhores oportunidades, muitas vezes literalmente em busca de sobrevivência. Muitos se retiraram deixando suas famílias na esperança de voltar ou de mandar buscá-las um dia. A literatura, a filmografia, a música, a pintura, as artes brasileiras são fartas nesse sentido. Fico pensando em como deve ser duro para um homem ver sua história de vida e seu drama familiar reduzidos a contundentes e depreciativas expressões, ficando ele mesmo, em sua luta e sua dor, reduzido ao adjetivo “baiano”, se foi parar em São Paulo, ou “paraíba”, se foi parar no Rio, com toda a elevada carga depreciativa, excludente , subjugadora e sobretudo cruel e covarde empregada aqui no “sul maravilha”. A pergunta que por muito tempo deixou de ser feita, enquanto se estigmatizava esses migrantes, a pergunta que a muito pouca gente interessou fazer foi saber se aquele retirante aqui veio parar por opção ou se foi compelido a isso. Mais uma vez aí, a forma encontrada pelo povo brasileiro para expressar sua dor, seu drama, foi através da música. Assim fez Gordurinha. Sua canção “Súplica Cearense” bem poderia ser o hino, o grito maior dessa gente tão castigada pelo tempo, nos seus lugares de origem. A canção narra uma oração informal de um flagelado nordestino, em plena seca, que se dirige a Deus e a Ele pede que a chuva finalmente chegue ao chão cearense, relembrando outra seca que matara quinhentos mil de seus conterrâneos menos de um século antes. Conta Gordurinha que após a súplica a chuva caiu sem parar. Mas caiu tanto que inversamente fez tanto mal quanto sua ausência fizera antes. A ele, flagelado, não restou senão dirigir outra prece ao Senhor, pedindo-Lhe desculpas pelo fato de não ter sabido rezar direito e, por isto, ter causado outra desgraça para si e para sua gente. “(...) Senhor “(...)Senhor (...) Senhor, desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno Tão marcante quanto “súplica” foi “O último pau-de-arara”, dos compositores pernambucanos Venâncio, Corumbá e J.Guimarães, com o mesmo tema. Aqui, a narrativa envolve um outro nordestino, habitante da região atingida do Cariri, que por todas as formas e atitudes resiste ao destino de seus vizinhos que partiram para o “sul” a bordo de um caminhão pau-de-arara. “”...enquanto a minha vaquinha, Eu vou ficando por aqui, Só deixo o meu Cariri, ... Muitos deles, milhares, milhões se espalharam pelo Brasil. Grande parte deles veio parar aqui na aqui na capital. Ocuparam primeiro os casarões do velho Rio, transformados em cortiços e em “cabeças-de-porco”. Depois foram para as periferias ou para as favelas. Lá se juntaram outros brasileiros de outras origens, filhos e netos de escravos que para cá vieram por motivos diferentes, mas que histórica e socialmente se equivalem. Suas histórias de sobrevivência fizeram com que se encontrassem nos sambas-enredo que contaram e contam a imensa beleza da história do povo brasileiro. Esses mesmos sambas que hoje cantam geografias e minerais fazendo carnavalescos e compositores tirarem leite de pedra. Mas, e o quê que a Mangueira tem com isso já que esse texto é em homenagem a ela? Tem porque foi Padeirinho, um seu poeta maior, entre tantos maiores, quem compôs em parceria com Jorginho Pessanha um poema formidável que marca de forma definitiva um capítulo dramático da história social carioca. Revela a forma como esses brasileiros excluídos, expulsos de seus lugares de origem, enxotados do centro da cidade pela nova concepção urbana do limiar do século XX, como esses “cidadãos-de-segunda-categoria” buscaram formas de sobrevivência em condições tão adversas. A favela tomada como inspiração por Padeirinho era a do Esqueleto cujos barracos de madeira o mangueirense via subir, um a um, de sua janela no morro, em um imenso terreno junto ao Maracanã onde hoje está a Universidade Estadual. O esqueleto que deu nome à favela foi o princípio da construção do Hospital das Clínicas da então capital da república, cuja obra fora abandonada pelos poderes públicos. Aquele samba inigualável e as primeiras construções nasceram juntos na década dos anos 1950. Logo depois alcançariam cerca de quatro mil barracos com doze mil moradores. Tudo acabou na década seguinte com a demolição dos barracos e a transferência de parte dos moradores para a longínqua Vila Kennedy. E aqui, lembrando Padeirinho, quero homenagear a toda a ala de compositores da Mangueira nesta festa de oitenta anos, com a devida reverência a Jorginho Pessanha, do Império Serrano, co-autor do samba. Naqueles anos o atual Jorginho do Império não era nascido, o outro, o Pessanha, era o único Jorginho do Império existente. Minha homenagem quero fazê-la efusivamente usando para tanto e-xa-ta-men-te o mesmo argumento que usei para homenagear Edeor de Paula, compositor de “Os Sertões”. Quero dizer, mesmo correndo todos os riscos do exagero, que nenhum outro poeta no mundo, em qualquer tempo, descreveria com tão poucas palavras, com tal poder de síntese, com tal precisão, a forma como uma área desocupada se transforma em moradia para esses brasileiros aqui tratados. Aqui nesta mesma cidade que os acolheu a todos e fez deles, misturados a seus próprios filhos, com seu carnaval, seu orgulho maior. De como uma área desocupada é observada, “manjada” e desejada; de que forma cada um vai se chegando, vai ocupando o lugar até que ele venha a se transformar em uma coletividade. “Numa vasta extensão, Uma coletividade de descendentes de escravos, de descendentes ou de retirantes, marcando com barbante seus lotes imaginários, alterando a face da região transformando-a e bairros populares, com barracões de madeira com telhados de zinco, como a Mangueira de ontem, tão cantada por Padeirinho, ou a Serrinha, por Jorginho Pessanha; o Salgueiro por Anescarzinho, a do Macaco, cantada por Paulo Brazão, assim como tantas e tantas outras que estão aí resistindo até hoje. “É aí que a região,
Sugestão para ouvir: Favela: samba de Padeirinho e Jorginho Pessanha. Numa Vasta Extensão E Assim A Região Sofre Modificação Sugestão para ouvir também: 1)Súplica Cearense 2)O Último Pau de Arara Fonte: Padeirinho da Mangueira: Retrato sincopado de um artista. Franco Paulino. Rio de Janeiro, editora Hedra, 2005.
• Comentários sobre cada tema no local próprio indicado
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