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Memória da Folia: Um sujeito chamado Vagalume Luis Carlos Magalhães aproveita a luz de VAGALUME para entender que na vida, nada acontece de 'graça', nem mesmo nos sambas-enredo Luis Carlos Magalhães
Aliás, chamado Francisco Guimarães; Vagalume era o nome que adotava como cronista do nosso carnaval. Nascido em 1875 morreria com pouco mais de sessenta anos, presumivelmente feliz por estar vendo, em fins dos anos 40, a ‘roda do samba' – Mangueira e Portela – imperando no cenário carnavalesco. De família muito pobre, iniciava sua atividade como jornalista como funcionário da Central do Brasil. Sua coluna chamada ‘vagalume’, no Jornal do Brasil, tratava de assuntos do carnaval e da música em geral dando origem a outras semelhantes nos jornais da cidade. Apaixonado e militante deixaria para nós um livro formidável, com edição original de 1933 publicada em uma tipografia: ‘Na Roda do Samba’. Minha edição é a segunda, de 1978 da Funarte, dificílima de se encontrar por aí. Há notícias de que o Instituto Moreira Sales vai republicá-lo, sorte de vocês aí. Republicação mais que oportuna, necessária... e olha que usei o termo ‘formidável’ porque não encontrei um outro ainda mais preciso, mais adequado. Principalmente pelo pioneirismo. Em nossos dias tornou-se fácil escrever sobre o samba, tamanho o volume de textos, discos, filmes e livros disponíveis. Mas e nos dias de Vagalume? Ali não havia nada para ler; de tudo que Vagalume escreveu... nada, mas nada mesmo foi contado por alguém. Seu texto e resultado de seu próprio testemunho. Testemunho de quem subia cada morro da cidade onde se fizesse samba, de quem via com seu próprio olhar a transformação urbana que estava ocorrendo naquele exato momento; o Rio de Janeiro que se urbanizava, se transformava sob influência de hábitos, costumes e concepções urbanísticas européias: a Paris dos trópicos. Foi a um só tempo repórter e personagem de um momento da cultura carioca que via o samba nascer e se transformar, com sua incansável caneta em defesa do samba e do sambista; em defesa da ‘roda do samba’. Nestes tempos de decisões de sambas-enredo é sempre bom lembrá-lo. Já na apresentação do livro, Vagalume manda forte; já mostra suas garras: “Quando as idealizei ( e aí se referia às ‘mal traçadas linhas’ ), foi no intuito de reivindicar os direitosdo samba e prestar uma respeitosa homenagem aos criadores, àqueles que tudo fizeram pela sua propagação”. Na verdade Vagalume vai ficar o tempo todo ao lado dos sambistas do morro; seu objetivo ‘... não era outro senão separar o trigo do joio”. E sai de baixo... Aí já sei... já tem gente aí desse lado dizendo: ‘Pô, é só saírem os resultados das disputas que já começa essa cantilena, esse chororô, dos sambas enredos do passado, daquelas conversas saudosistas, e tudo...’. Vamos lá, só mais um pouquinho de Vagalume ... só para clarear... “Antigamente, lançado o samba, a roda se incumbia de sua propagação. Hoje mandam fazer folhetos, se empenham com cronistas para publicá-los(...)”. Um toque: quando Vagalume se refere à ‘roda-do-samba’ não podemos confundi-la com o que chamamos hoje de roda de samba. Não! Sua ‘roda do samba’ tem um significado muito mais abrangente, mais expressivo que uma simples roda. Trata-se, para ele, de um mundo próprio, específico; um mundo habitado por sambistas dos morros e dos subúrbios. Pelos bambas ... pela malandragem, enfim. Um mundo que se contrapunha ao mundo dos sambistas das eletrolas que surgiam então. Tempos de ascensão de Hitler, tempos de Mussolini, de Stalin, de Churchill. De franco, de Salazar... da guerra civil de Espanha. De hollywood, da grande depressão que se seguiu a 1929, da segunda guerra. Aqui no nosso terreiro, tempos de Vargas, da Revolução de 30, do voto feminino; leis trabalhistas, Lampião, cultura de massas; rádio, de Noel Rosa, das Escolas de Samba, da Rádio Nacional... e de Paulo da Portela. Naquilo que nos interessa aqui, para o mundo da folia, nada mais revelador que o livro de Vagalume. Uma grande contribuição para a compreensão daqueles tempos difíceis. O samba descia o morro. Depois, sabemos, conquistaria a cidade, o país e, para os foliões mais animados... conquistaria, logo,logo... o mundo. Mas e o sambista que criava o samba nos morros,a turma da roda do samba, onde ficava nisto? Qual era seu papel nessa cena? Os registros sonoros musicais de então já não se faziam por gravação mecânica, não eram mais ouvidos por gramophones ; faziam-se já por gravação elétrica; já então, para se ouvir música, sambas, se usava toca-discos elétrico: as famosas e revolucionárias eletrolas. A pioneira ‘Casa Edison’ deixava de ser a única gravadora, ganhando a partir do fim da década de 20 a companhia de várias outras que atiravam suas redes sobre o promissor mundo novo do samba. Primeiro a Parlophon, depois a Colúmbia e a Rca Victor. Cabe aqui consignar que entre as novas gravadoras estava a Brunswick, tão conhecida e tão especial para os portelenses por ter sido a única na história a ter registrado a voz de Paulo da Portela. A gravação, por sinal, pode ser ouvida no site da escola mirim Filhos da Águia, ainda em reprodução mecânica, ainda em gramophone, do acervo de José Ramos Tinhorão. Pode também ser ouvida e vista em cenas no filme Paulo da Portela - o seu nome não caiu no esquecimento, de 2001. Assim, com a nascente indústria do disco, vivíamos novos tempos que estavam a exigir uma ‘depuração’, uma ‘filtragem’ dos elementos assim considerados ‘negativos’ do samba de morro, do samba da ‘malandragem’, tema central dos sambas de então. Em português claro: afastar todos os indicadores do que se considerava a cultura ‘marginal’, dos que então faziam o samba na capital do país. Uma higiene poética, diriam os mais radicais... E quem é que fazia o samba de então, quem era a ‘roda do samba ‘ de Vagalume? Ora, era o pessoal do morro da Providência, do Salgueiro, do Querosene, do Telégrafo, da Babilônia, da Viúva, de São João e de todos os morros por onde o nosso herói perambulava e era muito bem chegado. E vem Vagalume identificando o inimigo maior do sambista: a vitrola. Dizia que era ela quem profanava o samba. E fazia carga contra “... um grupinho (das gravadoras) que constituía a comissão julgadora daquilo que deve ser gravado ou que entra em concurso”. E dizia mais: “Hoje o que está dando dinheiro é o samba. Não sabia, nosso herói, e nem poderia saber, o resultado dessa guerra. O que movia, irritava e mobilizava o cronista era o fato de os verdadeiros sambistas, os criadores, os compositores, serem preteridos por “.. .um certo grupinho” que os alijava das gravações, transformando-os, de criadores, em ‘vendedores’ de samba para os Franciscos Alves e os Mários Reis em troca de parcerias ou alguns poucos trocados. E é bem cima desse contexto que poderemos melhor focalizar a tal polêmica de Wilson Batista e Noel Rosa, já aqui tão exaustivamente tratada e tão mal interpretada. Quero dizer que, em minha modestíssima opinião, tudo que Noel buscava era que sambistas talentosos como Wilson, arautos da linguagem da malandragem, pudessem participar dessa ‘festa’ profissionalizando seus talentos, devendo, para tanto, deixar de lado ‘... essa navalha que tanto te atrapalha’. Uma linguagem que, àquela altura, acabava por tirar ‘... todo o valor do sambista’. Exemplo disto é ‘Lenço no Pescoço’ de Wilson, respondida com ‘Rapaz Folgado’ de Noel, dando início á polêmica. Mas voltemos a Vagalume. Vida que seguia... a eletrola acabaria mesmo por excluir muita gente da roda. Mas e depois, o povo da roda que chegaria depois, conseguiria entrar na ‘festa’ ou permaneceria de fora? Há controvérsias... muita controvérsia... Como sabemos, Paulo da Portela não conseguiria gravar um só de seus sambas. Cartola só conseguiria fazê-lo depois de velho, pouco tempo antes de sua morte. Mesmo sendo Paulo respeitadíssimo e Cartola sendo o magnífico compositor que era, só para citar esses dois... só para ficar em nosso Olimpo. A ‘festa’ na verdade começava mesmo a partir de Donga e seu ‘Pelo Telefone’, composto por uma imensa patota numa tremenda farra lá no no 117 da Rua Visconde de Itaúna. Após Donga ter feito o registro, o samba deixava de ser uma criação coletiva, despretensiosa. Deixaria de ‘estar no ar’, de ser ‘de quem pegasse’, como o passarinho dito por Sinhô. E foi Sinhô quem veio depois para reinar absoluto e levar o samba para os salões da sociedade da então capital da república. O rei do samba, o Zeca Pagodinho de sua época, podemos combinar assim... Com Noel uma nova linguagem, urbaníssima... o dia a dia de todo carioca. A média de pão com manteiga, a fábrica de tecidos, o guarda-noturno... o cinema falado... Com a possibilidade de comercialização dos programas de rádio, a música, o samba, viajaria por suas ondas e alcançaria todo o país. Transformaria o Rio de Janeiro em centro de tudo, a referência fundamental da cultura brasileira. Quem estava no ‘ponto’ esperando ‘o bonde’ neste momento musical singularíssimo era Orlando Silva. Com sua bela voz, fez muito bem a parte que lhe cabia se tornando o primeiro cantor a pegar a onda difusora do novo veículo entrando para os livros como o primeiro cantor das multidões. O Roberto Carlos de então, podemos arriscar. O álbum de figurinhas da época tinha Silvio Caldas, Mário Reis, Francisco Alves... depois chegaria a turma do Estácio trazendo Ismael, Bide, Marçal, Nilton Bastos, Baiaco, Brancura, Aurélio, Rubens...peso pesado...nada mais seria como antes... Depois vieram as escolas de samba e depois os sambas-enredo, gênero que, podemos dizer, estaria acessivel à turma da 'roda do samba', pelo menos até um passado relativamente recente. E aí é que está o problema: ‘pelo menos até um passado relativamente recente ...’ Bem, agora vocês podem bater... agora vai começar o chororô mesmo... Vendo aí essa luta toda do Vagalume contra o alijamento, a exclusão dos sambistas da ‘roda do samba’, não consigo, mas não consigo mesmo, deixar de lembrar de meu último encontro com o velho Jurandir, da velha Estação Primeira. Ali ele me falava da absoluta inviabilidade de sua participação nas atuais disputas; e explicava como aquele mundo tinha ficado tão distante dele. Jurandir dizia isto sem nenhuma queixa, sem qualquer ressentimento. Pura e simplesmente, com aquele seu sorriso sereno, apertando os olhos, constatava a realidade que vivia. Noite dessas, voltando para casa após uma semifinal no Salgueiro, fiquei pensando, parado já em frente a meu prédio: será que o afastamento de compositores com o perfil do Jurandir, vencedores como Jurandir; será que a chegada de compositores como Ciraninho e Wanderley Monteiro, vencedores como ambos, será que os dois fatos guardam alguma relação com esta história toda aí em cima...esta historia do Vagalume e da ‘roda do samba’? A razão de tal preocupação foi minha tentativa de calcular quanto cada parceria estaria gastando somente naquela noite. Repito: somente naquela noite... Depois tentei calcular o custo durante toda a disputa. No domingo seguinte, os jornais já informavam que nenhuma parceria gastaria menos de 30, 40 ou 50 mil, dependendo dos itens a serem considerados. E foi assim que fiquei pensando ali no carro. Quantos Jurandis, de todas as Mangueiras, estariam sendo excluídos das disputas. Mas, Jurandir já estava meio cansado, vitorioso, descansando... mas e os novos Jurandis, por onde andarão? Encontrarão estímulo para competir em suas escolas? Esclareço que me refiro a Ciraninho e a Wanderley porque os conheço muito bem. São meus compositores favoritos da nova geração e me sinto absolutamente à vontade para usá-los como cobaias neste tipo de reflexão. Esclareço, ainda, que Ciraninho já me enchia os olhos antes mesmo integrar a ala de compositores da Portela. Durante três seguidos carnavais, em meus programas sobre blocos de carnaval da rádio MEC-Am, pude recebê-lo como campeão do bloco mais festejado da cidade: o ‘Simpatia é Quase Amor’. Peraí, vou repetir: Ciraninho é tricampeão do ‘Simpatia é Quase Amor’. Provavelmente ser tri-campeão na Portela é tarefa mais difícil que ganhar três vezes no ‘Simpatia’, mas é muito pouca coisa... chego a pensar que as duas conquistas se equivalem em dificuldade. E olha que não estou nem contando os outros sambas para blocos menores, todos inspiradíssimos. Da mesma forma Wanderley Monteiro já me encantava há pelo menos dez anos nas fantásticas rodas de samba do Candongueiro onde éramos figurinhas fáceis e, ambos, número baixo, como diria o mestre lá de Seropédica. Depois é que ficou conhecido com sambas de primeiríssima como Vida de Compositor, em parceria com Álvaro Maciel e Água de Chuva no Mar, parceria com Carlos Caetano (... mas samba enredo... só ganha um...). Ciraninho e Wanderley são jovens vindos de classe média. Um ainda estudante de jornalismo, outro funcionário concursado do Banco do Brasil. Da classe média tanto quanto tantos outros que nestes dias estarão vencendo as disputas de suas escolas. Mas que mal há nisto? Não teria sido este o discurso quando Noel, acadêmico de medicina, caiu no mundo do samba? Nada de errado nisto. Ao contrário, bem sei o quanto ambos podem contribuir para o samba , para a Portela e para o carnaval. Quem poderá esquecer, entre outros, o futuramente lendário compositor Didi que tão 'autoastralmente' contribui para alguns dos momentos mais inesquecíveis do carnaval moderno tanto no Salgueiro quanto na Ilha. (volto ao tema do Salgueiro,e da disputa riquíssima , na outra ...) O que estará errado - e bota errado nisto – é se a tal mudança de perfil estiver sendo determinada pela exclusão de compositores – da 'roda do samba' ou não – que não possam fazer frente a gastos tão vultosos com gravação, com puxador, com cerveja, churrasco, ingressos, ônibus, bolas, borrifadores, estandartes, laminados, bandeirolas, e tudo mais que transformam a quadra em cenário de eleição presidencial americana. E vou logo esclarecendo que nada tenho contra a festa que se faz em cada escola para escolher o samba. O que fico me perguntando é se há algum tipo de orientação da direção das escolas no sentido de considerar a intensidade da festa quesito determinante para tornar o samba competitivo. No sentido inverso, pergunto se a exclusão de um concorrente pode estar sendo determinada pela pouca intensidade da festa. Ora, como sabemos, as festas que temos visto nestes dias são confessadamente artificiais e fabricadas, tendo muito pouco a ver com a real reação dos verdadeiros componentes-torcedores deste ou daquele samba nas beiradas da quadras. Se é verdade que qualquer um pode escrever e inscrever seu samba, é verdade também que poucos, muito poucos, terão condições para mantê-los na disputa até a data final sabendo que somente um verá o retorno de seu investimento. Neste sentido o exemplo da Portela de 2007 foi muito positivo quando jovens compositores superaram concorrentes tradicionais contando com o poder de seus talentos e a beleza de seus sambas, aliás que não é exclusividade da Portela. Mas parabéns ás escolas e ás parcerias vitoriosas. Vocês até podem achar que é puro chororô de minha parte, mas nunca que a luta de Vagalume era chororô. Ali a briga era de cachorro grande. Era a força do progresso, o peso do mercado da nascente indústria elétrica do disco. Ele, seu cavalo e sua lança. Contra o dragão da maldade por ele simbolizado na eletrola. O samba sendo transformado de bem cultural em mercadoria. Em produto, tal como um sabonete que tinha que ser profissionalmente produzido, embalado, divulgado e vendido ao mercado consumidor que se formava. A inspiração do sambista da ‘roda do samba’ era progressivamente transformada em insumo de um produto final cujo mercado, logo depois, passaria a ser disputado às vésperas da segunda guerra pela política da boa vizinhança do Presidente Roosevelt, a mesma que faria explodir o fenômeno Carmem Miranda. Um pouco antes veio o golpe do estado novo de 1937. E ninguém segurou mais. O projeto de Vargas identificava o samba como uma das pedras angulares para a identificação de um Brasil mestiço e unificado, que valorizasse as ‘coisas nossas’. Para tanto, precisava de algo como uma rede nacional, algo como hoje temos a rede Globo para alcançar e harmonizar toda a imensa nação, do Oiapoque ao Chuí, até o sertão distante, só para citar um samba da Mangueira, de Jurandir, do século passado. Quanto ao samba... bem o samba fez sua parte. Pegou uma imensa carona nas ondas da Rádio Nacional que cumpriria com grande eficácia o papel de fazê-lo chegar a todos os rincões do país, inclusive através da tão nossa conhecida e já então existente ‘A Voz do Brasil’. Senhores ouvintes...Boa noite...
Sugestão para ouvir: Tia Chimba
Foto de Francisco Guimarães, tirada do livro citado; Jurandir, compositor campeoníssimo da Mangueira; Wanderley Monteiro, compositor da Portela, Ferreira e Hilton do Candongueiro. Ciraninho, compositor da Portela.
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