![]() |
|
|
Memória da Folia: Uma festa carioca muito maior que o carnaval Coluna recorda a famosa Festa da Penha, tradicional ponto de encontro de sambistas, que reunia muito mais gente que os desfiles na Sapucaí * Luis Carlos Magalhães A primeira vez que fui à festa da Penha foi em 2002 com o partideiro e flautista Cláudio Camunguelo. Foi a última vez também... Hoje chego à conclusão que nunca estive lá. Foi um filme que não vi, ou apenas mais um retrato na parede... Fico imaginando como eram aqueles tempos; como se fosse possível um computador pesquisar qual o bairro do Rio mais cantado por seu povo... Por seus poetas? Copacabana, sem dúvida, Ipanema, tantas vezes; e Vila Isabel, Estácio, Mangueira... Sem falar em Madureira. Até aí tudo certo. Certamente a surpresa viria ao ser anunciado o bairro da Penha entre os mais cantados. Noel Rosa,por exemplo, compôs cerca de dez canções, inclusive uma de suas obras primas ,“Feitio de Oração”, com seu parceiro Vadico. Tudo por sua festa e por sua padroeira. É inimaginável aos jovens dimensioná-la em seu apogeu, nos anos que antecederam e sucederam a mudança do século XIX para o XX. Antes mais importante e maior do que o carnaval a festa só foi superada nos anos 1920 quando o carnaval popular da Praça Onze e o 'outro' carnaval da Av. Rio Branco passaram a ser uma coisa só. Há muito venerada na Espanha e em Portugal, antes de chegar à nossa Penha a santa passou por Vila Velha, no Espírito Santo. Aqui operou um milagre salvando a vida de um certo Capitão Baltazar Cardoso, dono daquelas terras que, por gratidão, mandou construir em 1635 a pequena capela no alto do penhasco de onde a santa abençoa toda a terra leopoldinense, principalmente os sambistas da Imperatriz. Mas a festa mesmo começou a ser celebrada no final do século XVIII. Era portuguesa então, quase purinha... A comemoração era no dia da Natividade de Nossa Senhora, 8 de setembro. E foi se transformando. Tanto que no final do século XIX, já se notava forte presença de negros e mestiços pós Lei Áurea. É só imaginar que na época essa parte da população não tinha absolutamente o que fazer: não tinha Maracanã, e nem futebol; não tinha escola, e nem o samba existia. E não tinha transporte, ou “tu acha” que alguém tinha carro? Não havia nem rádio, ainda. José Ramos Tinhorão comenta que “...a impossibilidade de contar com diversões semelhantes às da população branca das camadas elevadas –teatro, bailes públicos, recepções oficiais em palácios, festas em casarões senhoriais,saraus lítero-musicais, etc. – levou os negros, mestiços e brancos das camadas mais baixas do Brasil a inventar sempre os mais variados gêneros de festas ao ar livre.” Com a inauguração da linha de trens da Rio Douro para aquela região da cidade, a festa cresceu tanto que teve que ser definitivamente transferida para outubro em razão das chuvas constantes de setembro. Sempre no primeiro domingo. E cresceu tanto que passou a ser festejada em todos os domingos daquele mês, misturando barracas de prendas, jogos, comidas com o ritual do pagamento de promessas. E é ainda mestre Tinhorão que arremata com precisão ao assinalar que essas festas urbanas guardam tradicionalmente uma ligação histórica com as festas do calendário religioso. Ou seja, o lazer popular aproveita-se da estrutura montada pelas irmandades religiosas, dando seu jeito, comemorando à sua maneira, transbordando absolutamente a festa originária. Lembra o mestre que o mesmo se passou no mesmo século, tendo a mesma origem – o colonizador português – na cidade de Salvador com as celebrações da festa do Senhor do Bonfim. Logo que chegou ao Rio, Tia Ciata, festeira que era, descobriu a Penha passando logo a ser uma das principais personagens da festa. Ela e todas as Tias: Bebiana, e suas irmãs de santo, Mônica, Carmem do Ximbuca, Perciliana, Amélia (mãe de Donga) e muitas e muitas outras. A barraca da Ciata era um ponto de encontro, não só pela roda de samba e pela presença do povo da Praça XI como também, e principalmente, pela Moqueca de Peixe, prato mais falado da festa e que tinha presença garantida todos os anos. Segundo Roberto Moura, com suas panelas imensas “...as tias baianas mandavam no arraial”. Não havia festa mais republicana, no sentido mais bonito e mais exato da palavra e do conceito que ela encerra. O povo tomou conta dela, fez-se presente com com sua música, com sua comida, com seus ídolos, com sua alma, enfim. Nas primeiras décadas do século as linhas de trem expandiram os limites da cidade para os subúrbios. Surge a indústria do disco. O teatro de revista se popularizava cada vez mais estando agora acessível às camadas populares beneficiadas pelo crescente desempenho da indústria cafeeira que alcançava elevadíssimos preços internacionais. Era o mercado interno a se fortalecer, inclusive aquele voltado para a música popular. A cidade atingia seu primeiro milhão de habitantes. Cerca de 100.000 pessoas passavam pela festa em seus quatro ou cinco domingos. Lá se dava o encontro da cidade-partida; negros, portugueses e demais classes urbanas ali conviviam já que o carnaval de então ainda segregava os sambistas da Praça Onze do “outro” carnaval da Av. Central. A festa passa a atrair músicos e compositores, principalmente aqueles ligados ao carnaval. Por sua magnitude, e na inexistência das “mídia” de massa, a Penha passa a ser a grande plataforma de lançamento para as músicas carnavalescas em meio a rodas de samba e batucadas. Quem nos dá uma idéia do clima existente é Raul Pompéia: “Depois da refeição, vêm as danças e os cantos. Um delírio de sambas e fados, modinhas portuguesas, tiranas do Norte. Uma viola chocalha o compasso, um pandeiro acompanha, geme a sanfona, um negro esfrega uma faca no fundo do prato, e sorri negríssimo, um sorriso rasgado de dentes brancos e de ventura bestial. A roda fecha. No centro requebra-se a mulata e canta, afogada pela curiosidade sensual da roda. Depois da mulata dançam outro foliões dos dois sexos. Os circunstantes batem palmas, marcando a cadência e esquecem-se, quase a dançar também, olhando o saracoteio lento, ou as umbigadas desenfreadas, dos fadinhos de uns ou da caninha-verde de dois pares (..). Entretanto, transitam de permeio grupos carnavalescos mais valentes, romeiros, enroupados a fantasia, zabumbando o zé-pereira, bimbalhando ferrinhos, arranhando guitarras, guinchando sons impossíveis de requinta e gaita...” Era também, como nos conta Jota Efegê, a “...festa dos boêmios, do ‘povo da Lira’, da gente do samba, e com eles os malandros, os valentes, os capoeiras (...) ostentando uma ‘beca’, um ‘pano’ novo. De preferência branco, caprichosamente engomado e bem lustroso. Juntando ao terno um sapato ‘carrapeta’ que também estava sendo estreado na ocasião”. Outro freqüentador assíduo era Heitor dos Prazeres: “...naquele tempo não tinha rádio, a gente ia lançar música na festa da Penha. A gente ficava tranqüilo quando a música era divulgada lá. (...) eu fiquei conhecido a partir da festa da Penha”. Mas e a polícia?!? Com a palavra, Donga: “...quando eram cercados pela policia de então e intimados a ir ao distrito dar explicação por estar dançando o samba. (...) na festa da Penha os pandeiros eram arrebentados pela polícia, por medida de precaução (...). E veio a década de 1920. Passados 31 anos a República “batia na trave”, tal como tantas futuras vezes aconteceria. O cronista Vagalume atribuiu parte da decadência da festa aos “Talassas” (monarquistas portugueses). Conta que um padre aqui chegou investido da função de capelão, instituiu uma taxa mínima obrigatória para feitos religiosos, interferindo no lado religioso da festa. Depois a polícia proibiu blocos, cordões e rodas de batucada. A festa foi mudando. Os músicos , os sambistas que para lá iam para divertimento, viam surgir novos personagens com novas características. Eram conjuntos organizados por compositores e músicos profissionais interessados sobretudo na divulgacão de suas músicas compostas para o período de carnaval que se iniciava sempre quatro meses depois. A verdade é que a Penha se tornara o maior pólo de convergência de futuros foliões. Segundo Tinhorão “...passando a figurar como local de lançamento de músicas e de pretexto para letras de composições carnavalescas durante pelo menos um quarto de século. Eram os tempos de Sinhô e Caninha, rivais e reis da Penha. Senhores absolutos da primeira geração de compositores profissionais de carnaval da cidade. Tempos de memoráveis concursos musicais repletos de emoções e incidentes. Dali as músicas passavam pelas batalhas de confete da Rua Dona Zulmira, entre Vila Isabel e Tijuca, e de lá para as ruas, para o disco e para os salões. Passavam também a ser incluídas nas revistas carnavalescas da Praça Tiradentes. Assim se deu no carnaval de 1927. Lançado na Penha ainda no ano anterior e gravado em disco, o samba “braço de cera” foi o maior sucesso do carnaval, depois de ter estreado em revista do Teatro Carlos Gomes. Em meados da década de 1930 o rádio era soberano, já não precisava mais da Penha, nem das tias Baianas...Reinava absoluto. Camunguelo até hoje vai à Penha, nos meses de outubro, com sua flauta. Não quer nem saber: fica animadíssimo, arma o maior pic-nic, frango, farofa, maionese, pinga e sobe a Penha. Já não vai mais de caminhão, como no passado. Todo ano ele me chama, mas eu nunca mais quis ir. Sei lá, acho que é uma coisa lá de dentro dele, da mãe dele, da avó dele, que sempre freqüentaram a Penha, todo mundo de caminhão... Parece essa missão que o povo tem de resistir, de não querer deixar morrer, de preservar seu passado, suas coisas, sua memória... Fico olhando pra ele, acho bonito aquilo, e sinto até uma certa inveja. Fiz a opção de subir a Penha sozinho numa viajem imaginária sem levar no pulso o relógio do tempo. De terno branco caprichosamente engomado, de salto carrapeta, lá encontrei as vozes que nunca ouvi e rostos para os quais nunca olhei. Vi Pixinguinha, vi Donga, vi João da Baiana e vi Sinhô. Vi também a baiana Ciata, e fiquei muito tempo olhando pra ela tentando decifrá-la; senti o cheiro do seu peixe, de seus caldos e quitutes. Vi Paulo e toquei nele. Vi Claudionor sapateando. Vi Brancura com seu terno branco e “plantei” pra ele (só em sonho mesmo!), vi Ismael, vi Bide e vi Marçal, vi Cartola e Zé Espinguela. Vi chegando uma a uma as vozes que tanto ouço, os rostos que tanto vejo: Vi chegar Wilson Moreira, jovem e forte como um dia Candeia foi. Vi Neizinho do Salgueiro, vi o jovem Paulinho com Elton de Lucas, vi Monarco e Martinho da Boca do Mato. Vi João Nogueira também. Todos em torno da barraca da Ciata, batendo palmas e formando uma roda em cujo centro pontificava um mulato alto e esguio, com cara e nome de réptil, com seu bonezinho branco, tocando na flauta o mais bonito de todos os choros de Pixinguinha, chamado “Vou vivendo”. Que farra! Eu juro que estava lá... Fontes: Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. Roberto Moura, Secretaria Municipal de Cultura, 1995. Música Popular de indios,negros e mestiços. José Ramos Tinhorão.Vozes,1972 Meninos eu Vi. Jota Efegê, Funarte, 1985. Figuras e Coisas do Carnaval Carioca. Jota Efegê, Funarte, 1982. Na Roda do Samba. Francisco Guimarães (Vagalume), Funarte. 1978. As Vozes Dessassombadas do MIS, 1970. Música naquela Base. O Globo. 1963. Sérgio Cabral Sugestão para ouvir: Música: Braço de Cera BRAÇO DE CERA Mulher a Penha está aí No primeiro (domingo) tu não vais E no quarto domingo
|
|
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|