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Memória da Folia: Uma história do Pagode do Trem Luis Carlos Magalhães
Houve um tempo em que eu achava que o melhor da festa era a abertura na Central. Marquinhos de Oswaldo Cruz chamando um a um os sambistas que se foram: os mestres de todos nós. E a galera respondendo: presente! A festa que se fazia na Pedra do Sal nas primeiras horas da manhã, emendava depois com a festa do trem. Iam todos caminhando dali para a Central. Outro grande momento quando um único trem parava na estação primeira. Era sua única parada até a estação destino: Oswaldo Cruz, ali bem perto de Madureira. Pois ali a ‘composição’ parava, reverente, para que entrasse a rainha Zica e todo seu séqüito. Depois o palco da gare foi deslocado lá para fora do prédio. Houve um ano, com a data já quase consagrada, dias depois das comemorações, a colunista Hildegard Angel, de O Globo, narrava entusiasmadíssima o que se passava na Central e depois em Oswaldo Cruz. Ali, um outro público, um outro leitor, tomava conhecimento daquela que caminhava para se consolidar como a mais original festa da cidade. Minha melhor lembrança vou contar depois. Minha maior lembrança foi a primeira vez que fui. Foi no ano do carnaval que conheci o idealizador da festa. Foi no século passado... O artista plástico Floriano Carvalho, também entusiasta da vida e da obra de Paulo da Portela já havia me avisado: “_ Ó ! tem um cara aí que é mais maluco que você, sobre o Paulo. È o Marquinhos de Oswaldo Cruz. Coincidentemente, no carnaval do ano seguinte, no rescaldo do sábado do Bola Preta, lá estava ele com Denise. Ali nos apresentamos. Naquele ano, em dezembro, foi minha ‘primeira viagem’. Fui sozinho. Achei a festa da Central inesquecível, pela energia, por tanta gente junta, cantando. Havia no ar uma força de pensamento diferente de tudo. A exata sensação de estar todo mundo no mesmo barco, ou no mesmo trem, para ser mais exato. E entrei no vagão. Confesso que nos primeiros momentos me assustei um pouco. Mas logo, logo vi o clima tomar conta antes mesmo da partida. No meu vagão tinha um grupo ótimo que teve a ‘suprema sabedoria’ de selecionar um repertório com sambas que qualquer um, cascudo ou não, soubesse cantar. A sensação que tive quando o trem chegou é que se o maquinista nos levasse para a Estação da Luz, ninguém perceberia. Aí a gente desce, sobe as escadas da estação e vê; olha para baixo e milhares de pessoas em torno de barracas. Todos só queriam saber do Bar do Fininho. Era o bar mais falado aqui deste lado da cidade. Famoso pela inexistência de quitutes e pela qualidade dos sambistas que o freqüentavam durante o ano. Beth carvalho, em uma enquete da Revista Veja, assinalou o bar como a sua roda de samba preferida da cidade. Daí p’ra frente... só deu Fininho. Ele e sua saudosa Ruth, companheira de todas as horas. A festa ainda era somente do lado da João Vicente. Lado esquerdo da linha. O lado da casa do Candeia, lado oposto da Portelinha. Depois de rodar por ali por umas duas horas, parei naquela pracinha em frente ao Buraco do Galo e fiquei me perguntando se aquilo era mesmo verdade. Se era possível ainda no Rio de Janeiro ter uma festa como aquela. A partir daquele ano nunca mais deixei de ir, passei a fazer parte do núcleo organizador. P’ra mim hoje é minha cachaça. Nada me realiza mais do que saber que de alguma forma participo daquilo. São tantos detalhes. Uma equipe tão pequena. Tantas autorizações, tantas autoridades envolvidas, tantas negociações com artistas, com os trens... tudo dependente de patrocínio a tempo e à hora. Ouvir e selecionar dezenas de grupos musicais desejosos de participação; ajuste com donos de bares lá em cima. E banheiro químico: onde colocá-los? Garantir a cerveja dos músicos, organizá-los nos diversos bares. E palcos, tablados, iluminação, discussões com barraqueiros. Por isso, hoje o melhor da festa para mim é chegar lá do alto da passarela de Oswaldo Cruz, olhar lá para baixo e ver tanta gente sambando...se divertindo. O samba reinando em sua forma mais pura, brotando do terreiro sagrado onde nasceu a Portela. O dia do samba, de todas as escolas, de todas as cores. E a festa foi crescendo. Veio a necessidade de espalhar as rodas de samba, ninguém conseguia mais chegar até o Fininho. E foram sendo criadas quatro, seis, dez novas rodas. Paralelamente, a cada ano mais e mais vagões, mais trens. Hoje a festa atravessou a estação já abriga mais de dez rodas só do outro lado, já chegando até a Portelinha. Mas a história que quero contar, meu melhor momento, aconteceu no trem de 2001. Quase não participei na Central porque estava com minhas tarefas em Oswaldo Cruz. Pude ainda chegar a tempo de encontrar meu saudoso amigo Baís e seus dois convidados, militares do Rio Grande do Sul, de férias no Rio. Entramos no primeiro vagão que vimos. E quem estava lá? Quem era o rei daquele pedaço e que comandava o pagode? De roupa, sapatos e boné brancos, empunhando sua flauta, logo ao nos ver ali disparou: “_ leidies and Gentlemens (sic)... e prosseguia naquele seu inesquecível e tão saudoso inglês aprendido na estiva. Ele mesmo: Cláudio Camunguelo, figurinha fácil aqui neste espaço. Tudo corria às mil maravilhas, Camunguelo em seus grandes dias ora versando, ora solando, ora floreando na flauta para todos nós cantarmos: os gaúchos... maravilhados e exultantes. De repente... o barulho ...e algo se espatifava no chão. Era uma velha TV que despencava do alto da prateleira do bar, quase atingindo Tia Eunice. E tudo parava. O dono do bar não queria ficar no prejuízo e queria saber quem ia pagar sua TV, já bem caidinha. Conversa vai... conversa vem...grita p’ra lá...grita p’ra cá...ninguém se entendia ali naquele momento, diante de nossos olhares; dos olhares perplexos de meu querido irmãozinho Baís e, mais ainda, de seus amigos gaúchos. Tão de repente quanto parou, a música voltou. E voltava nos acordes suaves da flauta de Camunguelo que improvisava ali, na hora, para quem quisesse ver e ouvir, seu mais novo arranjo para sua mais nova composição feita ali, naquele momento, no calor daqueles acontecimentos. Era um samba engraçado contando a história de um pagode no armazém, da TV que caiu em pedaços ‘mais de cem’, e do desespero do português que não tinha ‘grana’ para comprar outra. Foi o último ano que aquele bar abriu. Talvez tenha sido aquele o último dia. Semanas depois encontrei o Baís quando voltava do aeroporto depois de embarcar seus amigos de volta para Porto Alegre. Foi então que ele me disse que por mais que tentasse explicar, os gaúchos foram embora sem acreditar que aquele samba do Camunguelo pudesse ter sido composto naquele momento. Não houve jeito... foram embora certos de que aquele samba já existia e que Camunguelo apenas o tirou da memória. Esse ano vou dar uma passadinha lá pela esquina, mesmo sabendo que o bar está fechado. Na esquina da Vicenzia com a João Vicente, a rua da casa do Candeia. Vou ficar ali, parado, quietinho, lembrando do Baís e do Camunguelo... aqueles dois que este ano foram para outros pagodes...quem sabe juntos no mesmo trem...
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