14/6/2008 09:40:00

Morre Jamelão

Lendário intérprete era presidente de honra da Mangueira e tinha 95 anos

Foto: O neto Thomás, a filha de Jamelão, Jocely, e a viúva

Rio - O mundo do samba amanheceu em silêncio ontem. Às 4h45, morreu de infecção generalizada José Bispo Clementino dos Santos, o Jamelão, 95 anos, presidente de honra, baluarte e intérprete oficial da Estação Primeira de Mangueira. O enterro será hoje, às 11h, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador Sérgio Cabral enviaram coroas de flores. Foi decretado luto oficial de três dias no estado.

A Voz da Mangueira morreu em dia de festa da escola. A quadra da Verde-e-Rosa era preparada para a Feijoada da Família Mangueirense, mas a comemoração pelos 80 anos da agremiação foi suspensa. Ficou para sábado que vem, quando haverá tributo a Jamelão.

O cantor nasceu em São Cristóvão. Nos anos 50, entrou para a bateria da Verde-e-Rosa. Cantou em gafieiras, programas de rádio e boates. Foi calouro de Ari Barroso e crooner da Orquestra Tabajara, com quem excursionou pela Europa. Com vozeirão inconfundível, o intérprete apaixonado cantou sambas-enredo em quase todos os desfiles da Mangueira entre 1949 e 2006.

ÍDOLO E REFERÊNCIA

Tanto sucesso, no entanto, não assegurou ao cantor o bem-estar financeiro. Ídolo e referência para os jovens sambistas, Jamelão não enriqueceu como eles. Nos últimos anos, sem poder fazer os shows que garantiam o seu sustento, as despesas médicas eram pagas pela escola. Há dois anos, sua família se queixou das internações de Jamelão em hospitais públicos.

Segundo o diretor-médico da Mangueira, Luiz Carlos Caetano dos Santos, a saúde do cantor já estava muito deteriorada: “Ele falava, andava, mas não reconhecia mais sua família, não chamava ninguém pelo nome. Depois, fraturou o fêmur e parou de andar, ficou na cama, deitado a maior parte do tempo”.

Jamelão dizia que não ganhava dinheiro porque nascera pobre e negro. Foi engraxate, vendedor de jornais e operário de fábrica de tecidos. Não gostava de ser chamado de “puxador”. Para ele, era coisa de quem fumava maconha ou roubava carros. “Sou intérprete. Vivo de música”, afirmava.

O amigo Zeca Pagodinho foi cedo para a quadra da Mangueira, mesmo sabendo que o velório estava marcado para as 18h. “Jamelão fez o que tinha que fazer e fez bem feito. Ele é nota mil. Enterro de sambista não tem chororô. Enterro de malandro é alegria, é lembrar as boas conversas, tomar uma cerveja”, receitou.

Ouça o samba do último título da Mangueira na voz de Jamelão:
Brazil com Z é pra Cabra da Peste, Brasil com S é Nação do Nordeste (samba de 2002):


O cantor, principal voz da Mangueira, ficou afastado do Carnaval deste ano, depois de ser internado duas vezes em 2006. Ele foi hospitalizado no ano passado depois de sofrer uma isquemia no dia 25 de outubro, quando fazia shows em São Paulo. Menos de um mês depois, em 21 de novembro, voltou a ser internado — desta vez, no Rio, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC).

Mangueira divulga nota de pesar pelo falecimento de Jamelão

A Mangueira divulgou na manhã deste sábado uma nota oficial lamentando o falecimento de Jamelão. O comunicado diz que a presidente da escola Eli Gonçalves, a Chininha, a diretoria e segmentos da Estação Primeira de Mangueira estão de luto pelo falecimento de Jose Bispo dos Santos (Jamelão), presidente de honra, baluarte e intérprete oficial, aos 95 anos, às 4h da manhã da madrugada de sábado (14), de infecção grave, na Clinica  Pinheiro Machado, em Laranjeiras, onde estava internado desde a última quinta-feira (12).

Trajetória rica na MPB e no Samba

Nascido a 12 de maio de 1913, no bairro de São Cristóvão, ganhou o apelido de Jamelão na época em que se apresentava em gafieiras da capital fluminense. Ele começou ainda jovem tocando tamborim na bateria da Estação Primeira de Mangueira e depois se tornou um dos principais intérpretes da escola.

Jamelão sempre surpreendeu os colegas e familiares com a boa disposição. Aos 93 anos, o sambista nascido a 12 de maio de 1913, no bairro de São Cristóvão, ainda fazia três horas intensas de show.

Há mais de 50 anos, atuava como puxador do enredo da escola. Referência obrigatória no gênero, ele entendia de carnaval mais do que ninguém. É dele a interpretação de sucessos como "Agora Sou Feliz", de Mestre Gato, "O Samba É Bom Assim", de Norival Reis e Helio Nascimento, e Esses Moços e Ela Disse-me Assim, ambas de Lupicínio Rodrigues.

Engraxate quando criança e depois vendedor de jornal, o músico foi descoberto no subúrbio carioca ainda adolescente. Até então usava o nome de batismo, José Bispo. Não se sabe ao certo quando ele virou Jamelão e nem por quem foi apelidado com nome de um fruto escuro, duro e pouco comercializado.

Aos 15 anos, ele conheceu o sambista Lauro Santos, o Gradim, que o levou à Escola Estação Primeira de Mangueira. Com o pretexto de paquerar as garotas e tocar tamborim, ele entrou para a bateria da escola. Enturmado com o pessoal do samba, começou a participar das rodas que aconteciam depois do desfile.

Antes de entrar para a ala de compositores da Mangueira, em 1968, ele venceu diversos concursos regionais. Com os prêmios, conseguiu um contrato com a gravadora Continental. A partir daí, fez história até internacionalmente. Nos anos 70, Jamelão viajou para a França com a da Orquestra Tabajara do maestro Severino Araújo e cantou em festa de Assis Chateaubriand e do estilista francês Jacques Fath, no castelo de Coberville, em Paris.

Jamelão viveu todos os dias fiel às raízes do samba e do carnaval. Em 2005, estreou temporada sambista no Bar Brahma, em São Paulo, todas às quartas-feiras. Entre seus compositores preferidos, estão Lupicinio Rodrigues, Dorival Caymi e Ary Barroso, cujas canções estavam sempre presentes no repertório dos shows.

De terno branco, chapéu e bengala, o músico também posou de modelo aos 92 anos. Ele desfilou na passarela da 19ª São Paulo Fashion Week, em 2005, para a grife Poko Pano. Como de costume, sua entrada resultou em gritos e aplausos da platéia, mas em bem menos intensidade do que no desfile da sua escola do coração. Jamelão estava acostumado a todo ano - aos primeiros acordes do cavaquinho - levar foliões ao delírio na Sapucaí.

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