Rio - Ele só estudou até a quarta série do primeiro grau. Nasceu no Catete, cresceu na Mangueira, fundou uma escola de samba, gravou seu primeiro disco aos 66 anos e fez sucesso no Brasil inteiro com suas canções.
Angenor de Oliveira, o Cartola, faria 100 anos amanhã e para celebrar o centenário daquele que é um dos maiores sambistas de todos os tempos, O Dia convidou 100 personalidades, artistas da MPB e mangueirenses para escolher a melhor música do compositor. Venceu aquela que foi a mais gravada e é a mais conhecida jóia do baú do mestre: ‘As Rosas Não Falam’, citada por 30 entrevistados.
Para Elza Soares, a música é genial. “Sempre cantei tudo dele. Quando escolhemos uma música só, as outras ficam tristes. Ele merece todos os méritos”, diz a cantora. Nana Caymmi faz coro: “O repertório todo é fantástico. São todas obras-primas. Quem grava uma quer gravar todas, mas ‘As Rosas Não Falam’ é insuperável.” “Cartola é o melhor exemplo da raça e da vontade do brasileiro. Sempre foi poeta e fez jóias como essa música”, completa o pesquisador Ricardo Cravo Albim.
Em segundo lugar, ficou ‘O Mundo é um Moinho’, lembrada por 20 personalidades, como Ivo Meirelles: “Quando ouvi ‘O Mundo é um Moinho’, chapei. A letra é linda e eterna”. Elymar Santos também é enfático. “Cantei essa música a vida inteira. A mensagem dela é muito forte.”
Para Angela Ro Ro, a canção é ‘o supra-sumo da crueldade e da poesia ao mesmo tempo’. “Essa música vive na minha cabeça.” Evocada por nove artistas, ‘Tive sim’ ficou em terceiro. “Cantei com ele num show. É de uma beleza incrível. Fico emocionada”, comenta Dona Ivone Lara.
Já Nei Lopes lembrou uma pouco conhecida: ‘Amor Proibido’. “Ouvi primeiro no Zicartola. É simples, mas lindíssima.” Martinho da Vila foi mais fundo e elogiou o samba-enredo ‘Vale do São Francisco’, que o compositor fez em 1948 com o parceiro inseparável, Carlos Cachaça, para a Mangueira.
Nascido em 11 de outubro de 1908 e morto de câncer em 30 de novembro de 1980, Cartola foi responsável pela escolha do nome e das cores da Mangueira. A inspiração veio do time de coração, o Fluminense. Autor de mais 200 canções, como ‘Alvorada’ e ‘O Sol Nascerá’, começou a compor nos anos 20 e viu seu primeiro sucesso na década seguinte, com a gravação de ‘Divina Dama’ por Francisco Alves.
Lavador de carro
Aí veio um período difícil. Ele ficou até o fim da década de 50 na Mangueira. Depois chegou a morar na Barreira do Vasco, até que a Zica (sua mulher) conseguiu levá-lo de volta para a Mangueira”, recorda a biógrafa Marília Trindade Barboza. Depois de ser dado como morto, Cartola foi redescoberto pelo cartunista Lan e pelo jornalista Sérgio Porto, que o encontraram lavando carros na Zona Sul.
Daí passou a ter uma vida melhor, gravado por cantoras como Nara Leão e Elizeth Cardoso. Ao lado de Dona Zica, em 1962 fundou o Zicartola, restaurante na Rua da Carioca que reunia da estrelas da MPB, bossa nova e samba.
Na década de 70, grava seu primeiro disco, em 1974, e alcança de vez a fama quando Beth Carvalho lança ‘As Rosas Não Falam’ e ‘O Mundo é um Moinho’ e eterniza o mito. “A gravação teve um ‘boom’ porque entrou em novela (‘Duas Vidas’). Depois, gravei outras canções que viraram clássicos”, lembra a sambista, com a autoridade de quem lançou 12 ‘hinos’ de Cartola. “Ele é eterno.”
Baterista de Chico Buarque e integrante da Velha Guarda do Império Serrano, Wilson das Neves é radical. “Cartola é mais importante que o presidente da República. Todos devem aprender com suas músicas.” Alcione, que participou da última gravação de Cartola, ‘Sim, eu Sei’, se derrama. “Era como um pai para mim. Vim do Maranhão e conquistei a confiança dele. Fico feliz que hoje todos queiram conhecer sua obra.”
Morto em 1980, vítima de câncer, o bamba da verde-e-rosa está mais vivo do que nunca. Para Dudu Nobre, suas músicas são atemporais. "O samba está sempre se reinventando, mas sem esquecer dos antigos. Figuras como Cartola serão sempre reverenciadas". A opinião é compartilhada por Teresa Cristina. "Os temas de suas músicas não morrem nunca. Todos querem cantar Cartola", finaliza a principal representante das cantoras da Lapa.
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