Rio - O som dos tambores da Academia levados para a Avenida foram ouvidos. E fizeram, desde a tarde de ontem, o coração dos salgueirenses pulsar forte de emoção com a conquista do 9º título. Nascido da observação do símbolo da escola — redondo e com instrumentos de percussão — pelo carnavalesco Renato Lage, ‘Tambor’ soava forte desde a sua concepção. “É o menor título de enredo, mas tem sonoridade e força”, justificou o carnavalesco dias antes do desfile, apostando que o tema ecoaria pelo ar e despertaria ‘toda a energia’, como pedia o samba-enredo.
Envolvida no batuque e na magia do instrumento, a Academia chegou à Marquês de Sapucaí contagiada. Dos ritmistas ‘ogãs’ da Furiosa, comandada por mestre Marcão — homem criado na fé dos tambores e morador do Morro do Salgueiro até hoje —, aos Zé Pereiras espalhados em ala, todos pareciam dominados pela magia do tambor, inclusive a rainha Viviane Araújo, a batucar o couro de um tamborim. Salgueirenses prontos a reverenciar a ‘alma’ do Carnaval.
“Não haveria bateria sem tambor”, disse Renato, ao justificar a homenagem, mais do que justa, à bateria, simbolizada na oitava alegoria, com gigantes de aço, de 3,5 metros de altura, com corações a pulsar e instrumentos na mão, sendo regidos por Mestre Louro — incorporado pelo destaque Paulo Jorge Emílio da Silva —, o maestro que comandou os ritmistas por 31 anos e deu personalidade inconfundível à Furiosa. A reverenciá-lo estavam colegas de inúmeras bandeiras. ‘Salve o mestre do Salgueiro’!
Até chegar aos dias de hoje, o tambor salgueirense fez viagem histórica através de alegorias e fantasias perfeitas — sempre pontuadas com o vermelho e o branco. Sua ancestralidade surgia já na comissão de frente, com um ritual primata a cortejar um deus futurista que apresentou o símbolo do Salgueiro em pele e em modernos legs. No abre-alas vazado e iluminado, o toque de modernidade de Renato Lage, com tambores gigantes e performances de bungee jump.
Dali em diante, viu-se o tambor surgindo do couro esticado dos bichos, com efeitos sonoros, a alcançar até a cinturas de composições que vinham no chão, ao lado do carro. E na representação folclórica, com a presença do tambor no boi bumbá e nos festejos nordestinos; nos rituais religiosos; no taiko japonês em forma de tripé, e até no trio-elétrico construído a partir de 1.200 latas, com Carlinhos Brown a imprimir seu batuque lá no alto. Até Ronaldinho e Gleice Simpatia foram de tambor: ela, com o pandeiro a enfeitar a cintura. Ele a tocar tamborim. O Salgueiro, sem dúvida, esquentou o couro da paixão e fez o som de seu ‘Tambor’ ecoar.