14/6/2008 21:58:00

Velório de Jamelão reúne artistas, personalidades e torcedores na Mangueira

Raphael Azevedo


Rio - O corpo de Jamelão está sendo velado na quadra da Mangueira desde o início da noite deste sábado. O lendário intérprete de 95 anos faleceu na madrugada deste sábado vítima de uma de infecção generalizada, mas o corpo só chegou à quadra da Mangueira por volta das 18h. A diretoria da escola há pouco se reuniu, e com a ajuda de um padre, fizeram uma oração para Jamelão, que foi encerrada ao som de Ave Maria no Morro, clássico de Herivelto Martins, cantado por Emílio Santiago.

Desde cedo, artistas e torcedores da verde-e-rosa foram prestar a última homenagem à aquele que era o considerado o maior cantor do carnaval carioca e um dos maiores da MPB. O velório aberto ao público acontecerá até às 10h deste sábado, quando o cortejo seguirá até o cemitério de São Francisco Xavier, no Caju, onde o corpo será enterrado, neste domingo, às 11h.

Uma legião de artistas e personalidades foi reverenciar a memória de Jamelão e dar os cumprimentos à família. Até às 20h deste sábados, Zeca Pagodinho, Elymar Santos, Alcione, Beth Carvalho, Rosemary, Dominguinhos dos Estácio, Wantuir, Nego, Paulinho Mocidade, Wander Pires, Eurico Miranda, Roberto Dinamite e Gracyanne Barbosa foram alguns dos que estiveram na quadra. O público, no entanto, é pequeno. A nação mangueirense, que Jamelão sempre saudava em seu grito de guerra, ainda não se fez presente em grande número no velório.

"Jamelão tinha três paixões na vida", diz viúva

A viúva de Jamelão, Delice Ferreira dos Santos, conhecida como Dona Didi, era a mais abalada no velório do marido. Casados há 58 anos, Dona Lili chorou muito quando o caixão com o corpo do marido chegou e precisou ser ambarada.

"Jamelão tinha três grande paixões na vida: a Mangueira, o Vasco e a neta Manoela. Ele sempre nos tratou com a mesma dedicação que tinha com a escola. É um grande baque para a família, mas, nesses últimos dois anos, estava sofrendo muito", disse.

Manoela Ferreira, de 30 anos, a neta homenageada com o carinho do avô em vida, também lamentou a morte do Mestre. "Está sendo muito duro para mim. Além de avô, ele era pai. Sempre foi um avô responsável e que nos deu grandes exemplos", ressaltou.

O outro neto de Jamelão, Thomaz Ferreira, de 29 anos, e a filha, Jocely Ferreira, estavam presentes na despedida do intérprete. O caixão de Jamelão ficou fechado, mas através do vidro foi possível ver o chapéu, um dos ícones do sambista, na altura do peito.

Beth Carvalho: "Sentirei saudades eternas"

A cantora Beth Carvalho chegou ao velório de Jamelão no final da tarde deste sábado. Essa foi a primeira vez que a sambista entrou na quadra da escola após os desentendimentos do carnaval de 2006, quando Beth foi impedida de desfilar. Ela chegou ao velório sozinha e disse que foi prestar a última homenagem ao "grande músico".

"É uma perda total para o samba. Jamelão era uma voz de ouro e que representava a negritude. Sentirei saudades eternas", disse, emocionada. A cantora revelou ainda que nunca havia gravado uma música de composição dele e que, este ano, dentro de um CD em homenagem a Bahia, decidiu gravar "Quem Samba Fica", de autoria de Jamelão.
Beth Carvalho não ensaiou nenhum tipo de aproximação com componentes e representantes da escola.

"Perdemos um patrimônio", diz Alcione

A cantora Alcione lamentou a morte do amigo, como ela o chamava, e intérprete Jamelão. "Perdemos um patrimônio e ficará um vazio. Poucos sabiam disso, mas Jamelão era um verdadeiro bambambam", contou. Marrom lembrou ainda de momentos onde dividiram palco e, especificamente, um show, em 2001, quando ele participou de seu primeiro DVD, onde regravaram dois sucessos de Lupcínio Rodrigues ("Nunca" e "Vingança"). "Ele não gostava de qualquer um. Tanto que cheguei na Mangueira em 1974 e só fui conquistar a amizade dele 14 anos depois", disse.

"Jamelão é a história do Vasco em pessoa", diz Eurico Miranda

O presidente-interino do Vasco, Eurico Miranda, chegou ao velório de Jamelão e logo estendeu uma bandeira do clube cruzmaltino, time do intérprete, sobre a bancada onde ficará o caixão do Mestre. Em seguida, Eurico ressaltou a importância da contribuição do cantor para o samba e para o próprio Vasco.

"Ele era uma figura nacional. Era um dos vascaínos mais ilustres que existiam e um grande símbolo da nossa história. É uma grande perda para a cultura brasileira", disse. O dirigente lembrou ainda que Jamelão era torcedor fanático e por isso recebeu uma homenagem do time após a conquista da Libertadores da América, em 1998, quando foi a primeira pessoa a receber uma camisa personalizada.

Zeca Pagodinho: "Jamelão é a grande entidade do samba"

O cantor Zeca Pagodinho foi um dos primeiros a chegar no velório. Assim que soube da notícia, através do rádio, foi para a Mangueira e chegou por volta das 11h. Fã da obra de Jamelão, revelou que possui todos os discos do cantor e que os ouvia quase todos os dias.

Zeca afirmou que dentro do seu novo CD, que está sendo gravado, terá uma música chamada "Esta Melodia", de autoria de Jamelão e Bubu, da Portela. "Já tinha decidio gravar essa música há muito tempo. Agora que ele morreu, será uma homenagem dupla: à minha portela e a ele", contou.

Pagodinho lamentou, no entanto, ter convivido "pouco" com o intérprete e lembrou, com alegria, daquele que considerou ser um dos melhores dias de sua vida. "Ele era ruim de sair, mas um dia foi até minha casa, em Xerém, e ficou do meio-dia até às oito da noite, cantando e comendo. Foi um grande prazer para mim. Jamelão é a grande entidade do samba", completou.

Elymar Santos: "Os mais jovens precisam saber a importância de Jamelão"

O cantor Elymar Santos, que mudou sua agenda nesse sábado para poder comparecer ao velório do intérprete da Mangueira, disse que a importância de Jamelão vai além do carnaval.

"Jamelão não é só do carnaval. Trata-se de um dos maiores cantores da história da MPB. Todos devem cultuá-lo. Eu mesmo sempre fiz questão de homenageá-lo quanto tive programa na televisão. Faltou gravarmos um disco juntos", disse.

Elymar também enumerou qualidades de Jamelão e disse que sua morte abre uma lacuna na música brasileira. "Os mais jovens precisam saber a importância de Jamelão. Devemos muito a ele. Ele é universal", completou.

Ivo Meirelles: "Nossa geração não verá nunca mais um intérprete como Jamelão"

O ex-mestre e presidente da bateria da Mangueira afirmou que a perda de Jamelão para o carnaval é irreparável e revelou que vai dedicar o show que fará nesta terça-feira, no Barril 8000 da Barra, à memória do intérprete. "Vou cantar só músicas do repertório dele e lembrar histórias que tinha com ele", disse.

Segundo Ivo, Jamelão tem uma importância incomensurável para a Mangueira e também em sua trajetória musical. "Quando saí da bateria em 85 quis disputar o samba para 1986, cortaram o samba na semifinal. Entrei na Justiça e consegui levar o samba para a final e acabei sendo campeão com o samba em homenagem ao Caymmi. Fui então à casa do Jamelão e falei que ele tinha que gravar. Foi aí que ele não parou mais e a Mangueira viu que ele tinha que gravar o samba-enredo da escola todos os anos. Até então era o compositor campeão que gravava. Depois disso comemoramos o título do carnaval juntos", lembrou.

Ivo Meirelles lembrou ainda também de uma viagem feita à Itália em 1993 que teve a presença ilustre de Jamelão. "Foi um momento único. Ele ficava jogando sueca com os jovens na maior alegria. Quando saíamos de ônibus ele ia cantando Lupício Rodrigues à capela só para nós", completou. Com a morte do baluarte, Ivo acredita que um ciclo tenha terminado. "Nossa geração não verá nunca mais um intérprete como Jamelão".

Neguinho da Beija-Flor compara Jamelão a Nat King Cole

O intérprete da Beija-Flor lamentou a morte de Jamelão de forma dupla. Para ele, além da perda do maior cantor de samba-enredo de todos os tempos, perdeu-se também um amigo. O pai de Neguinho, Benedito, que já faleceu, tocou durante muitos anos piston na banda de Jamelão.

"Meu pai era grande amigo dele e por isso posso falar de cadeira. Dizem que ninguém é insubstituível, mas Jamelão era. Para mim só existitam dois no mundo: Jamelão e Nat King Cole. Sempre quis estar com ele para aprender um pouco mais", disse.

O intérprete da Beija-Flor revelou ainda que sua admiração por Jamelão era tão grande que gerou um fato inédito na vida de Neguinho. "O Jamelão é o único artista que eu pedi autógrafo na vida".

Cabral decreta luto pela morte de Jamelão

O Governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, decretou luto oficial de três dias pela morte de Jamelão. Sobre o sambista que deu voz à Mangueira, o governador-mangueirense declarou: "Jamelão, além do maior intérprete de sambas-enredo e sambas-canção do Brasil, era o grande símbolo da garra mangueirense".

Presidente da Liesa estuda homenagear Jamelão

O presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), Jorge Castanheira, lamentou a morte de Jamelão e afirmou que a entidade já estuda uma forma de homenagear a memória do ex-intérprete da Mangueira. "Vamos agora nos reunir com a escola para decidir juntos qual tipo de homenagem faremos. Certamente a história do Jamelão tem que ser eternizada", contou.

O dirigente exaltou a personalidade do Mestre e disse ainda que Jamelão é um exemplo de fidelidade com sua escola. "A Mangueira era reconhecida na Avenida pela voz de Jamelão. Era uma marca registrada. Se hoje o carnaval chegou no patamar que está, devemos bastante a ele", disse.

Presidente da Mangueira planeja homenagem para 2009

A presidente da Mangueira, Eli Gonçalves, a Chininha, disse que já pensa em fazer uma homenagem ao cantor no próximo carnaval. "Quem sabe não podemos fazer uma homenagem vinda de todas as escolas? Afinal de contas Jamelão foi importante para todo mundo. Acho que a Liga poderia estruturar alguma coisa para ser feita antes do desfile, como se fosse uma abertura", propõe.

Chininha lembrou ainda do cantor com saudade e disse que ele sempre foi grande amigo da sua família. "Jamelão foi um dos maiores nomes da nossa escola. Lembraremos dele para sempre", disse. A feijoada que aconteceria neste sábado, na quadra da Magueira, foi transferido para o próximo sábado, 21 de junho, com tributo ao intérprete.

Morte aos 95 anos

Jamelão estava internado na Clínica Pinheiro Machado e faleceu às 4h deste sábado vítima de uma de infecção generalizada (choque séptico). Ele deu entrada com infeccção urinária no hospital, que se agravou.

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