23/10/2007 16:16:00

Zebra da Portela: Menino de 17 anos surpreende e vence samba-enredo

Luis Carlos Magalhães relembra o carnaval de 1953 e a vitória de Candeia

* Luis Carlos Magalhães

Nesta época agitada e mal dormida de finalíssimas de samba enredo, fico tentando viajar no tempo e imaginar o 'clima' dos acontecimentos que antecederam e sucederam a escolha do samba enredo da Portela para o incomparável carnaval de 1953.

Se Chico Porrão e Bambambã acabaram por não travar a “luta do século”, Portela e Império Serrano travaram, naquele ano, a maior batalha do samba, até hoje nunca igualada. A escolha do samba daquele ano foi apenas um capítulo de um embate que já se desenvolvia desde 1948.

O 'cara' de Oswaldo Cruz na época se chamava Manacéia José de Andrade, o seu Manacéia, que ficaria conhecido como o Ministro da Justiça da Portela, tal a altivez e o equilíbrio de sua postura dentro e fora da escola.

Naqueles idos azul e branco nosso “ministro” contava pouco mais de 30 anos e já era um dos maiores vencedores desamba-enredo de sua época. Havia vencido sucessivas disputas naquele que foi o período de maior conturbação dos desfiles quando nada menos que três entidades disputavam poder e prestígio: a União das Escolas de Samba, a Confederação das Escolas de Samba e a Federação Brasileira das Escolas de Samba.

O Império Serrano desbancara o Prazer da Serrinha em 1947, desbancando também todas as outras escolas. Sagrou-se campeão já em seu primeiro carnaval, 1948, vencendo seguidamente em 1949, 1950 e 1951, enquanto Mangueira e Portela participavam de desfiles sem nenhum prestígio.

O ano de 1952 chegava com a unificação das entidades e das escolas. Era então o SUPER CAMPEONATO DO CARNAVAL. O momento em que a Portela, heptacampeã (1941 até 1947) enfrentaria o Império, tetracampeão.

Madureira conquistava 11 títulos seguidos e mostrava que era mesmo a capital do samba. O tira-teima, a batalha final, já tinha data marcada: 24 de fevereiro de 1952. Era domingo de carnaval. E naquela noite choveria muito.

Sem a chuva passaram Portela, Lucas e Capela. As outras 22 escolas, debaixo d’água.

A Portela barbarizou, majestosa e mais preparada do que nunca. Favorecida pelo tempo, ainda bom, já comemorava a vitória pondo fim ao “insuportável” reinado de sua vizinha. A vitória era tida como certa.

Nada disto! O desfile foi anulado...

Era tanta água que os julgadores, desprotegidos, foram embora. Não houve julgamento. A batalha final, o tira-teima, a hora da verdade, tudo transferido para o carnaval seguinte.

A data estava marcada novamente: domingo, 15 de fevereiro de 1953. Aquele resto de ano de 1952 demorou muito a passar.

Dona Neném do seu Manacéia me disse outro dia que foi o ano o mais longo da história do samba. Mas o tempo foi passando... Veio a páscoa; depois as festas juninas, a parada de 7 de setembro e as festas de natal. Logo depois as marchinhas de carnaval surgiam e já era quase fevereiro outra vez...

A Portela e o Império se esmeravam a cada dia.

Madureira... Caramba!!!

Zaquia Jorge, “... a vedete principal, do subúrbio da Central...” estrelava no bairro a peça “Outro Palhaço”.

O Império já tinha enredo: “O último baile da Corte Imperial”(Não confundir com os 5 bailes...); o samba escolhido era de Silas de Oliveira que, juntamente como Mano Décio, já tinha levado a escola ao título com “61 anos de República”.

O Império estava pronto!!!

Madureira toda sabia disso... Oswaldo Cruz também...

A Portela cuidava e buscava cada detalhe da vitória. Nada poderia dar errado. Tinha que ser no mínimo como o ano anterior. O enredo tinha que ser o enredo certo.

O samba tinha que ser o melhor de toda a história da escola. Era o carnaval mais importante da história mais gloriosa da história do samba. O enredo escolhido foi “Seis Datas Magnas” do experiente Lino Reis.

Os compositores apresentaram seus sambas, inclusive Manacéia cujo nome em si representava toda a garantia de qualidade e de segurança que os Portelenses tanto precisavam naquele momento. Tudo ia muito bem...

Na hora do resultado, da finalíssima, da escolha definitiva, não poderia dar outra: o samba de Manacéia era belíssimo e mais uma vez ganharia por aclamação, certo?

Nada disto! Havia um samba mais bonito ainda. Quebrando todas as expectativas e probabilidades o samba vencedor foi o de um jovem, menino ainda, de 17 anos que concorria pela primeira vez: Antônio Candeia Filho. Seu parceiro era o também genial Altair Prego.

Naquele momento tinha início a trajetória de um adolescente que se tornaria um ícone, um líder dos tempos futuros da escola e que, lá na frente, nas palavras de Sérgio Cabral, se tornaria um Paulo da Portela dos anos 70.

Próxima semana: Afinal, quem ganhou o carnaval de 1953?

Fontes:

- História das Escolas de Samba. Sérgio Cabral, Rio Gráfica Editora
- Silas de Oliveira: Do Jongo ao Samba Enredo. Marília Barboza, Arthur L. de Oliveira Filho, MEC-FUNARTE, 1981
- Candeia: Luz da Inspiração. João Baptista Vargens – FUNARTE, 1997
- Serra, Serrinha, Serrano: O Império do Samba. Raquel e Suetônio Valença, editora José Olympio, 1981
- Império Serrano – Primeiro Decênio 1947/1956, Ensaios de carnaval n. 2. Francisco Vasconcelos, 1991

* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval e advogado




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