FOLIA, TRADIÇÃO E MODERNIDADE

Entre Rio e São Paulo: Não fomos catequizados, fizemos carnaval...e
foram criados os ranchos carnavalescos


* Jaime Cezário

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O carnaval se aproxima, a folia se agita nos ensaios das quadras e das ruas, o coração do povo bate na freqüência do ritmo das baterias que com sua energia tribal. Somos transportados à África Ancestral onde encontramos todos nossas origens rítmicas carnavalescas.

O samba, em conjunto com a escola de samba, possui este poder mágico de inebriar e causar um transe coletivo capaz de nos liberar das amarras e convenções sociais e possibilitar que todos recuperem suas baterias. Mas esse poder transformador do carnaval carioca não é de hoje; vem antes da própria invenção das escolas de samba, que apenas condensaram esse poder radiante.

A célebre frase do escritor paulista Oswald de Andrade, um dos idealizadores da Semana de Arte moderna de 1922 em São Paulo, “Nunca fomos catequizados, fizemos carnaval”, revela todo esse espanto e admiração de quando passou um carnaval no Rio de Janeiro e pôde ver a loucura do carnaval popular carioca.

Toda questão antropofágica que apregoava o movimento modernista ele percebeu no carnaval de nossa cidade, onde o povo, apesar de todos os modismos europeus que impunha a classe dominante para “civilizar” a festa, consumia, digeria e transformava sempre em algo com a personalidade popular e festeiro. O povo carioca já fazia sua “antropofagia cultural” muito antes da semana de Arte Moderna de 1922.

Essa energia transformadora encontrada nas pessoas mais simples dessa cidade vai ganhar muito com a chegada dos negros baianos da metade para o final do século XIX. A troca de energia entre os baianos e cariocas vai ocasionar uma transformação sem precedentes em nossa cultura popular. A fusão de idéias vai gerar o samba e as escolas de samba.

Nessa leva de baianos que chega a nossa cidade, virá uma das figuras mais importantes da nossa festa popular, a qual, na maioria das vezes, não recebe os méritos de sua façanha. Seu nome é Hilário Jovino. Nasceu em Pernambuco, mas foi criado em Salvador, fazia parte da Guarda Nacional e chegou a nossa cidade no final do século XIX. Ele vai ser o criador do primeiro Rancho Carnavalesco da cidade, o “Reis de Ouro”.

O Rancho Carnavalesco surge de uma idéia genial e transformadora, melhor dizendo antropofágica, pois no Rio de Janeiro havia uma manifestação folclórica trazida pelos portugueses de nome “Rancho de Reis” que se apresentava na época do Natal até o dia de Reis (6 de janeiro). Hilário Jovino, muito impressionado com a apresentação desses Ranchos, identifica neles uma similaridade com uma manifestação folclórica da Bahia, que era uma espécie de “Cortejo dos Reis do Congo”. Ele fará uma adequação desta manifestação européia à cultura negra africana, mudará a data de apresentação para os dias de carnaval, fazendo surgir em 1893 o primeiro rancho carnavalesco da cidade.

Este fato se torna um marco importantíssimo para o inicio da mudança da nossa festa popular. O Rancho Carnavalesco com era uma adaptação de um modismo trazido pelos europeus, será considerado como “civilizado” e ganhará o direito de desfilar no espaço urbano dos brancos. Os ditos “incivilizados” cordões carnavalescos e depois os blocos carnavalescos não tinham permissão de desfilar pelas ruas da cidade. O que até então podia ser considerada “festa popular” tinha pelas autoridades da época a visão de marginal, incivilizado e arruaceiro.

O desfile de um Rancho Carnavalesco pode ser descrito como um cortejo, com a presença de um Rei e uma Rainha, ao som de uma marcha rancho, acompanhado por instrumentos de sopro e corda, ritmo mais pausado que o samba. Não eram usados instrumentos de percussão. Havia os mestres, um de Harmonia, um de Canto e um de Sala, responsável pela coreografia.

Os ranchos desfilavam com porta-estandarte e mestre-sala que tinha que dançar e ficar atento a qualquer movimento. A enorme rivalidade entre os ranchos podia causar numa situação humilhante, que era a de ter seu estandarte roubado por um componente de um rancho rival. Naquele tempo, o mestre-sala desfilava armado de navalha para proteger o pavilhão de sua agremiação. Com as devidas adaptações, o casal responsável pela guarda do pavilhão do grupo também estará presente nos desfiles das escolas de samba.

O samba carioca germinou nos terreiros de candomblé da cidade, onde temos a figuras das “famosas tias” como mães, conselheiras e protetoras. Na casa da Tia Ciata nasceu o que foi considerado o primeiro samba, o “Pelo Telefone” ; na realidade, esse título de “primeiro” fica por conta do primeiro samba a ser gravado e tocado nas rádios. Nessas reuniões tudo era discutido e festejado; após os rituais, a festa continuava ao som de samba, de chorinho e tudo mais.

Como “mães de santo” aconselhavam os “irmãos dos blocos” a seguirem os passos dos “irmãos dos ranchos”, para acabar com essa história de marginais e arruaceiros. De tanto falar, conseguiram plantar a sementinha de mudança no pensamento de alguns “bambas” da época como Ismael Silva e Bidê. O candomblé é tão importante para o carnaval das escolas de samba que podemos dizer que a idéia do “bloco diferente” de Ismael Silva, o qual precisava, de um novo ritmo, o famoso “bum bum paticumbum prucurundum”, vem do ritmo dos atabaques.

Daí a genial idéia de Bide de criar o surdo, que nada mais é do que que um atabaque de maior diâmetro. Indo além nesse pensamento, numa bateria temos surdos de 1ª,2ª e 3ª e num culto de candomblé temos também três atabaques de alturas variadas. Candomblé, carnaval e escolas de samba interagem de forma harmônica e, por isso, fica fácil de entender por que a maiorias das pessoas envolvidas com as escolas de samba cultuam o candomblé.

Os ranchos carnavalescos não só mudaram o carnaval do Rio de Janeiro, fazendo nascer aqui as nossas famosas escolas de samba, mas vai também influenciar o carnaval paulista de forma plena. O samba paulista tem origens no samba rural, que nasceu nas festas do padroeiro da cidade de Bom Jesus de Pirapora, onde os senhores do café levavam seus escravos e os deixavam em galpões destinados a guardá-los por medo de fugas.

Nesses galpões surgiu uma festa de ritmo e danças, marcado pelos tambores feitos de tronco de árvores e cobertos com peles de animais que vai originar o samba rural paulista. A crise cafeeira e a abolição da escravatura fizeram com que os negros das áreas rurais partissem com destino a capital paulista levando na bagagem todo ritmo rural.

Na capital, foram morar em áreas muito pobres, onde a classe dominante ignorava devido a sua precariedade. Nessas áreas também encontraram refúgio e moradia portugueses pobres, espanhóis, italianos, assim como, os japoneses e refugiados de guerras, e assim, estava pronta a salada que daria origem à cultura popular paulista.

Neste cenário surge um personagem da maior importância para o carnaval paulistano, Dionísio Barbosa. Dionísio era um exímio marceneiro que após passar um período na cidade Rio de Janeiro, trabalhando numa empresa de fabricação de móveis, regressa a São Paulo com uma bagagem cultural rica de idéias novas. No Rio de Janeiro, ficou hospedado na casa de negros baianos no bairro da Saúde e tomou gosto pelos “ranchos carnavalescos cariocas” que na capital da Republica era a coqueluche da época.

Depois de dois anos em “terras cariocas”, Dionísio Barbosa volta a São Paulo. Em seu regresso encontra como grande modismo na capital paulista os Cordões das Grandes Sociedades. Este modismo da folia paulista era exclusividade dos ricos e brancos, e sendo pobre e negro não poderia participar.

Inconformado com esta impossibilidade, e utilizando a experiência carnavalizante absorvida dos anos em que viveu no Rio de Janeiro, Dionísio funda o 1º Cordão Paulistano: O “Camisa Verde”, esse nome teve que ser alterado depois pela imposição da policia, passando a chamar “Camisa Verde e Branco”. Depois do pioneirismo de Dionísio Barbosa, outros Cordões começam a surgir pela periferia pobre da cidade. Vai surgir o “Cai – Cai” que era proveniente de um time de futebol do bairro do “Bexiga” e depois passou a se chamar “Vai-Vai” e muitos outros.

Interessante observar o poder transformador que o Rancho Carnavalesco, criado por Hilário Jovino, teve nas duas maiores cidades brasileira. O fato de uma manifestação popular carnavalesca de origem negra ter conquistado o direito de poder desfilar com toda sua glória e arte no espaço urbano da classe dominante possibilitou uma mudança radical do pensamento dos organizadores dos outros movimentos considerados até então, como marginais e incivilizados. Conquistar o direito de desfilar sem perseguição da policia e o respeito da sociedade se torna uma questão de honra para inúmeros membros destas manifestações, com destaque para Ismael Silva, Paulo da Portela e Cartola no Rio de janeiro e Dionísio Barbosa em São Paulo.

Observar o poder da cultura popular carioca no carnaval de nossa vizinha São Paulo é algo que é necessário para passarmos a compreender também um pouco mais do desenvolvimento da festa naquela cidade. São Paulo não começa com as Escolas de Samba tomando conta do cenário cultural popular como no Rio de Janeiro. “O Cordão Paulistano” que inicia conquistando todo glamour popular da festa paulista será modificado inclusive, por interferência de dois cariocas no final da década de 60.

O primeiro deles, foi o prefeito Faria Lima, oficializa o carnaval paulista, onde em 1970 teremos o primeiro desfile oficial da cidade. Para organizar os Cordões Paulistanos, o Prefeito Faria Lima contrata o jornalista de carnaval Jangada para redigir o regulamento para a festa paulista.

Jangada faz o regulamento sem conhecer a origem e organização do samba paulistano, acreditando que tudo girasse em torno de escolas de samba como no Rio de Janeiro. Com isso, obrigou que todos os Cordões Carnavalescos, em menos de dois anos, transformassem-se em Escola de Samba. O último concurso de Cordões foi em 1971 com Fio de Ouro, Vai-Vai e Camisa Verde e Branco.

O carnaval sempre será algo apaixonante, todos que militam na área carnavalesca têm sempre como fator primordial a paixão e o amor ao samba e às escolas de samba. Mas é sempre importante começarmos a entender um pouquinho mais do objeto de nossa paixão. O vivemos hoje que é fruto de sementes plantadas no passado; faz-se sempre necessário reconhecer o valor de figuras ímpares. Temos que conferir o crédito a este pernambucano de cultura baiana que tanto fez pela transformação do carnaval.

Hilário Jovino conquistou com sua criação algo difícil de imaginar numa época em que se existia um grande preconceito de tudo que fosse oriundo da cultura popular negra. Ele, transformando os Ranchos dos Reis em Ranchos Carnavalescos, conseguiu uma vitória sem igual: conquistar da classe dominante de maioria branca e racista a permissão de acesso de uma manifestação popular negra ao seu espaço urbano sem perseguições. Esta pode ser considerada uma das maiores vitórias da população mais simples de maioria negra que gerou modificações singulares nos carnavais dessas duas grandes cidades.

* Jaime Cezário é professor do Instituto do Carnaval, arquiteto, decorador e carnavalesco




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