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FOLIA, TRADIÇÃO E MODERNIDADEDuelo de titãs na Sapucaí
De início, registro a minha expectativa para um duelo à parte, um verdadeiro encontro de Titãs do mundo do samba entre duas escolas que desfilarão no mesmo dia, uma seguida da outra. Falo da grande campeã de 2010, a Acadêmicos do Salgueiro, e sua vice-campeã, a Beija-Flor de Nilópolis. Salgueiro: 'Enredo é oportuno e necessário aos dias de hoje' A primeira a pisar na passarela será a vermelha e branca da Tijuca. O Salgueiro prepara um enredo por demais oportuno e necessário aos dias de hoje: 'os livros'. O livro, este objeto mágico que nos leva a viagens incríveis sem sair do lugar, através de suas páginas recheadas de histórias concebidas por escritores fantásticos, anda em baixa no atual momento de nossa sociedade globalizada. O livro anda sendo para grande maioria um objeto de ornamentação de estantes e prateleiras e não mais o fundamento básico para adquirir cultura, pesquisa e informação. Na nossa sociedade globalizada, os livros perderam a vez para a internet e para a televisão. As ferramentas de pesquisa da internet hoje fazem parte do universo de muitos que encontram ali a rapidez desejada para obter informações, mas que nem sempre está correta. Com o enredo: 'Histórias Sem Fim...',a escola tijucana pretende mostrar a importância desse assombroso instrumento de informação criado pelo homem que se tornou uma extensão da memória e da imaginação. Através da bela sinopse criada pelo carnavalesco Renato Lage, veremos um enredo começando na Alemanha, no sec. XV, com Gutemberg que faz aperfeiçoamento na tipografia e impressão e edita a primeira Bíblia impressa. Serão lembradasoutras ferramentas importantes que também deixaram registros desde a antiguidade, como os papiros e pergaminhos até os manuscritos copiados a mão pelos monges medievais. Antigas civilizações, heróis, mitos e deuses A partir daí se abre um portal mágico, iniciando-seuma viagem no tempo e nos espaço, onde passarão diante dos nossos olhos antigas civilizações com seus heróis, mitos e deuses. Dom Quixote, reis e rainhas, tramas amorosas da época medieval. A literatura luso-brasileira será também mostrada através de romances e poesias onde será visto o índio apaixonado por bela portuguesa, a dramática travessia dos navios negreiros e os nossos heróis mestiços e populares. É o momento brasileiro do enredo, onde provavelmente veremos o Salgueiro mais Salgueiro e menos o high-tech de Renato Lage. O universo infantil do mundo do 'era uma vez' será visitado, assim como o suspense e a ficção. O grande final vai exaltar a filosofia e os caminhos do autoconhecimento, o lado esotérico do enredo onde questionará os caminhos a seguir nesse futuro que estar ainda para ser escrito, nascendo assim, quem sabe, uma obra imortal nessas muitas histórias sem fim. O Salgueiro, com esse enredo, pretende arrebatar a Sapucaí, conquistando-a não só pelo visual das fantasias e alegorias, mas também pelo fácil entendimento do que está sendo abordado; e se for somado a tudo issoum belo samba, talvez possamos assistir a uma química eletrizante entre escola, enredo, samba e público. Uma química para fazer arrepiar. Beija-Flor: 'Enredo não é oportunista' A próxima escola a se apresentar na passarela é ela, a Deusa da Passarela, que sempre maravilhosa e soberana é aguardada ansiosa pelas legiões de fãs apaixonados, a Beija-Flor de Nilópolis. Este ano a Beija-Flor trás um enredo de homenagem ao cinquentenário de nossa capital federal. O enredo sobre Brasília pode parecer oportunista à primeira vista, coisa que não devemos considerar. A nossa capital federal tem cacife para receber está merecimento, e que ainda vai colaborar com o carnaval da escola com um belo patrocínio. Na batuta do Mestre Laíla e com a maestria do carnavalesco Alexandre Louzada e sua comissão de carnaval, devemos acreditar que veremos um belíssimo carnaval técnico e de grande visual plástico que gabarite a escola na disputa do primeiro lugar. Lendo a sinopse, que por sinal foi muito bem escrita, vejo que a escola vai viajar inicialmente no imaginário daslendas indígenas da região, pegando carona em lendas maias, astecas e incas. A sinopse faz uma comparação de Brasília com Akhetaton, atual Tel El Amarna, que foi a cidade construída para ser a nova capital do Antigo Egito, no quarto ano do reinado do faraó Amenhotep IV. Resolvendo abandonar a capital Tebas, construiu a nova capital Akhet-Aton, que significa “Horizonte de Aton”, não vejo nenhum paralelo entre as duas, até porque a cidade egípcia só durou 13 anos e foi destruída pela ira do povo devido ao caos que este faraó causou na estrutura econômica, social e religiosa do seu reino. Vejo um paralelo sim, com a criação da cidade de Versalhes pelo rei francês Luis XIV. Versalhes foi a sede do poder político, a partir de 1682 a 1789, antes de se tornar o berço da Revolução. Conotação política Esta idéia de tirar a capital dos grandes centros era algo que as monarquias européias tentavam implantar, justamente para afastar a população das decisões políticas e não poderem interferir com manifestações e protestos. Num paralelo ao momento atual, imagine esses inúmeros escândalos políticos que estouram em Brasília, se por acaso, fosse a capital ainda aqui no Rio de Janeiro, o povo já estaria protestando nas ruas de todos os jeitos e formas, mas como acontece lá no meio do Brasil, passamos assistir tudo isso de forma perplexa pela tv, rádio, jornal e Internet, impedindo a grande massa de manifestar sua contrariedade. Foi baseado nesta idéia que em 09 de junho de 1823, José Bonifácio apresenta à Constituinte do Império, projeto para a mudança da capital e sugere o nome de Brasília para a nova cidade, atitude fácil de compreensão, pois o Brasil acabava se fazer independente pelas mãos de D. Pedro I, e vivia-se uma época de grande inquietação política. Mas quem acabou criando a nova capital foi o presidente Juscelino Kubitschek e sua inauguração foi em 21 de abril de 1960. Desfile digno de campeonato Um enredo que exaltará Brasília que é nossa capital federal, que foi tombada pela Unesco como bem cultural da humanidade, cujos os projetos arquitetônicos e urbanísticos tem a assinatura de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, que completa meio século de existência, localizada numa região que possui uma mística esotérica norteadas de boas histórias é sem sombra de dúvidas um ótimo enredo, ainda mais trazido pela Beija-Flor, que sabe apresentar com maestria enredos dessa categoria. Talvez alguns olhem este enredo com dúvidas, devido à enxurrada de outros enredos já apresentados na Sapucaí falando de cidades e estados; a crítica é algo fácil de compreender, mas não podemos negar que é um enredo oportuno e merecedor desta grande homenagem e se for presenteado com um belíssimo samba, a altura da sinopse apresentada, com certeza teremos um desfile digno de campeonato. * Jaime Cezário é professor do Instituto do Carnaval, arquiteto, decorador e carnavalesco
Artigo: Escolas de samba, décadas de estilos e mudanças |
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