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Memória da Folia O Dia em que Darci, Helio Turco
e
Em 1978 ainda era um pouco assim. Eu morava em São Paulo, trabalhava pelo interior para a Caixa Estadual por todas aquelas estradas. Éramos um grupo de dez advogados recém-formados, quase estagiários, eu era o único carioca. Os outros eram de São Paulo, capital e interior. Eu adorava aquele trabalho. Solteiro, jovem, trabalhando na minha profissão, ganhando razoavelmente e sem gastar nada: todas as despesas de hotel e alimentação pagas. Difícil mesmo era parar em uma churrascaria-de-beira-de-estrada, comer tudo aquilo que se come naquela idade, e depois pegar a estrada. Eu driblava o sono dando carona para os jovens que iam ou voltavam para as centenas de escolas técnicas agrícolas espalhadas por aquela região tão rica. Não tinha erro. O moleque, ou os moleques entravam no carro me cumprimentavam e agradeciam. Na primeira sílaba pronunciada minha origem era identificada e era festa pura. Mil perguntas, mil curiosidades. Pois era assim que era... Um dia, lembro que era a sexta-feira que antecedia a abertura da Copa do Mundo de 1978, ou então que antecedia o primeiro jogo do Brasil, acho que contra a Suécia. Eu estava com muita pressa pois queria ver o jogo, naquele tempo eu conseguia ver jogo do Brasil, acreditem. Eu havia tido um problema no Fórum de uma cidade que não sei se era Bariri ou Birigui. Quando já ia embora encontro um dos jovens advogados da equipe e que, eu não sabia, morava na cidade e já estava de volta. Ele estava descarregando uma camionete com carnes, presuntos, cervejas e tudo mais que se pode imaginar em quantidades gigantescas. Pô, quando o cara, Orlando Birigui, ou Orlando Bariri, me viu ficou tão feliz, me deu um abraço tão forte, até demasiado pelo tão pouco convívio que nos era dado ter, sempre às segundas-feiras. Tomamos uma cervejinha e ele, filho temporão, me contou emocionado que era aniversário de seu pai, de seu querido pai que completava no dia seguinte 90 anos. Pediu muito, muito, muito mesmo para que eu ficasse para a grande festa. Seu pai era um velho e empolgadíssimo aposentado do Correio Aéreo Nacional, o CAM, que era orgulho do Brasil, confesso que não sei exatamente a razão. Orlando me contou que havia um encontro anual e aquele seria no aniversário, uma grande festa, com todos uniformizados. Disse que seu pai ficaria felicíssimo em conhecer e ter na festa o amigo carioca de seu filho caçula, até porque, com certeza muitos dos convidados jamais tinham visto um carioca antes. Teve jeito? Claro que não. Fiquei por lá mesmo, na cidade vizinha na casa de uma tia onde havia uma grande festa junina. Na hora da missa eu estava lá. Maior clima. Não consigo me lembrar o nome do velhinho, só lembro sua emoção ao me abraçar e exigir minha presença no almoço.Parecia um pouco com o Castilho, velho e maior goleiro do Fluminense, por suas grandes pernas arcadas e sobrancelhas ligadas. E veio o almoço. Só de leitões e cabritos dava uns dez. E tinha aquele negócio de discursos. Um lá de Ribeirão falou dos tempos heróicos dos aviões Hercules da FAB; Outro falou do dia que conheceu o Oiapoc nos velhos e valentes aviões, e por aí ia. Eu ali vendo aquilo tudo, já tinha tomado umas duas ou três, já me preparando para viajar, quando aconteceu... Antes mesmo do final do discurso que rolava o velho “Castilho” veio lentamene vindo em minha direção. E ficou olhando pra mim, todo mundo olhando pra mim...
Era uma época em que os ensaios da Mangueira explodiam de gente; os principais jogadores de futebol iam direto para a quadra, sambas de terreiro empolgantes, Ali na quadra bem a nosso lado Delegado, Neide, Mocinha; Valdomiro lá em cima. No dia do ensaio final, o samba foi até de manhã e ainda ficou gente lá. Quem viveu essa época sabe que era assim, e ainda rolava depois no “Só para quem pode”. Para conseguirmos chegar em casa , tínhamos que andar muito, o tempo todo cantando aquele samba.
E mandei assim: “Quero dar boa noite ao aniversariante
A cada abraço emocionado que eu recebia, senti que tinha caído em uma armadilha emocional e me enredado nela a tal ponto que não consegui ir embora.Tive certeza disto quando meu amigo Orlando se aproximou me abraçando. Eu achava que ali mesmo em segredo eu ia contar a ele que era um samba da mangueira, coisa e tal, me despedir e “ralar peito”. Fiquei mesmo muito confuso, fui até o meu carro e fiquei ali pensando. Como é que eu ia conseguir tirar da cabeça daquelas pessoas a fantasia, todo o orgulho de uma vida dedicada a uma causa tão bonita, da qual tanto e sempre se envaideceram? Quantos anos de vida teriam mais aqueles senhores para digerir uma farsa daquelas ? Como eu poderia dizer a todos eles que aquilo tudo foi uma estratégia carioca de sair de uma “saia justa”, nada mais que isto, e que na verdade eu nem sabia direito para que servia o Correio Aéreo Nacional. A vida seguiu. Fui transferido para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul e nunca mais vi ninguém. Contei esse “causo” muitas vezes em minha vida, ainda que só a primeira parte, sempre todos achando muito engraçado. Tempos depois consegui um contrato no Rio e fui ao antigo escritório me despedir, acertar contas, essas coisas. Dei meu jeito e encontrei Orlando disposto a contar-lhe toda a verdade na esperança de que ríssemos muito daquele dia, convidá-lo a me visitar no Rio e tudo. Pura ilusão. Orlando, que me reencontrava anos depois do episódio, ao me rever me abraçou muito forte. Agradeceu tanto tanto a alegria que dei a seu pai, uma das últimas, segundo ele, dando notícia da morte de seu velho alguns meses depois. Não consegui dizer nada...mais uma vez e dei a ele meu endereço. Nunca mais nos vimos. Era junho também, por isso estou lembrando tudo isso. Quem sabe Orlando, ou algum de seus filhos leia esta crônica. E aí então me desmascare, enfim... Até hoje não sei se quero isso... Só espero que entendam minhas razões. Letra do samba Modernos Bandeirantes (Mangueira 71) Boa noite, meu Brasil
1) Mocinha, 2ª P.B. daquele ano • Comentários sobre cada tema no local próprio indicado |
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