Memória da Folia

O Dia em que Darci, Helio Turco e
Jurandir da Mangueira me salvaram


Luis Carlos Magalhães lembra o sufoco que passou e
como foi salvo por Darci, Helio Turco e Jurandir da Mangueira

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* Por Luis Carlos Magalhães


Muita gente boa aí desse lado da tela pode até não acreditar, mas houve uma época, um tempo, em que ser carioca aí pelo Brasil era “coisa p’ra caramba”.

Vivi intensamente essa época em viagens que fiz, sendo quase levado no colo por brasileiros dos locais por onde passávamos.

Hoje tudo é muito diferente, sabemos. Sabemos e lamentamos... Como lamentamos...

Em 1978 ainda era um pouco assim. Eu morava em São Paulo, trabalhava pelo interior para a Caixa Estadual por todas aquelas estradas.

Na 2ª feira nos abastecíamos de dinheiro e de gasolina na capital e partíamos para o interior. Voltávamos na sexta feira anoitecendo.

Éramos um grupo de dez advogados recém-formados, quase estagiários, eu era o único carioca. Os outros eram de São Paulo, capital e interior.

Eu adorava aquele trabalho. Solteiro, jovem, trabalhando na minha profissão, ganhando razoavelmente e sem gastar nada: todas as despesas de hotel e alimentação pagas.

Difícil mesmo era parar em uma churrascaria-de-beira-de-estrada, comer tudo aquilo que se come naquela idade, e depois pegar a estrada. Eu driblava o sono dando carona para os jovens que iam ou voltavam para as centenas de escolas técnicas agrícolas espalhadas por aquela região tão rica.

Não tinha erro. O moleque, ou os moleques entravam no carro me cumprimentavam e

agradeciam. Na primeira sílaba pronunciada minha origem era identificada e era festa pura. Mil perguntas, mil curiosidades.

Pois era assim que era...

Um dia, lembro que era a sexta-feira que antecedia a abertura da Copa do Mundo de 1978, ou então que antecedia o primeiro jogo do Brasil, acho que contra a Suécia.

Eu estava com muita pressa pois queria ver o jogo, naquele tempo eu conseguia ver jogo do Brasil, acreditem.

Eu havia tido um problema no Fórum de uma cidade que não sei se era Bariri ou Birigui. Quando já ia embora encontro um dos jovens advogados da equipe e que, eu não sabia, morava na cidade e já estava de volta.

Ele estava descarregando uma camionete com carnes, presuntos, cervejas e tudo mais que se pode imaginar em quantidades gigantescas.

Pô, quando o cara, Orlando Birigui, ou Orlando Bariri, me viu ficou tão feliz, me deu um abraço tão forte, até demasiado pelo tão pouco convívio que nos era dado ter, sempre às segundas-feiras.

Tomamos uma cervejinha e ele, filho temporão, me contou emocionado que era aniversário de seu pai, de seu querido pai que completava no dia seguinte 90 anos.

Pediu muito, muito, muito mesmo para que eu ficasse para a grande festa. Seu pai era um velho e empolgadíssimo aposentado do Correio Aéreo Nacional, o CAM, que era orgulho do Brasil, confesso que não sei exatamente a razão.

Orlando me contou que havia um encontro anual e aquele seria no aniversário, uma grande festa, com todos uniformizados. Disse que seu pai ficaria felicíssimo em conhecer e ter na festa o amigo carioca de seu filho caçula, até porque, com certeza muitos dos convidados jamais tinham visto um carioca antes.

Teve jeito? Claro que não. Fiquei por lá mesmo, na cidade vizinha na casa de uma tia onde havia uma grande festa junina.

Na hora da missa eu estava lá. Maior clima. Não consigo me lembrar o nome do velhinho, só lembro sua emoção ao me abraçar e exigir minha presença no almoço.Parecia um pouco com o Castilho, velho e maior goleiro do Fluminense, por suas grandes pernas arcadas e sobrancelhas ligadas.

E veio o almoço. Só de leitões e cabritos dava uns dez.

E tinha aquele negócio de discursos. Um lá de Ribeirão falou dos tempos heróicos dos aviões Hercules da FAB; Outro falou do dia que conheceu o Oiapoc nos velhos e valentes aviões, e por aí ia.

Eu ali vendo aquilo tudo, já tinha tomado umas duas ou três, já me preparando para viajar, quando aconteceu...

Antes mesmo do final do discurso que rolava o velho “Castilho” veio lentamene vindo em minha direção.

Esperou acabar o discurso, pegou no meu braço e mandou cheio de gás:

“_ Agora eu tenho o maior prazer de apresentar a vocês esse jovem que além de ser amigo de meu filho caçula... é carioca. E que vai fazer seu discurso que nós vamos prestar muita atenção”.

E ficou olhando pra mim, todo mundo olhando pra mim...

Não tive saída. Ali atônito, surpreendido, depois de ouvir tantas vezes falar do Correio Aéreo Nacional, me veio à cabeça memoráveis ensaios da década de setenta na quadra da Mangueira, especialmente de um velho samba que exaltava os Modernos Bandeirantes, alguém lembra aí? Era de Darci, Helio Turco e Jurandir.

Era uma época em que os ensaios da Mangueira explodiam de gente; os principais jogadores de futebol iam direto para a quadra, sambas de terreiro empolgantes, Ali na quadra bem a nosso lado Delegado, Neide, Mocinha; Valdomiro lá em cima.

No dia do ensaio final, o samba foi até de manhã e ainda ficou gente lá. Quem viveu essa época sabe que era assim, e ainda rolava depois no “Só para quem pode”. Para conseguirmos chegar em casa , tínhamos que andar muito, o tempo todo cantando aquele samba.

Pois aquilo tudo se passou em um segundo naquele momento em minha memória. Demorei um pouco a lembrar o comecinho e adaptei como pude o samba.

E mandei assim:

“Quero dar boa noite ao aniversariante
E saudar os visitantes. Trago nesta homenagem, toda a nossa gratidão aos demais presentes. A todos que foram do Correio Aéreo Nacional. A vocês que foram e são ainda nossos Modernos Bandeirantes.

Vocês que do Oiapoque ao Chuí, até o sertão distante, deram asas ao Brasil e ligaram tantos corações solitários, deste país gigante. Quero saudar a vocês que com seus imensos Pássaros de Aço atravessaram e ligaram todas as fronteiras. A vocês que uniram e integraram todo esse imenso continente. Merecem de todos nós brasileiros o melhor reconhecimento. Muito Obrigado.”

Claro que fui o mais, muito mais aplaudido da festa, todos os velhinhos, um a um, a me abraçar. Bem , eu poderia muito bem terminar esta crônica-causo por aqui mesmo, deixando-a como está; cheguei mesmo a pensar nisto. Mas esse foi só o lado bom da história.

A cada abraço emocionado que eu recebia, senti que tinha caído em uma armadilha emocional e me enredado nela a tal ponto que não consegui ir embora.Tive certeza disto quando meu amigo Orlando se aproximou me abraçando. Eu achava que ali mesmo em segredo eu ia contar a ele que era um samba da mangueira, coisa e tal, me despedir e “ralar peito”.

Fiquei mesmo muito confuso, fui até o meu carro e fiquei ali pensando. Como é que eu ia conseguir tirar da cabeça daquelas pessoas a fantasia, todo o orgulho de uma vida dedicada a uma causa tão bonita, da qual tanto e sempre se envaideceram? Quantos anos de vida teriam mais aqueles senhores para digerir uma farsa daquelas ? Como eu poderia dizer a todos eles que aquilo tudo foi uma estratégia carioca de sair de uma “saia justa”, nada mais que isto, e que na verdade eu nem sabia direito para que servia o Correio Aéreo Nacional.

A vida seguiu. Fui transferido para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul e nunca mais vi ninguém. Contei esse “causo” muitas vezes em minha vida, ainda que só a primeira parte, sempre todos achando muito engraçado.

Tempos depois consegui um contrato no Rio e fui ao antigo escritório me despedir, acertar contas, essas coisas. Dei meu jeito e encontrei Orlando disposto a contar-lhe toda a verdade na esperança de que ríssemos muito daquele dia, convidá-lo a me visitar no Rio e tudo.

Pura ilusão. Orlando, que me reencontrava anos depois do episódio, ao me rever me abraçou muito forte. Agradeceu tanto tanto a alegria que dei a seu pai, uma das últimas, segundo ele, dando notícia da morte de seu velho alguns meses depois.

Não consegui dizer nada...mais uma vez e dei a ele meu endereço.

Nunca mais nos vimos. Era junho também, por isso estou lembrando tudo isso. Quem sabe Orlando, ou algum de seus filhos leia esta crônica. E aí então me desmascare, enfim...

Até hoje não sei se quero isso... Só espero que entendam minhas razões.

Letra do samba Modernos Bandeirantes (Mangueira 71)

Boa noite, meu Brasil
Saudações aos visitantes
Trago neste enredo
Fatos bem marcantes
Os modernos bandeirantes
Do Oiapoque ao Chuí
Até o sertão distante
O progresso foi se alastrando
Neste país gigante
No céu azul de anil
Orgulho do Brasil
Nosso pássaros de aço
Deixam o povo feliz
Ninguém segura mais este país
Busquei na minha imaginação
A mais sublime inspiração
Para exaltar
Aqueles que deram asas ao Brasil
Para no espaço ingressar
Ligando corações
O Correio Aéreo Nacional
Atravessando fronteiras
Cruzando todo o continente
E caminhando vai o meu Brasil
Santos Dumont
Hoje o mundo reconhece
Que você também merece
A glorificação


Legendas: por ordem no texto:

1) Mocinha, 2ª P.B. daquele ano
2) Passista da Mangueira
3) Pássaro de Aço do CAM




• Comentários sobre cada tema no local próprio indicado


* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval




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