Memória da Folia

Racismo ou leviandade no samba?


Luis Carlos Magalhães se surpreende com as acusações de Caetano Veloso contra Noel Rosa, parte em defesa do poeta da Vila e revela bastidores da polêmica com Wilson Batista

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Juro que não acreditei...

Assisti uma vez, outra...

Cada vez mais incrédulo...

O que era aquilo?

Eu conto...

Eu já me preparava para dormir, mas ainda ainda pude abrir o último e-mail que acabava de chegar: um leitor irritado sugeria que eu entrasse no blog do Caetano Veloso, ou então no google e pedisse: Caetano versus Noel.

Versus Noel, como assim? Caetano contra Noel? Perguntei... sem resposta. _ Vai lá e vê; depois 'tu me retorna'.'

E fiquei pensando... Pô, Caetano tem por ele admiração tão grande, quê poderia ser...

Era um vídeo com cenas de junho deste ano, Caetano cantando Feitiço da Vila classificando-a como... 'uma canção basicamente racista'.

(o vídeo está disponibilizado em ’www.obraemprogresso.com.br’ ou no youtube por 'obraemprogresso-feitiço–da-vila')

Eu lembro vagamente de ter ouvido falar alguma coisa, de um samba-resposta, algum comentário, alguma restrição, algo sem muita repercussão. Mas o que está ali...naquele vídeo chegou a me assustar...

Senti como uma facada. A cada momento, a cada acorde, a cada frase dele, a cada risada da platéia, parecia que a faca ia cortando mais, sem parar.

Como Caetano poderia estar fazendo aquilo com Noel... como Caetano poderia estar fazendo aquilo consigo mesmo, com sua própria história...e que público era aquele...será que era aqui no Rio...será que teve algum carioca ali para polida e ostensivamente se levantar e sair...ou todos, inclusive os que tanto riam, será que tantos concordavam com o que estavam ouvindo ?

Na verdade eu não conseguia entender como Caetano Veloso poderia estar dizendo tão prazerosamente (reparem...) aquelas coisas tão duras, tão desconectadas entre si.

Por um momento reagi como se fosse eu a dizer aquelas coisas. Por tanto que gosto dele, pela importância que teve em minha juventude, eu não o “perdoava” por não ter antes telefonado para qualquer de seus amigos cariocas... tenho certeza que qualquer “amigo” o impediria de dizer aquilo (isso mesmo;impedir). Impedir “em seu favor”, pelo menos colocando a dúvida em sua cabeça, fazê-lo refletir mais um pouco... antes de puxar o gatilho ...

Para mim, pelo que penso de Caetano Veloso e de Noel Rosa, tal situação me deixou insone, de tão confuso. Que estava acontecendo? Caetano parecia estar curtindo, se deliciando desvendando para “seu público” um lado ruim do Poeta da Vila. Tomara que esteja exagerando, mas juro que senti ali um ar de felicidade... a forma como, ao violão, escolhia e evidenciava trechos, induzindo a platéia.

E tentava minimizar a partir da “ausência de pais fundadores na política” apontando Noel como ”um de nossos pais fundadores”. E ali contraditória e risonhamente, até gargalhadamente, se comprazia em detonar um de tão poucos “pais fundadores”.

Deixou para o final seu equívoco maior, se referindo àquele ‘momento’, com ar triunfal, de seu ‘gran finale’ daquela noite, invertendo e utilizando versos não existentes quando a música foi composta. Minha vontade era estar lá e impedir aquilo, calá-lo, não no sentido autoritário, como é próprio dos censores, mas como seu fã de toda a vida, em respeito a ele.

Entrei em conflito. Afinal um dos meus maiores ídolos estava errado. Qual dos dois? Ou Caetano está errando grosseiramente em sua avaliação ou Noel terá pisado na bola geral e não é bem aquilo que dele pensamos por todos esses anos.

E se Caetano estiver errado? Terá sido induzido a erro ou terá sido leviano.

A sensação que tive... o que me ocorreu ali foi lembrar daquelas pessoas que fazem ou contam uma piada de mau gosto, muitas vezes até constrangedora, deixando um amigo em má situação. E depois dizem: - Perco o amigo... mas não perco a piada...

Pois é assim... fico temeroso, e ao mesmo tempo torcendo para isto, que Caetano ali, naquele auditório, diante de seu público sempre ávido de suas polêmicas, tenha assim procedido: - Perco o ídolo...mas não perco o ‘momento’. Quem sabe esperando uma repercussão retumbante que acabou não acontecendo: se não fosse o e-mail do leitor eu não teria sabido de nada. Nem o pessoal do ‘Espaço Aberto do Galeria’ soube...não vi nenhum tópico...

Digo assim porque, diversamente de sua irmã, Caetano não se contenta com o julgamento da história; nela certamente estarão ambos em lugar que bem merecem, ao lado de outros artistas brilhantes de tão brilhante geração. Caetano é mais, quer mais. Não deixa passar, e muitas vezes procura, ‘momentos’: um polemista incansável e, tantas vezes, necessário. Não deixa escapar nenhum ‘momento’ para “marcar seu tempo” diante de “seu público” que se embevece a cada vez, despreocupado de qualquer sentido crítico: Caetano ‘falou... tá falado’.

E fica mais complicado porque já há algum tempo é disparado meu cantor preferido. No vídeo lá em baixo, pode-se perceber a delicadeza musical, o passeio pelas notas de Vadico, ao mesmo tempo em que, tal como um afiadíssimo promotor de justiça, usa todo seu poder de convencimento, todo seu carisma e criatividade perante ‘seu público’ para acusar – sim, o termo é acusar – o samba de racista. E o faz im-pi-e-do-as-men-te, está lá, é só vocês aí desse lado ‘clicarem’ para ver se estou exagerando.

O pouco que sei sobre Noel ouvi de meu pai, seu contemporâneo em Vila Isabel, e dos livros que li; como o instigante ‘O Feitiço Decente’ de Carlos Sandroni; ‘Noel Rosa - De Costas para o Mar’ de Jorge Caldeira; ‘No tempo de Noel Rosa’ de Almirante; e Noel Rosa-Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier.

Curioso registrar dois aspectos: não lembro de ter lido nada nesses autores apontando traços racistas no ‘Feitiço’, e olha que só tem ‘fera’ entre os aqui citados. Não estou afirmando que não tenha, estou dizendo que não lembro de ter lido nada nesse sentido.

Também importante registrar que o livro ‘Noel-Uma Biografia, é o mais minucioso, detalhista e pormenorizado livro que li sobre o universo da nossa música. É, portanto, minha referência maior sobre Noel Rosa e sobre tudo da Vila Isabel daqueles anos.

O curioso da história é que, quinze anos antes, em 1990, já os autores se antecipavam aos futuros críticos de Noel. E assim o fizeram com referência não ao ‘Feitiço’ mas a um outro samba, ‘Rapaz Folgado’, quando, aí sim, nosso poeta respondia ao samba ‘Lenço no Pescoço’ de Wilson Batista’ utilizando – ele, Noel –, para tanto, versos aparentemente moralistas e preconceituosos, como veremos na próxima semana.

Está lá na página 292, para vocês checarem a tal defesa prévia:

“Interpretações futuras – e simplistas – nos darão conta de um Noel repentinamente preocupado em mudar a imagem do sambista, tornar bem comportados os temas da música popular, desempenhar papel moralizador. Nada mais apressado.”

Na mosca !

Mas Caetano Jogou pesado... muito pesado...

Declara, ora falando... ora cantando, com ruidosa aprovação da platéia, parecendo convencer a todos de “uma verdade nova”. Uma ‘verdade nova’ que nenhum dos autores que estudaram a obra de Noel, inclusive os que foram seus amigos, como Almirante, jamais viram. Ao que eu saiba, e é impossível ter esta certeza, só para mudar o lado da moeda, nunca soube que nenhum ‘scholar’ tenha descoberto algo parecido em suas caudalosas dissertações ou teses.

Declara que ‘feitiço’ é uma afirmação da classe média branca e letrada contra sambas do morro e próximos do candomblé. E que era basicamente uma canção racista. Como se estivesse ali a dizer uma verdade insofismável. O que não disse é que abusou fartamente da arte de sofismar ao analisar o ‘Feitiço’.

Se alguém dissesse tais coisas de Caetano Veloso, minha reação seria tão dolorida quanto esta de agora.

E depois, após sapecar tal classificação, afirma que esta condição não faz dela uma canção menor. Como não? Pergunto eu. Porque então toda aquela cena? Apenas em troca de um momento de reafirmação diante de seu público? Nenhuma canção ‘basicamente racista’ pode deixar de ser classificada como canção menor, mesmo com tantas qualidades poéticas e melódicas como ‘Feitiço’.

(na verdade penso que naquele momento a preocupação era minimizar o possível estrago que Caetano supunha estar causando à obra de Noel). Dói p’ra caramba, pode crer...

Bateu forte... tripudiou... sacaneou... ironizou... fez sua platéia rir muito. Rir da canção de Noel, pra não fizer que rissem de Noel. Que público era aquele, gente? Convidou a todos para examinar (ou era uma seção de sofisma em grupo), ouvir e pensar a música com todas as frases que continha, sem saber, ou omitindo, que os versos citados em seu ‘gran finale’ não fazem parte da gravação original na época em que, tal como equivocadamente supõe, a canção estivesse rebatendo Wilson Batista em Lenço no Pescoço.

E, naquele momento, naquele ‘gran finale’, dá prosseguimento a um festival de sofismas poucas vezes visto. Nunca imaginei na vida que um dia pudesse citar Caetano Veloso, u’a mente iluminada, como exemplo da arte de sofismar, ainda mais tendo Noel Rosa como alvo.

E tem mais, dá uma ‘clicadinha’ lá para ver: atiçou pra valer, jogou combustível e deu o fósforo ao evidenciar que Wilson era ‘mais para preto do que para branco’ contrapondo-o, para os efeitos de sua tese, a um Noel que era ‘mais para branco do que para preto’; tive que rever duas vezes para acreditar.

E ainda faz uma referência oca, imprecisa, que soa vaga e incompleta quanto às palavras “café” e “leite” do samba. Parece propor ao público identificar com ele uma conotação racial de todo desfocada dos acontecimentos políticos de então. Noel, longe disto, apontava para a recém finada república velha e sua política de alternância de poder, tempos findos do coronelismo da pecuária (do leite) e do baronato do café. Aqui Caetano foi tão vago que nem o termo ‘sofisma’ pode ser usado.

Em versos espirituosíssimos Noel inclui a produção de sambas de Vila Isabel nessa pauta produtora, ainda que de produção caseira, de fundo de quintal; de esquina e de mesas de bar: dos bares de Vila Isabel:

São Paulo
Dá café,
Minas dá leite,
E a Vila Isabel
Dá samba.

Quem há de querer mais ”vilisabelice” do que isso?

Ë mesmo de se tirar o chapéu para o cara...

Pra que cara? Para os dois: Para Noel pela singularidade... para Caetano por conseguir enxergar racismo nisto.

Mas Caetano, ante a reação positiva da platéia, prosseguia demonstrando metódica e musicalmente sua mais nova tese, sua mais nova polêmica. Passa a contrapor, a antagonizar o feitiço decente da Vila, sem farofa e sem vintém, ao feitiço “de preto” e “de macumba”.

(será que se “feitiço decente” tivesse mesmo tal conotação racista um autor da categoria de Carlos Sandroni produziria sua tão instigante tese de mestrado, além de publicá-la em livro, dando a tal esforço intelectual justamente o nome “O Feitiço Decente”? Nenhum amigo de Caetano leu o livro ou dele tomou conhecimento?)

Ao fazer tais afirmações, ao construir tal tese, com tanta convicção, ao fazer tais associações sem manifestar qualquer resquício de dúvida, Caetano Veloso deixa aos desavisados uma inquietante impressão: a de que se há algum racista nesta história, este racista não é Noel. .

Vamos lá....

Primeiro é preciso constatar que Caetano sustenta sua tese na suposição de que Feitiço da Vila foi inspirada, composta e gravada para responder a “Lenço no Pescoço”, samba de 1933 de Wilson Batista, no contexto daquela tão famosa polêmica.

Trata-se aqui de um equívoco musical, uma desinformação que vem sendo perpetuada e que induz muita gente boa a erro, tal como sucedeu a Caetano Veloso... infelismente. Na verdade foi Wilson quem trouxe o “Feitiço” para o contexto da polêmica tempos depois, quando já ninguém falava nela.

Só isto, esta constatação, já seria bastante para enfraquecer toda a tese restante, para derrubar sofismas. A letra de ‘Feitiço’ completa (repito: completa) tal como foi concebida e gravada pela primeira vez em 1934 por João Petra de Barros, está disponibilizada lá em baixo.

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SEGUNDO TEMPO
(para ler outro dia... que ninguém é de ferro!!!)

Resumo do primeiro tempo naquilo que importa resumir:

A razão de tudo, a gênese, é a tal polêmica. Vamos a ela para poder contextualizar o equívoco de Caetano Veloso.

Em 1933 Wilson dá a partida ao compor ‘Lenço no Pescoço’ que era uma apologia da malandragem, tema central e preponderante na música da cidade;

Ainda em 1933 Noel rebate com ‘Rapaz Folgado’ contestando o ‘discurso’ da malandragem (assunto da próxima semana);

Em 1934 Wilson responde a Noel com ‘Mocinho da Vila’ sem obter qualquer repercussão, esfriando a polêmica;

(Noel já então havia composto o ‘Feitiço’ com Vadico sem que o samba, como veremos, tivesse absolutamente nada a ver com a polêmica)

Em 1935, participando de um programa de rádio Noel compõe duas outras estrofes adaptando-as à melodia do ’Feitiço’;

Em 1935 Wilson aproveita os versos novos de Noel e não perde tempo: traz a polêmica de volta. Compõe o samba ‘Conversa Fiada’ provocando Noel;

Ainda em 1935, Noel responde a Wilson com uma de suas obras-prima: Palpite Infeliz;

Em 1936 Wilson pega por baixo: “dá na canela”; chuta o balde e o pau da barraca. Contra ataca com ‘Frankenstein da Vila’ dizendo que entre os feios Noel era o primeiro da fila, batizando-o de ‘fantasma da Vila’.

Noel não respondeu.

O que tanto Almirante, Máximo e Didier contam, além de meu pai, cada um a seu tempo, é que a partir da gravação de “Na Pavuna” de Almirante e Homero Dornelas, Noel iniciou uma série de composições exaltando sua Vila Isabel. E foi seguido por compositores de toda cidade que compunham obras inéditas ou aproveitavam melodias já existentes adaptando-as com o nome de seus bairros. O melhor (ou pior?) exemplo desse momento ficou com os compositores da Gamboa que para exaltar seu bairro valeram-se da melodia de “Na Pavuna”.

E ficou essa maravilha:

Na Gamboa,
Na Gamboa,
Tem macumba
Que só entra gente boa.

Máximo e Didier contam que na Primavera de 1934 uma jovem moradora da Vila, Leda Casatle, superou todas as representantes dos demais bairros cariocas e trouxe para Vila Isabel o título de Rainha da Primavera. Que toda a cidade passou a cortejá-la. Suas fotos eram estampadas em primeiras páginas de jornais e capas de revistas.

E que vários compositores nela se inspiraram, inclusive Benedito Lacerda com a valsa ‘Lela’; que dali mesmo da Vila, do gênio de Braguinha, a Primavera ganhava sua mais famosa saudação na voz de Carmen Miranda:

O Rio amanheceu cantando
Toda a cidade amanheceu em flor
E os namorados vêm pra rua em bando
Porque a Primavera é a estação do amor.

Assim era Vila Isabel naqueles anos...

Para ela, para sua rainha, para a rainha da Vila e da primavera, que Noel compusera o “Feitiço”. O tal duelo com Wilson estava esquecido, já ninguém falava mais dele. SaÍra de cena depois que seu samba “Mocinho da Vila”, em resposta a Noel, teve repercussão zero.

A poesia do ‘Feitiço’ é uma belíssima apologia do bairro mais invejado e festejado daquela cidade que experimentava os primeiros anos de um novo ciclo trazido pela era Vargas.

Um bairro que produzia “pequenas” insuperavelmente belas como Lela Casatle, produzia sambas tão especiais que fazia dançar, além de seus moradores, os galhos dos arvoredos do Boulevard.

Um bairro que nem precisava fazer feitiço, nem usar farofa, nem vela nem vintém. Valia-se do seu próprio feitiço, tão forte que fazia a lua nascer mais cedo; paraíso de seus boêmios que viviam a pedir ao sol que demorasse a chegar senão as morenas iam logo embora.

Vila Isabel... era assim... Um bairro que, com seu feitiço e tendo nome de princesa, transformou o samba, tão objeto de preconceitos, em um feitiço decente, acolhido, dançado e cantado, prendendo a todos os moradores da Vila. Trazia o samba do morro para a cidade, ‘cidadanizando-o’. Tal como a princesa Isabel fizera com os negros transformando-os em cidadãos (pelo menos essa era a esperança de então, lá em Vila Isabel e em todo o Brasil).

['A Vila tem um feitiço sem farofa...' (a Vila tem o seu feitiço)]

Mas há ainda uma outra questão que levou Caetano a considerar “Feitiço” canção racista.

Toda aquela festa da Primavera ocorrera em 1934.

No ano seguinte, já diagnosticada a doença que o levaria ‘desta para pior’, Noel sente a perda de seu pai que se suicidara. Sua já complicada vida se complicaria ainda mais. Continuava nas cervejas, gravando nada, namorando muito, ganhando pouco.

Sustentava-se participando na Rádio Sociedade do Programa Casé. Noel apresentava ali ora músicas novas (poucas) e músicas antigas improvisadas e/ou alteradas. Conta-se que só mesmo o título mudava; as músicas eram as mesmas já antes compostas; usava sua criatividade instantânea para adaptar a elas novos versos.

Assim fez com “Feitiço”. Compôs ali na hora duas estrofes, a melodia era a mesma de Vadico para a canção original. Ficou assim (os grifos são meus):

Quem nasce pra sambar
Chora pra mamar
Em ritmo de samba

Eu fui sair de casa olhando a lua
E até hoje estou na rua.

A zona mais tranqüila .
É a nossa Vila
O berço dos folgados
Não há um cadeado no portão
Pois lá na Vila não há ladrão
.

Wilson Batista naqueles dias ainda não era “O” Wilson Batista; era apenas um jovem talentoso buscando seu momento, seu lugar ao sol.

Só seria o grande Wilson Batista na década seguinte. Até então vivia na “aba” de seu ídolo Noel Rosa.

E foi assim, ao ouvir os novos versos de Noel, que Wilson malandramente tratou de reacender a polêmica. Compôs o samba “Conversa Fiada”, respondendo a “Feitiço da Vila” juntando todos os versos, gravados ou não gravados, dando especial ênfase à expressão 'cadeado no portão'.

E foi assim também que no show Caetano inseriu o samba na polêmica. A diferença está em que Wilson usou o “Feitiço” para produzir uma resposta que reabrisse a tal polêmica que, de resto, era vital para a alavancagem de sua carreira.

Com Caetano foi diferente. Caetano usou o “Feitiço” para sofismar, incluí-la
na polêmica e contrapô-la (ai!!!) aos versos de ‘Lenço no Pescoço’ em que
Wilson fazia apologia da vadiagem. Lograva assim, depois de um ‘gran finale’,
convencer a todos que estavam ali e, pior, a todos que assistam ao vídeo
“acriticamente” que ‘Feitiço’ é mesmo uma canção basicamente racista.

Mas e o tal ‘gran finale’; o que foi o ‘gran finale’?

Quando Caetano parecia estar terminando de cantar, alguém da platéia mencionou a palavra ‘cadeado’ (contida no verso: lá não há cadeado no portão...) de uma das estrofes, aqueles posteriormente compostos de improviso no Programa Casé. Ali Caetano parou e brincou... ironizou... tripudiou...levou seu público às gargalhadas. (como vemos, tantas décadas depois, a esperteza de Wilson só agora tivera êxito)

Disse com uma empáfia nunca vista nele que aqueles versos, citados por uma voz da platéia, eram o seu ‘gran finale’. Disse ao som de sonoras gargalhadas, dirigindo-se a quem falou, que ele não podia ‘roubar’ seu ‘gran finale’. Ou seja, a palavra ‘cadeado’ era a chave do ‘gran finale’ daquela noite.

Na verdade seu ‘gran finale’ foi armar aquele clima e dar sua estocada final. Mira em José Ramos Tinhorão por sua implicância com Tom Jobim. Critica Tinhorão por acusar Tom e os músicos da bossa nova “(...) de se apropriarem indevidamente do samba dos negros da favela”. Por tabela, criticou Tinhorão por não criticar igualmente a Noel. Deixa claro para quem quiser ouvir que “(...) Noel não só fez isso (se apropriar do samba dos negros da favela) como pioneiramente e ar-ro-gan-te-men-te disse todas essas coisas nessa grande canção”.

Mas ainda não é o ‘gran finale’.

Para demonstrar isto Caetano Veloso, o grande Caetano Veloso, “comete”, contra Noel Rosa (o grande Noel Rosa), aí sim, seu ‘gran finale’. Contra Noel, contra a obra de Noel, contra a música brasileira e contra a cultura brasileira. E contra si próprio.

Vai buscar naqueles versos do ‘Feitiço’ (aqueles do Programa Casé), aqueles transcritos lá atrás, e dá a eles uma nova arrumação.

Usa apenas os três primeiros versos iniciais da primeira estrofe (omitindo os dois últimos); usa apenas os três versos finais da segunda estrofe (omitindo os dois primeiros).

Portanto, o que antes era assim:

Quem nasce pra sambar.....................A zona mais tranqüila
Chora pra mamar................................É a nossa Vila
Em ritmo da samba.............................O berço dos folgados
Eu fui sair de casa olhando a lua..............Não há um cadeado no portão
E até hoje estou na rua...........................Pois lá na Vila não há ladrão.

Com os versos re-arrumados, acabou ficando assim...

Quem nasce pra sambar
Chora pra mamar
Em ritmo de samba
Não há um cadeado no portão
Pois lá na Vila não há ladrão.

Naqueles versos, dentro do espírito do Programa Casé, Noel fazia referência ao tempo de seu nascimento em Vila Isabel. Os versos são claramente reflexivos. Noel se diz nascido pra sambar, e por isso chorava para mamar ao ritmo de samba.

A maior prova de que não está se referindo ao Wilson Batista ou a ninguém, senão a si próprio, está no terceiro verso da primeira estrofe. Ele diz “-- Eusaí de casa olhando a lua, e até hoje estou na rua”. Certo? A questão é que os versos explicitamente ‘inclusivos’ foram excluídos da tese de Caetano Veloso, de seu ‘gran finale’.

(lá na frente vou dar uma especulada sobre o que teria induzido Caetano Veloso a erro. Repito: especulada, certo?)

E mais...

Volto agora a João Máximo e Carlos Didier, mais-que-dedicados biógrafos de Noel. Naqueles tempos da infância “(...) Vila Isabel gozava a má fama de atrair ladrões, seus moradores sempre sobressaltados com os assaltos que ocorriam até nos bondes. Mas esse tempo, garante Noel nos novos versos de Feitiço da Vila, já passou, todo o bairro podendo se orgulhar de dormir sem cadeado no portão”.

Voltamos aos versos re-arrumados por Caetano Veloso. Olhando bem, examinado bem, forçando mesmo uma barra, concluo que, mesmo assim, é preciso ter muita criatividade negativa para associar que ‘quem nasce pra sambar e chora pra mamar em ritmo de samba´ é preto; mais criatividade e mais negativa ainda para concluir que ‘se não há cadeado no portão’ e se ‘na Vila não há ladrão’ sejam referência a qualquer pessoa diretamente. Uma ofensa dirigida a alguém.

Um samba incomparável, obra prima e orgulho do povo carioca, do povo brasileiro, composto para saudar uma rainha da primavera sendo utilizado indevidamente em uma polêmica para justificar uma tese racial. Não poderia dar certo.

Um dos maiores artistas brasileiros, de talento formidável, signo de sua geração, descuidar-se de si próprio, investindo ‘apressadamente’ contra um símbolo de si e de seu povo... não poderia dar certo mesmo...

A polêmica de Noel Rosa e Wilson Batista teve um saldo pra lá de positivo, transformou-se em lenda da cultura brasileira. Trouxe uma obra prima para nossa música: Palpite Infeliz.

Amadureceu o talento precioso de Wilson Batista garantindo a ele o lugar de destaque que bem merece.

Há, no entanto, muita confusão sobre ela. E alguma desinformação...

Na minha modestíssima opinião, ou melhor, modestíssima especulação, uma das razões destes equívocos – ou a razão – está no show ‘O Samba Pede Passagem’, realizado em fins de 1965 no Teatro Opinião, com Direção de João das Neves. Ali, eu presumo, para ‘apimentar’ a polêmica, para criar ‘um clima’, foi inserido lá no final (fora da ordem original e fora da ordem de Caetano) o samba Feitiço da Vila já com os versos de uma das estrofes do Programa Casé.

Pior, no show os tais versos não foram acrescentados à letra originalmente composta e gravada. Ali tais versos substituíram os originais, inclusive reduzindo o tamanho do samba ao que interessava ao tema do show e ao público: a polêmica.

Provavelmente, e especulo novamente, muita gente ficou com aqueles versos e com aquela seqüência na cabeça, e isto foi passando...passando...passando
E virando verdade.

Quem quiser saber da polêmica, curtí-la, basta procurá-la, se informar. A quem quiser ter sua exata dimensão não bastará informação. Será preciso, mais que informação, o conhecimento. Os livros, os ensaios, acesso aos longos trabalhos de pesquisa publicados.

Assim sendo, ou mesmo não sendo bem assim, qualquer um de nós pode se equivocar, trocar u’a música, inverter uma data ou o sentido de uma provocação. Provavelmente neste texto terei escrito imprecisões. Minha restrição se volta contra a atitude de Caetano Veloso.

Certamente se fosse outro artista não me tocaria tanto. Sua atitude, sua empáfia, repito; o prazer que demonstrou por estar ‘torpedeando’ Noel Rosa; formando opinião, como sabemos que forma; a maneira como conduziu seu público a um desrespeito absoluto a um de nossos 'pais fundadores'.

O que se viu naquele vídeo, para usar uma expressão da garotada, foi uma ‘zoação’; ou uma expressão dos nossos dias, um ‘esculacho’

Para ficar no tempo de Noel...palpite infeliz...

 

Sugestão para ver agora:

Caetano Veloso cantando (?) Feitiço da Vila;
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Sugestão para ouvir agora:

Áudio da parte relativa à polêmica no show ‘Samba Pede Passagem’:

1-Lenço no Pescoço, de Wilson;
2-Rapaz Folgado, de Noel;
3-Mocinho da Vila, de Wilson (que ficou sem resposta de Noel);
4-Palpite Infeliz, de Noel;
5-Frankenstein da Vila, de Wilson;
6-Feitiço da Vila, lembrando que é uma versão reduzida (como todas as incluídos) somente para o show. Consta da primeira estrofe original. ‘Quem nasce lá na Vila...’ ; e apenas uma segunda estrofe, aquela última do Programa Case: ‘ (...) A zona mais tranqüila...”.

A versão do show é aqui apresentada apenas para demonstração do ‘espírito’ de cada samba, o espírito da polêmica,só isto. A verdadeira seqüência da polêmica é:

* Lenço no Pescoço;
* Rapaz Folgado;
* Mocinho da Vila;
* esfriamento.
* Noel compõe Feitiço fora do contexto da polêmica;
* No Programa case, Noel improvisa (sem gravar) duas novas estrofes;
*Wilson compõe Conversa Fiada em cima dos ‘novos’ versos e provoca;
* Noel responde com ‘Palpite Infeliz’, a obra prima da polêmica;
* Wilson ataca com o Frankenstein da Vila e Noel não responde.



Lenço no Pescoço
Meu chapéu de lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Sandália no bolso
Eu passo gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho de ser vadio

Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê
Eu sou vadio
Porque tive inclinação
No meu tempo de criança
Tirava samba canção.


Rapaz Folgado
Deixa de arrastar o teu tamanco
Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco
Compra sapato e gravata
Joga fora essa navalha
Que te atrapalha

Com chapéu de lado deste rata...
Da polícia quero que escapes
Fazendo samba canção.
Já te dei papel e lápis
Arranja um amor e um violão.

Malandro é palavra derrotista...
Que só serve pra tirar
Todo o valor do sambista.
Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro
E sim de rapaz folgado.

Feitiço da Vila
Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo

Lá em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba.
São Paulo dá café,
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba.

A Vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem...
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço decente
Que prende a gente...

O sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
Sol pelo amor de Deus,
Não venha agora
Que as morenas vão logo embora.

Eu sei por onde passo
Sei tudo que faço
Paixão não me aniquila...
Mas tenho que dizer:
Modéstia à parte
Meus senhores
Eu sou da Vila

FOTOGRAFIAS etc.

Caricatura de Noel, por ele mesmo;
Marília Baptista, uma das cantoras preferidas de Noel; ***
Auto caricatura de Noel Rosa-arquivo João Baptista Figueiredo (da contra-capa do livro de Máximo e Didier) *
Aracy de Almeida a outra preferida; ***
Fina, a namorada operária da fábrica de tecidos; *
Ismael olhando o futuro, capa do livro de Carlos Sandroni; **
Wilson Batista...se achando... ***
Ao centro Leda Casatle, a musa de Feitiço, orgulho de Vila Isabel; *
Quando o apito ...da fábrica de tecidos... *
Vadico para sempre nas calçadas musicais de Vila Isabel;
A família Medeiros rosa. Tempos felizes... *
Noel chic...coisa rara ( da capa do livro de Máximo e Didier). *
Capa do disco do show ‘O Samba Pede Passagem’ de 1965, no Teatro Opinião que reproduz a polêmica em seqüência ‘apimentada’, diferente da original.


* Livro de Máximo e Didier
** Livro de Carlos Sandroni
*** Livro de Jorge caldeira



Livros consultados:

1) Noel Rosa – Uma Biografia de João Máximo e Carlos Didier. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1990.
2) Noel Rosa, de costas para o mar de Jorge Caldeira. São Paulo: Editora Mameluco, 2007.
3) Feitiço Decente de Carlos Sandroni. Rio de Janeiro: Editores Zahar e UFRJ, 2001.
4) No Tempo de Noel Rosa de Almirante. Rio de Janeiro: Editora Livraria Francisco Alves.

* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval







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Aos não portelenses...
Para Donga e Cartola


Escolas de Samba
Enquete

Na sua opinião, qual desfile pode ser considerado o
mais importante da
história do Sambódromo?


'Braguinha' (Mangueira, 84)

'Kizomba' (Vila Isabel, 88)

'Liberdade, liberdade' (Imperatriz, 89)

'Ratos e Urubus'
(Beija-Flor, 89)

'Vira, Virou...a Mocidade chegou' (Mocidade, 90)

'Vou cair na gandaia', (Viradouro, 97)


 



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