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Memória da FoliaRacismo ou leviandade no samba? Juro que não acreditei... Eu conto... Eu já me preparava para dormir, mas ainda ainda pude abrir o último e-mail que acabava de chegar: um leitor irritado sugeria que eu entrasse no blog do Caetano Veloso, ou então no google e pedisse: Caetano versus Noel. Versus Noel, como assim? Caetano contra Noel? Perguntei... sem resposta. _ Vai lá e vê; depois 'tu me retorna'.' E fiquei pensando... Pô, Caetano tem por ele admiração tão grande, quê poderia ser... Era um vídeo com cenas de junho deste ano, Caetano cantando Feitiço da Vila classificando-a como... 'uma canção basicamente racista'. (o vídeo está disponibilizado em ’www.obraemprogresso.com.br’ ou no youtube por 'obraemprogresso-feitiço–da-vila') Eu lembro vagamente de ter ouvido falar alguma coisa, de um samba-resposta, algum comentário, alguma restrição, algo sem muita repercussão. Mas o que está ali...naquele vídeo chegou a me assustar... Senti como uma facada. A cada momento, a cada acorde, a cada frase dele, a cada risada da platéia, parecia que a faca ia cortando mais, sem parar.
Na verdade eu não conseguia entender como Caetano Veloso poderia estar dizendo tão prazerosamente (reparem...) aquelas coisas tão duras, tão desconectadas entre si. Por um momento reagi como se fosse eu a dizer aquelas coisas. Por tanto que gosto dele, pela importância que teve em minha juventude, eu não o “perdoava” por não ter antes telefonado para qualquer de seus amigos cariocas... tenho certeza que qualquer “amigo” o impediria de dizer aquilo (isso mesmo;impedir). Impedir “em seu favor”, pelo menos colocando a dúvida em sua cabeça, fazê-lo refletir mais um pouco... antes de puxar o gatilho ... Para mim, pelo que penso de Caetano Veloso e de Noel Rosa, tal situação me deixou insone, de tão confuso. Que estava acontecendo? Caetano parecia estar curtindo, se deliciando desvendando para “seu público” um lado ruim do Poeta da Vila. Tomara que esteja exagerando, mas juro que senti ali um ar de felicidade... a forma como, ao violão, escolhia e evidenciava trechos, induzindo a platéia. E tentava minimizar a partir da “ausência de pais fundadores na política” apontando Noel como ”um de nossos pais fundadores”. E ali contraditória e risonhamente, até gargalhadamente, se comprazia em detonar um de tão poucos “pais fundadores”. Entrei em conflito. Afinal um dos meus maiores ídolos estava errado. Qual dos dois? Ou Caetano está errando grosseiramente em sua avaliação ou Noel terá pisado na bola geral e não é bem aquilo que dele pensamos por todos esses anos. E se Caetano estiver errado? Terá sido induzido a erro ou terá sido leviano.
Pois é assim... fico temeroso, e ao mesmo tempo torcendo para isto, que Caetano ali, naquele auditório, diante de seu público sempre ávido de suas polêmicas, tenha assim procedido: - Perco o ídolo...mas não perco o ‘momento’. Quem sabe esperando uma repercussão retumbante que acabou não acontecendo: se não fosse o e-mail do leitor eu não teria sabido de nada. Nem o pessoal do ‘Espaço Aberto do Galeria’ soube...não vi nenhum tópico... Digo assim porque, diversamente de sua irmã, Caetano não se contenta com o julgamento da história; nela certamente estarão ambos em lugar que bem merecem, ao lado de outros artistas brilhantes de tão brilhante geração. Caetano é mais, quer mais. Não deixa passar, e muitas vezes procura, ‘momentos’: um polemista incansável e, tantas vezes, necessário. Não deixa escapar nenhum ‘momento’ para “marcar seu tempo” diante de “seu público” que se embevece a cada vez, despreocupado de qualquer sentido crítico: Caetano ‘falou... tá falado’. E fica mais complicado porque já há algum tempo é disparado meu cantor preferido. No vídeo lá em baixo, pode-se perceber a delicadeza musical, o passeio pelas notas de Vadico, ao mesmo tempo em que, tal como um afiadíssimo promotor de justiça, usa todo seu poder de convencimento, todo seu carisma e criatividade perante ‘seu público’ para acusar – sim, o termo é acusar – o samba de racista. E o faz im-pi-e-do-as-men-te, está lá, é só vocês aí desse lado ‘clicarem’ para ver se estou exagerando. O pouco que sei sobre Noel ouvi de meu pai, seu contemporâneo em Vila Isabel, e dos livros que li; como o instigante ‘O Feitiço Decente’ de Carlos Sandroni; ‘Noel Rosa - De Costas para o Mar’ de Jorge Caldeira; ‘No tempo de Noel Rosa’ de Almirante; e Noel Rosa-Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier. Curioso registrar dois aspectos: não lembro de ter lido nada nesses autores apontando traços racistas no ‘Feitiço’, e olha que só tem ‘fera’ entre os aqui citados. Não estou afirmando que não tenha, estou dizendo que não lembro de ter lido nada nesse sentido. Também importante registrar que o livro ‘Noel-Uma Biografia, é o mais minucioso, detalhista e pormenorizado livro que li sobre o universo da nossa música. É, portanto, minha referência maior sobre Noel Rosa e sobre tudo da Vila Isabel daqueles anos. O curioso da história é que, quinze anos antes, em 1990, já os autores se antecipavam aos futuros críticos de Noel. E assim o fizeram com referência não ao ‘Feitiço’ mas a um outro samba, ‘Rapaz Folgado’, quando, aí sim, nosso poeta respondia ao samba ‘Lenço no Pescoço’ de Wilson Batista’ utilizando – ele, Noel –, para tanto, versos aparentemente moralistas e preconceituosos, como veremos na próxima semana.
“Interpretações futuras – e simplistas – nos darão conta de um Noel repentinamente preocupado em mudar a imagem do sambista, tornar bem comportados os temas da música popular, desempenhar papel moralizador. Nada mais apressado.” Na mosca ! Mas Caetano Jogou pesado... muito pesado... Declara, ora falando... ora cantando, com ruidosa aprovação da platéia, parecendo convencer a todos de “uma verdade nova”. Uma ‘verdade nova’ que nenhum dos autores que estudaram a obra de Noel, inclusive os que foram seus amigos, como Almirante, jamais viram. Ao que eu saiba, e é impossível ter esta certeza, só para mudar o lado da moeda, nunca soube que nenhum ‘scholar’ tenha descoberto algo parecido em suas caudalosas dissertações ou teses.
Se alguém dissesse tais coisas de Caetano Veloso, minha reação seria tão dolorida quanto esta de agora. E depois, após sapecar tal classificação, afirma que esta condição não faz dela uma canção menor. Como não? Pergunto eu. Porque então toda aquela cena? Apenas em troca de um momento de reafirmação diante de seu público? Nenhuma canção ‘basicamente racista’ pode deixar de ser classificada como canção menor, mesmo com tantas qualidades poéticas e melódicas como ‘Feitiço’. (na verdade penso que naquele momento a preocupação era minimizar o possível estrago que Caetano supunha estar causando à obra de Noel). Dói p’ra caramba, pode crer... Bateu forte... tripudiou... sacaneou... ironizou... fez sua platéia rir muito. Rir da canção de Noel, pra não fizer que rissem de Noel. Que público era aquele, gente? Convidou a todos para examinar (ou era uma seção de sofisma em grupo), ouvir e pensar a música com todas as frases que continha, sem saber, ou omitindo, que os versos citados em seu ‘gran finale’ não fazem parte da gravação original na época em que, tal como equivocadamente supõe, a canção estivesse rebatendo Wilson Batista em Lenço no Pescoço. E, naquele momento, naquele ‘gran finale’, dá prosseguimento a um festival de sofismas poucas vezes visto. Nunca imaginei na vida que um dia pudesse citar Caetano Veloso, u’a mente iluminada, como exemplo da arte de sofismar, ainda mais tendo Noel Rosa como alvo. E tem mais, dá uma ‘clicadinha’ lá para ver: atiçou pra valer, jogou combustível e deu o fósforo ao evidenciar que Wilson era ‘mais para preto do que para branco’ contrapondo-o, para os efeitos de sua tese, a um Noel que era ‘mais para branco do que para preto’; tive que rever duas vezes para acreditar. E ainda faz uma referência oca, imprecisa, que soa vaga e incompleta quanto às palavras “café” e “leite” do samba. Parece propor ao público identificar com ele uma conotação racial de todo desfocada dos acontecimentos políticos de então. Noel, longe disto, apontava para a recém finada república velha e sua política de alternância de poder, tempos findos do coronelismo da pecuária (do leite) e do baronato do café. Aqui Caetano foi tão vago que nem o termo ‘sofisma’ pode ser usado. Em versos espirituosíssimos Noel inclui a produção de sambas de Vila Isabel nessa pauta produtora, ainda que de produção caseira, de fundo de quintal; de esquina e de mesas de bar: dos bares de Vila Isabel:
Quem há de querer mais ”vilisabelice” do que isso? Ë mesmo de se tirar o chapéu para o cara... Pra que cara? Para os dois: Para Noel pela singularidade... para Caetano por conseguir enxergar racismo nisto. Mas Caetano, ante a reação positiva da platéia, prosseguia demonstrando metódica e musicalmente sua mais nova tese, sua mais nova polêmica. Passa a contrapor, a antagonizar o feitiço decente da Vila, sem farofa e sem vintém, ao feitiço “de preto” e “de macumba”.
Ao fazer tais afirmações, ao construir tal tese, com tanta convicção, ao fazer tais associações sem manifestar qualquer resquício de dúvida, Caetano Veloso deixa aos desavisados uma inquietante impressão: a de que se há algum racista nesta história, este racista não é Noel. . Vamos lá.... Primeiro é preciso constatar que Caetano sustenta sua tese na suposição de que Feitiço da Vila foi inspirada, composta e gravada para responder a “Lenço no Pescoço”, samba de 1933 de Wilson Batista, no contexto daquela tão famosa polêmica. Trata-se aqui de um equívoco musical, uma desinformação que vem sendo perpetuada e que induz muita gente boa a erro, tal como sucedeu a Caetano Veloso... infelismente. Na verdade foi Wilson quem trouxe o “Feitiço” para o contexto da polêmica tempos depois, quando já ninguém falava nela. Só isto, esta constatação, já seria bastante para enfraquecer toda a tese restante, para derrubar sofismas. A letra de ‘Feitiço’ completa (repito: completa) tal como foi concebida e gravada pela primeira vez em 1934 por João Petra de Barros, está disponibilizada lá em baixo.
Resumo do primeiro tempo naquilo que importa resumir: A razão de tudo, a gênese, é a tal polêmica. Vamos a ela para poder contextualizar o equívoco de Caetano Veloso. Em 1933 Wilson dá a partida ao compor ‘Lenço no Pescoço’ que era uma apologia da malandragem, tema central e preponderante na música da cidade; Ainda em 1933 Noel rebate com ‘Rapaz Folgado’ contestando o ‘discurso’ da malandragem (assunto da próxima semana); Em 1934 Wilson responde a Noel com ‘Mocinho da Vila’ sem obter qualquer repercussão, esfriando a polêmica; (Noel já então havia composto o ‘Feitiço’ com Vadico sem que o samba, como veremos, tivesse absolutamente nada a ver com a polêmica) Em 1935, participando de um programa de rádio Noel compõe duas outras estrofes adaptando-as à melodia do ’Feitiço’; Em 1935 Wilson aproveita os versos novos de Noel e não perde tempo: traz a polêmica de volta. Compõe o samba ‘Conversa Fiada’ provocando Noel; Ainda em 1935, Noel responde a Wilson com uma de suas obras-prima: Palpite Infeliz; Em 1936 Wilson pega por baixo: “dá na canela”; chuta o balde e o pau da barraca. Contra ataca com ‘Frankenstein da Vila’ dizendo que entre os feios Noel era o primeiro da fila, batizando-o de ‘fantasma da Vila’. Noel não respondeu. E ficou essa maravilha: Na Gamboa,
E que vários compositores nela se inspiraram, inclusive Benedito Lacerda com a valsa ‘Lela’; que dali mesmo da Vila, do gênio de Braguinha, a Primavera ganhava sua mais famosa saudação na voz de Carmen Miranda: O Rio amanheceu cantando Assim era Vila Isabel naqueles anos... Para ela, para sua rainha, para a rainha da Vila e da primavera, que Noel compusera o “Feitiço”. O tal duelo com Wilson estava esquecido, já ninguém falava mais dele. SaÍra de cena depois que seu samba “Mocinho da Vila”, em resposta a Noel, teve repercussão zero. A poesia do ‘Feitiço’ é uma belíssima apologia do bairro mais invejado e festejado daquela cidade que experimentava os primeiros anos de um novo ciclo trazido pela era Vargas. Um bairro que produzia “pequenas” insuperavelmente belas como Lela Casatle, produzia sambas tão especiais que fazia dançar, além de seus moradores, os galhos dos arvoredos do Boulevard.
Vila Isabel... era assim... Um bairro que, com seu feitiço e tendo nome de princesa, transformou o samba, tão objeto de preconceitos, em um feitiço decente, acolhido, dançado e cantado, prendendo a todos os moradores da Vila. Trazia o samba do morro para a cidade, ‘cidadanizando-o’. Tal como a princesa Isabel fizera com os negros transformando-os em cidadãos (pelo menos essa era a esperança de então, lá em Vila Isabel e em todo o Brasil). Mas há ainda uma outra questão que levou Caetano a considerar “Feitiço” canção racista. Toda aquela festa da Primavera ocorrera em 1934.
Sustentava-se participando na Rádio Sociedade do Programa Casé. Noel apresentava ali ora músicas novas (poucas) e músicas antigas improvisadas e/ou alteradas. Conta-se que só mesmo o título mudava; as músicas eram as mesmas já antes compostas; usava sua criatividade instantânea para adaptar a elas novos versos. Assim fez com “Feitiço”. Compôs ali na hora duas estrofes, a melodia era a mesma de Vadico para a canção original. Ficou assim (os grifos são meus): Quem nasce pra sambar A zona mais tranqüila .
Só seria o grande Wilson Batista na década seguinte. Até então vivia na “aba” de seu ídolo Noel Rosa. E foi assim, ao ouvir os novos versos de Noel, que Wilson malandramente tratou de reacender a polêmica. Compôs o samba “Conversa Fiada”, respondendo a “Feitiço da Vila” juntando todos os versos, gravados ou não gravados, dando especial ênfase à expressão 'cadeado no portão'. E foi assim também que no show Caetano inseriu o samba na polêmica. A diferença está em que Wilson usou o “Feitiço” para produzir uma resposta que reabrisse a tal polêmica que, de resto, era vital para a alavancagem de sua carreira. Com Caetano foi diferente. Caetano usou o “Feitiço” para sofismar, incluí-la Mas e o tal ‘gran finale’; o que foi o ‘gran finale’? Quando Caetano parecia estar terminando de cantar, alguém da platéia mencionou a palavra ‘cadeado’ (contida no verso: lá não há cadeado no portão...) de uma das estrofes, aqueles posteriormente compostos de improviso no Programa Casé. Ali Caetano parou e brincou... ironizou... tripudiou...levou seu público às gargalhadas. (como vemos, tantas décadas depois, a esperteza de Wilson só agora tivera êxito) Na verdade seu ‘gran finale’ foi armar aquele clima e dar sua estocada final. Mira em José Ramos Tinhorão por sua implicância com Tom Jobim. Critica Tinhorão por acusar Tom e os músicos da bossa nova “(...) de se apropriarem indevidamente do samba dos negros da favela”. Por tabela, criticou Tinhorão por não criticar igualmente a Noel. Deixa claro para quem quiser ouvir que “(...) Noel não só fez isso (se apropriar do samba dos negros da favela) como pioneiramente e ar-ro-gan-te-men-te disse todas essas coisas nessa grande canção”. Mas ainda não é o ‘gran finale’. Para demonstrar isto Caetano Veloso, o grande Caetano Veloso, “comete”, contra Noel Rosa (o grande Noel Rosa), aí sim, seu ‘gran finale’. Contra Noel, contra a obra de Noel, contra a música brasileira e contra a cultura brasileira. E contra si próprio. Vai buscar naqueles versos do ‘Feitiço’ (aqueles do Programa Casé), aqueles transcritos lá atrás, e dá a eles uma nova arrumação. Usa apenas os três primeiros versos iniciais da primeira estrofe (omitindo os dois últimos); usa apenas os três versos finais da segunda estrofe (omitindo os dois primeiros). Portanto, o que antes era assim: Com os versos re-arrumados, acabou ficando assim... Naqueles versos, dentro do espírito do Programa Casé, Noel fazia referência ao tempo de seu nascimento em Vila Isabel. Os versos são claramente reflexivos. Noel se diz nascido pra sambar, e por isso chorava para mamar ao ritmo de samba. A maior prova de que não está se referindo ao Wilson Batista ou a ninguém, senão a si próprio, está no terceiro verso da primeira estrofe. Ele diz “-- Eu já saí de casa olhando a lua, e até hoje estou na rua”. Certo? A questão é que os versos explicitamente ‘inclusivos’ foram excluídos da tese de Caetano Veloso, de seu ‘gran finale’. (lá na frente vou dar uma especulada sobre o que teria induzido Caetano Veloso a erro. Repito: especulada, certo?) E mais... Volto agora a João Máximo e Carlos Didier, mais-que-dedicados biógrafos de Noel. Naqueles tempos da infância “(...) Vila Isabel gozava a má fama de atrair ladrões, seus moradores sempre sobressaltados com os assaltos que ocorriam até nos bondes. Mas esse tempo, garante Noel nos novos versos de Feitiço da Vila, já passou, todo o bairro podendo se orgulhar de dormir sem cadeado no portão”.
Um samba incomparável, obra prima e orgulho do povo carioca, do povo brasileiro, composto para saudar uma rainha da primavera sendo utilizado indevidamente em uma polêmica para justificar uma tese racial. Não poderia dar certo. Um dos maiores artistas brasileiros, de talento formidável, signo de sua geração, descuidar-se de si próprio, investindo ‘apressadamente’ contra um símbolo de si e de seu povo... não poderia dar certo mesmo... A polêmica de Noel Rosa e Wilson Batista teve um saldo pra lá de positivo, transformou-se em lenda da cultura brasileira. Trouxe uma obra prima para nossa música: Palpite Infeliz. Amadureceu o talento precioso de Wilson Batista garantindo a ele o lugar de destaque que bem merece. Há, no entanto, muita confusão sobre ela. E alguma desinformação... Na minha modestíssima opinião, ou melhor, modestíssima especulação, uma das razões destes equívocos – ou a razão – está no show ‘O Samba Pede Passagem’, realizado em fins de 1965 no Teatro Opinião, com Direção de João das Neves. Ali, eu presumo, para ‘apimentar’ a polêmica, para criar ‘um clima’, foi inserido lá no final (fora da ordem original e fora da ordem de Caetano) o samba Feitiço da Vila já com os versos de uma das estrofes do Programa Casé.
Provavelmente, e especulo novamente, muita gente ficou com aqueles versos e com aquela seqüência na cabeça, e isto foi passando...passando...passando Assim sendo, ou mesmo não sendo bem assim, qualquer um de nós pode se equivocar, trocar u’a música, inverter uma data ou o sentido de uma provocação. Provavelmente neste texto terei escrito imprecisões. Minha restrição se volta contra a atitude de Caetano Veloso. Certamente se fosse outro artista não me tocaria tanto. Sua atitude, sua empáfia, repito; o prazer que demonstrou por estar ‘torpedeando’ Noel Rosa; formando opinião, como sabemos que forma; a maneira como conduziu seu público a um desrespeito absoluto a um de nossos 'pais fundadores'. O que se viu naquele vídeo, para usar uma expressão da garotada, foi uma ‘zoação’; ou uma expressão dos nossos dias, um ‘esculacho’ Para ficar no tempo de Noel...palpite infeliz...
Sugestão para ver agora: Caetano Veloso cantando (?) Feitiço da Vila; Sugestão para ouvir agora: Áudio da parte relativa à polêmica no show ‘Samba Pede Passagem’: A versão do show é aqui apresentada apenas para demonstração do ‘espírito’ de cada samba, o espírito da polêmica,só isto. A verdadeira seqüência da polêmica é: * Lenço no Pescoço; Lenço no Pescoço Sei que eles falam Com chapéu de lado deste rata... Malandro é palavra derrotista... Feitiço da Vila Lá em Vila Isabel A Vila tem um feitiço sem farofa O sol da Vila é triste Eu sei por onde passo FOTOGRAFIAS etc. Caricatura de Noel, por ele mesmo; 1) Noel Rosa – Uma Biografia de João Máximo e Carlos Didier. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1990. * Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval
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