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Memória da FoliaSeu Molequinho, 88 anos, Parabéns! Desde que comecei a escrever sobre os antigos carnavais não faço outra coisa a não ser ficar imaginando; tentar imaginar como tudo se passava, tudo a partir de informações disponíveis, das conversas com os ‘da antiga’ e muitas vezes de minhas próprias andanças por aí.
Fiquei imaginando ele, viga mestra do Império Serrano, seu primeiro sócio, único fundador vivo, como reagiria ao carnaval moderno. Ele que viu, que viveu tantos, todos os do Império, sua glória, suas dificuldades. Viu o carnaval sair do nada, ainda no Prazer da Serrinha, viu tudo se transformar por ali, seu ‘Império’ nascer já forte, desbancar a poderosa Portela, se tornar potência do carnaval e amargar quedas tão doloridas. Uma escola cheia de cicatrizes .... Seu Molequinho conhece como ninguém a seiva verde e branco. Suas tradições, sua ancestralidade. Das histórias do café, ou lá de trás da Bahia, do vale do Rio Paraíba... Aí fico pensando ...imaginando uma noite dessas de carnaval; seu Molequinho entra na sala de sua casa e olha para a televisão. Aquilo lá tão cheio de cores, tanta gente bonita, tanta fantasia, tantos carros... Fico imaginando o que se passa por sua memória, em quê fica pensando vendo aquilo tudo, o maior espetáculo da terra. E aquele carnaval tão despojado, tão simples, tão tantas vezes rejeitado, enxotado? E ele ali, agora, perdido naquele espetáculo tão inimaginável em sua juventude. Como pôde ter crescido tanto, ter se transformado em festa tão grandiosa. Orgulho de tanta gente brasileira.
Tudo terá valido a pena. A marca de seu povo, de sua gente, estaria eternizada nessa história. Uma história tão bonita. 88 anos... uma vida tão bonita ... E aí fico pensando, como seu Molequinho avaliaria tanta evolução, tanto crescimento: As Escolas de Samba S.A., como cantou sua escola vitoriosamente em 1982. A tradição e a modernidade, velho embate das civilizações; da trajetória do homem em busca de seus caminhos: luz. Que bom que o Senhor encontrou o seu: uma vida cheia de luz. Da mesma forma, se o futuro, a ciência, a luz, não forem a direção da humanidade, será a treva. Tudo se passou tão perto, tão rápido.... Os anos vermelhos do Salgueiro: a Academia transformando a Academia. Novas caras, novos materiais, novas cores. Novos temas. Viu os sambas mais formidáveis de seus ‘compadres’ Silas e Décio’ virar poeira sob a influência de novas necessidades estéticas, rítmicas. Um carnaval que incorporava novos elementos, novos atores, novas culturas, sobretudo a partir da reviravolta do Salgueiro. Terá sido semelhante àquela que sua escola dera em 1948, ao estrear na Presidente Vargas? Não, nada se compara à tempestade criativa e transformadora que daria ao desfile uma progressiva, irreversível e, literalmente, espetacular dimensão, passando a gravitar em torno da figura hegemônica do carnavalesco. Foi ali, em seu terreiro, que viu a aparição de um jovem que personificaria o carnaval do futuro, o carnaval transformador; uma aparição que não deixaria mais lugar para o orgulho maior da escola, seu compositor mais festejado.
Novos sambas, novos compositores vieram junto com uma geração transformadora de jovens carnavalescos como o que chegara ao seu Império: Fernando Pinto; No Salgueiro, antes, já haviam chegado Marie Louise Nery, Pamplona, Arlindo Rodrigues. E mais uma garotada atrevida integrada por João Trinta, Rosa Magalhães, Maria Augusta, Renato Lage, Max Lopes. Uma tempestade de espumas, espelhos, arames, isopores e feltros. Tudo começou a subir. O desfile que era visto de plano, passou a ficar abaixo de arquibancada, sob câmeras de Tv., sob os olhos do Brasil, se espalhando pelo mundo. Carros enormes. Coloridos, nudez, mulheres ...caramba, seu Molequinho... A visual virava quesito, foi Candeia o primeiro a apontar... E as artistas de Tv, como Seu Molequinho veria aquilo? Uma festa tão estigmatizada nos tempos finais dos anos 1920, começo dos 30, passando a ser usada como ‘vitrine’
E seu Molequinho, ali, diante da Tv. Como seria aquilo tudo em sua mente? Veria um tipo de componente muito diferente de seu tempo. Onde foi parar aquela gente toda que desfilava? Estará agora nos viadutos, no setor zero? E quem está assistindo? Verá que também ali o público mudou. Os lugares são limitados, seu Molequinho. E as escolas precisam cada vez mais de dinheiro. Quanto mais bonito, quanto mais grandioso, mais se afastam de suas tradições. Aquela gente, seu Molequinho, ficou de fora. A lógica do carnaval, o modelo do super espetáculo é incompatível com um carnaval acessível ao povo que fez dele tão grande festa. Não cabe todo mundo na festa. A questão crucial é saber quem é que pode entrar e quem vai ficar de fora. Difícil p’ra caramba, seu Molequinho. È muito difícil reverter isto. Nem que a direção do carnaval queira. O carnaval, de tão bonito, tão grandioso, tão rico, pode transformar-se no monstro devorador de si mesmo. Pior ... de suas tradições. Eu queria pedir ao Senhor, seu Molequinho, que não ficasse bravo com Joãozinho Trinta, não. Quando ele falou que ‘diziam que antes dele o carnaval era um samba do crioulo doido’, ele não estava desrespeitando, jogando no lixo toda esta história tão bonita de que o senhor fez e faz parte. Não estava desclassificando todo o período heróico da formação, da criação e da fixação das escolas. Tempos de Paulo, de Elói, Cartola, Calça Larga. Sem falar nos tempos de Bide, Marçal, Ismael, Heitor, Carlos Cachaça, Sinval Silva, de Antenor Gargalhada, Paulo Brazão. Ou será que estava? Tempos em que pela passarela passava um Cisne. O Tijolo, Maria Lata d’água, Narcisa, Delegado, Dodô, Natal, seu pessoal do Império. Carnavais de ‘Heróis da Liberdade’, de 1969, em plena ditadura, de Aquarela do Brasil, de Cinco Bailes, só para ficar aí mesmo pela sua Serrinha. Se pelo menos o samba fosse mais cadenciado, é tão mais gostoso para sambar, para cantar, para desfilar, enfim. Êh, Manoa, minha jangada vai cruzar o riomar ... Eu não esqueço, seu Molequinho, eu era estudante. Quando ouvi pela primeira vez ‘Os Heróis da Liberdade’. O enredo dizia das lutas da nossa gente, o samba falava de uma brisa que afagava a juventude e era como uma chama que o ódio jamais apagaria: a evolução. Evolução, seu Molequinho, verdade, ciência, luz, trabalho...alegria. Porque será que estão assim, tão parecidos, tão previsíveis? Será que são os jurados? Os dirigentes? Os carnavalescos? Ou eles mesmos, os compositores? Quem os quererá – os sambas - assim? Será que são as sinopses? Os enredos? Ou os enredos e as sinopses? Esses enredos mais complicados acabam por estabelecer uma relação pobre, restrita aos jurados e à imprensa, recebedores de todas as informações. Quem assiste não tem acesso ao que se pretende contar e fica limitado a observar as luzes e cores do desfile, empobrecendo, tirando a emoção do espetáculo. Será que a ‘orientação’ no sentido de que o samba contenha todas as fases do enredo é razoável ? O enredo deve ser o ‘libreto’ ou a trilha sonora? Tal orientação é voltada para a ‘performance’, para o ‘conjunto’ da escola ou é para satisfazer alguma novo padrão estabelecido pelo julgamento ou pela Liesa? Afinal, alguém saberá dizer por que os sambas estão assim? Ou será este o verdadeiro ‘mistério do samba’? Aí eu pergunto ao Senhor, seu Molequinho ... Será que os sambas estão assim e ninguém sabe o porquê de estarem assim? Será que estão assim porque ‘acabaram’ ficando assim e que não há nenhuma necessidade de serem, de estarem assim? Será, puxa vida, será que se alguma escola apresentar um samba cadenciado, bom-de-cantar-e-bom-de-dançar vai ficar tudo bem? E ninguém vai reclamar? E ninguém vai perder ponto? Ou será que as escolas não apresentam tais sambas porque nenhum dos que foram inscritos é, foi ou tem sido bom-de-cantar-e-bom-de-dançar? Já pensou, seu Molequinho, se o problema for este? Fico até imaginando a seguinte convocação: Atenção sambistas: inscrevam- se no I Festival de Sambas de Contenção. O prêmio será o Troféu Dunga de Ouro. Ta entendendo, seu Molequinho, dá para o Senhor me explicar o que está acontecendo? Será que alguém avisou que tinham que ser assim? Será que tornam mesmo o desfile mais rápido, que facilitam o cumprimento do prazo? Será que é isto? Será que apressam mesmo? Será mesmo que um samba-bom-de-cantar-bom-de-dançar atrasa o desfile? Será que é saudosismo, seu Molequinho? Mas será que podemos chamar a Martinália de saudosista? Ela que é tão festejada como a porta voz feminina da modernidade do samba. No disco dela de sambas-enredo, o samba mais novo é de 1976. Seu Molequinho, vou dizer uma coisa horrível p’ro Senhor: Tem uns sambas aí, seu Molequinho, que são absolutamente diferentes dos sambas da mesma escola do ano passado: mas conseguem , ao mesmo tempo, ser absolutamente iguais. Parece que todo mundo fica se queixando que os sambas atuais morrem na quarta-feira. Que nenhum fica. Que os passistas não podem ‘dizer no pé’, os componentes não conseguem ter prazer de dançar, nem as pastoras o prazer de cantar.
Em defesa dos compositores, quero dizer que tenho a maior fé que fariam sambas belíssimos se lhes colocassem nas mãos uma sinopse de Kizomba, Chico Rei, A lenda das Iabás, Domingo, ou o Rio de Janeiro que o Salgueiro cantou tão bonito ano passado. Parecia um grito, seu Molequinho; a cidade, a nossa cidade, este centro daqui, histórico, da Lapa, da Cinelândia; a cidade de nossos pais , nossos avós, tão abandonada, tão esquecida, tão negligenciada, imunda ....desrespeitada. E o Salgueiro passou gritando, como se estivesse querendo dizer ao Prefeito: “ esta aqui é que é nossa cidade, o cara!”. Carnaval é isto, também. Com fantasia, com graça, com humor; teimosia, surpresa, deboche. Se o samba tem que ser pequeno, porque não se ‘Heróis da Liberdade foi assim? Sem tem que ser grande, porque não se Monteiro Lobato era tão bom de cantar e dançar? Na verdade seu Molequinho,vou confessar uma coisa para o Senhor, tenho que contar isso p’ro Senhor. Na verdade eu falo isto tudo porque morro de medo, sabe? Eu sempre adorei futebol. Nada me fazia perder um jogo do Fluminense. Eu sou do tempo do Samarone, sabe? Jogo da seleção, então ...nada me afastava da TV.
Carnaval é isto, também; reverência aos antigos, louvar-lhes, cantar e contar suas histórias. Como a sua, seu Molequinho. Diziam até seu Molequinho, não acredito, não..., que tinha lá uma bola , bem velhinha, que era do tempo do Didi e do Nilton Santos. No centro do campo, seu Neca distribuía a garotada formando vários grupos de onze, por por posição em campo, uma a uma: quem é goleiro, aí? Quem é beque central fica lá.? Quem é atacante fica ali... Quando seu Neca perguntava quem era ponta-direita aparecia um monte; meia –armador, então, uma galera...; meia-ponta de lança. ponta esquerda... gente p’ra caramba. Um melhor que o outro. E foi assim, dali, que saiu um dos maiores ataques da história do futebol: Rogério, Roberto, Jairzinho e Paulo César Caju. O meia armador era um tal de Gerson, mas não veio da escolhinha do Botafogo, veio da do Flamengo, vocês já devem ter ouvido falar dele. Hoje, seu Molequinho, ainda bem que seu Neca já morreu. Ele ia ficar muito triste em saber que a maioria da garotada estaria se apresentando para fazer teste como ‘volante de contenção”. Aí, seu Molequinho, fico pensando que nosso futebol acabou. Sabe por que, seu Molequinho? Porque eu não consigo assistir mais a jogo nenhum do Fluminense.
Aqui entre nós, seu Molequinho, a última vez que eu vi, mas vi mesmo um jogo da seleção, que me orgulhei dela foi naquela seleção de 1982, que perdeu para o Paolo Rossi no Estádio Sarriá, lembra ? Eu fiquei muito triste mesmo, abraçado com meu filhinho pequeno, deitado numa rede ouvindo os comentaristas. Mesmo assim, senti um imenso orgulho quando soube que um jornal esportivo da Espanha estampou em sua manchete de primeira página, referindo-se à derrota de Zico, Sócrates, Falcão, Telê: “VAMOS TODOS PARA CASA: A COPA DO MUNDO TERMINOU”. Eu não posso deixar de imaginar como o senhor deve ter torcido e sofrido naqueles dias. A algazarra que devem ter armado lá na Serrinha. Pois é, seu Molequinho. P’ra falar a verdade, na boa... mas na boa mesmo...na moral... é disto que tenho medo: do carnaval ficar igual ao futebol. De este carnaval ‘maior espetáculo da terra’, lindíssimo, estar cobrando um preço alto demais para todos nós que nos orgulhamos tanto do nosso país, da nossa gente, das nossas coisas... nos orgulhamos tanto da nossa história. Será que este carnaval fantástico estaria transformando nossa jovem geração de compositores em ‘volantes-de-contenção’? Será que estes não são ‘os sambas que sabem fazer’, mas ‘os sambas que conseguem fazer’ ? Não, seu Molequinho, não estou querendo os lençóis de Silas Mano Décio, não! Nem estou querendo os sambas incomparáveis do Didi da Ilha. Juro p’ro senhor, Seu Molequinho, quero sambas que falem da gente, de nossas coisas, que caprichem a síncopa, que dêem prazer de cantar, prazer de dançar. Será que isto não vai acontecer mais? Quero a possibilidade de os passistas voltarem a ser componentes respeitados nas escolas e admirados fora dela. Grande atração dos desfiles. Que os mestres-sala dancem tal como os malandros protegendo suas damas e suas bandeiras. Que não se percam em ‘peripécias estapafúrdias’, como advertia Heitor dos Prazeres lá longe nos anos 1960. Será que as ‘rainhas dos nossos carnavais’, nossas radiantes porta-bandeiras têm mesmo que abandonar os ensinamentos e influências de Vilma, de Neide, de Mocinha, para seguir ensinamentos estranhos à nossa cultura, aprender a dança que se dança no Municipal, em Berlin, em Paris...
Danças que a elas são ensinadas, certamente belas como a nossa, que agradarão ao grande espetáculo tanto quanto a nossa. Nossas porta-bandeiras não sabiam dançar Quem foi que inventou isto? Quem foi que disse um dia que tinha que ser assim dali para frente? Será que foi uma inocente nota dez que apontou o caminho. E quem deu essa nota dez? Tá entendendo, seu Molequinho, porque eu fico tão aflito? Quem foi que deu aquela nota dez, será que ele sabia o que estava fazendo? Ou foi a direção da escola, foi o carnavalesco, foi a ‘professora’, foi o diretor de carnaval? Ou será que isto caiu do céu? De uma hora para outra uma boa parte das nossas meninas passava a aprender balé clássico? Com bailarinas profissionais? Será, seu Molequinho, que isto é atraso, é saudosismo? Veja a Lucinha Nobre, seu Molequinho, aquela menina é para nós um bom exemplo entre as outras porque foi bailarina a vida inteira, desde pequena.. E nunca deu bola para esta história de mudar a forma de dançar. E olha que é uma colecionadora de notas máximas. Ainda bem que muitas delas, na hora ‘H’, não dão a menor pelota... Será que as baterias têm mesmo que perder suas identidades, mesmo contando, como nestes carnavais, com uma nunca vista geração de ‘diretores’, de mestres?
Eu vou morrer dizendo isto; o carnaval para mim é o encontro marcado do povo brasileiro com sua própria história. Às vezes, num rasgo de maluquice, em surto de delirante, fico pensando que foi Darcy Ribeiro quem disse isto, como se o estivesse ouvindo dizer isto. Será que foi? Se não foi, bem sei que ele assinaria embaixo. Tenho medo, seu Molequinho, é de isto tudo estar acontecendo por que é a lógica do espetáculo; de a comercialização exacerbada estar presidindo este embate inevitável entre a tradição e a modernidade. É um embate secular, inevitável e positivo, desde que não esteja sendo presidido pela lógica da comercialização exacerbada. Esta é, para os que assim preferirem, a dialética do carnaval. A dialética em seu estado mais anárquico, mais lúdico, mais inesperado, mais alegre, criativo e popular; sobretudo, mais que tudo popular, seu Molequinho. Popular em respeito a uma vida tão bonita como a sua, em defesa do Jongo, do samba , do carnaval, das nossas tradições; tradições que não caíram do céu não, foram construídas ao longo de inumeráveis fevereiros; com chuva, com sol, com a Portela no calcanhar. Com polícia no cangote. Uma história tão bonita que me faz agora imaginá-lo diante da Tv. Realizado. Realizado e sereno ..., Sereno como que a tudo assiste de cima, do alto de inumeráveis carnavais... Sabe, seu Molequinho, no fundo... no fundo...este embate entre a tradição e a modernidade também é muito bonito. Tão bonito quanto o carnaval de 2009 é bonito. Tão bonito quanto o de 1948 ... de 1982, lembra? O que cada um tem que fazer é escolher seu lado. Sem ‘bronca’, sem cara feia, expondo suas idéias, seus pontos de vista. Sem demanda, como diria nosso tão querido e hoje centenário Angenor. De minha parte, seu Molequinho, já escolhi meu lado há muito tempo. E me valho de um velho conceito da física para dizer ao senhor o que penso. Trata-se, resumindo, de uma força (X) – e bota força nisso – que puxa nosso carnaval para modernidade, certo ? Há uma outra força (Y), em sentido contrário, que puxa nosso carnaval para a tradição, certo? Não pense que vou dizer que ‘a virtude está no meio”. Nunca direi isto, acho que isto não é embate, é resignação... O que acho é que ao longo da historia, desde os primeiros desfiles, ou desde a primeira história dos povos, uma força puxa para lá (X) e outra para cá (Y). Dependendo do momento histórico, dependendo da força empregada em cada vetor, deste confronto RESULTARÁ uma força: assim chamada ‘força RESULTANTE””. Pois é nesta RESULTANTE, seu Molequinho, é nesta força que acredito. Será a tradição com modernidade, ou a modernidade com tradição ? Só a história responderá... Mesmo, seu Molequinho, que eu continue a me encantar com nossas meninas, achando-as as coisas mais bonitas do carnaval, mesmo as que aprendam a outra dança... mesmo que, quando chegar o carnaval, o desfile, eu cante, como sempre cantei, quase todos os sambas-enredo. Mesmo, seu Molequinho, que eu queira... que eu fique torcendo para que o seu Império esqueça desta história de primeiro lugar e faça , para sempre, para todos os carnavais que virão, um desfile como o do ano passado. Eu não vou poder esquecer.
Eu queria que fosse sempre assim, seu Molequinho. Que se dane o resultado. O Império Serrano ... a força de sua tradição... Não precisava nem ganhar ...só não pode cair, né ... Feliz aniversário, seu Molequinho. Ah! E muitos anos de vida ... ______________________________________________ O outro presente é um samba de um sambista que se foi este ano. Foram muitas as perdas do samba. Esta foi a maior para mim, pela proximidade; foi o sambista mais original que conheci; Houve uma época, eu o encontrava sempre nas tardes de sábado no bar do Costa, em Vila Isabel. De lá ele saia com sua flauta para defender uns trocados e a gasolina do ‘caidinho’, um Ford Del Rey p’ra lá de usado. E eu saia atrás dele, sem destino, para vê-lo tocar e cantar nas diversas rodas por onde passava a cada sábado. O nome, dele, seu Molequinho, era Cláudio Camunguelo. Era Portelense. Foi quem levou Zeca Pagodinho para a Portela. Este era seu grande orgulho na vida. Morou ali pelas bandas de Vaz Lobo. Freqüentou bem o Campo do Cajueiro onde , segundo ele cantará,, tinha sempre ‘pelada’ todo domingo de manhã. Bem perto de sua casa, né? Por isto é o presente. Ele fala do Senhor e de toda aquela rapaziada ali da Serrinha. Tempo bão., seu Molequinho. Ele esperava o ano todo pela festa da Penha, mesmo tão esvaziada. Éra uma tradição da família dele. Estive lá com ele. Só encontrei a sombra da festa. Uma festa que já foi maior do que o carnaval.Tenho medo, seu Molequinho, que o carnaval se transforme no que era a festa da Penha para o Camunguelo, que se transforme no que é a festa da Penha para mim.
Sugestão para ouvir agora: No campo do Cajueiro Fotos e ilustrações: 1) Os negros bantos do Vale do Rio Paraíba, que trouxeram o batuque e construíram a linguagem musical do samba; As fotos 1,2,3,9,1º,11,16 e 17 foram tiradas do CD-Book Jongo da Serrinha, gravado em março de 2001, no quintal da Tia Maria do Jongo, Serrinha, Madureira. As demais fotos de revistas O Cruzeiro e Manchete. * Luis Carlos Magalhães é pesquisador
de carnaval
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