Rio - Insalubre e subumano: foi assim que o novo secretário municipal de Saúde, Hans Dohmann, classificou as condições de trabalho no Centro de Controle de Vetores, em São Cristóvão, local que deveria ser o ‘quartel-general’ contra a dengue no Rio. Nos almoxarifados onde são guardados materiais usados no combate à doença, as paredes estão repletas de mofo; os telhados, desabando, e o piso, alagado.
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A nova equipe da Secretaria Municipal de Saúde levantou que, em 2007, a verba destinada à Vigilância em Saúde, que inclui o combate à dengue, foi de 0,66% do orçamento da pasta, o que equivale a R$ 13 milhões. Foram investidos R$ 2 milhões a menos do que em 2006, quando a fatia destinada à vigilância foi de 1,07% do orçamento.
Em algumas salas, o cheiro forte dificulta a permanência: inseticidas e material informativo dividem o mesmo espaço. Ontem de manhã, um funcionário tentava tirar com um rodo a água da chuva de um cômodo. A sala ao lado parecia um lixão: grande quantidade de embalagens de inseticidas, sacos plásticos, botas velhas e roupas usadas pelos técnicos estavam jogadas. “Esses produtos não podem ser descartados devido ao risco de contaminação. Têm que ser incinerados pela Feema”, disse Mauro Blanco, coordenador de vetores da secretaria.
RISCO DE VIDA
Dohmann afirmou que os funcionários correm risco de vida. “As pessoas estão dando o seu melhor em condições absolutamente inadequadas, subumanas. São heróis, pessoas que saem todos os dias para trabalhar para defender nossas vidas e no seu próprio local de trabalho enfrentam situações que ameaçam a vida delas. Há condições insalubres. Pelo cheiro a gente percebe excesso de microorganismos”. No setor de Recursos Humanos, mais problemas: alguns funcionários trabalham com computadores particulares.
O secretário, que fez vistoria domingo no Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, onde encontrou a emergência superlotada, disse que a precariedade do Centro de Controle de Vetores foi, até ontem, a “pior surpresa” deixada pelo gestão anterior. “Vou esperar parecer da Defesa Civil, mas possivelmente parte do prédio pode estar colocando em risco as pessoas. A estrutura do prédio me preocupa”.
Oficialmente, o Centro de Controle de Vetores não existe. “Os funcionários são da Comlurb, da Funasa ou da secretaria e dependem de outras estruturas. Isso não faz sentido. Tem que formalizar e ter orçamento como qualquer área”, disse Dohmann.
POSTOS IMPROVISADOS ATÉ EMBAIXO DE ESCADAS
A situação pode ser ainda pior nos postos de abastecimento espalhados pela cidade para onde o material armazenado no Centro de Controle é distribuído. “Muitos são locais improvisados, alguns até embaixo de escadas em colégios ou associações de moradores”, disse um funcionário. “Mandaremos equipes para visitar”, disse Dohmann.
De acordo com o subsecretário de Atenção Primária, Vigilância e Promoção da Saúde, Daniel Soranz, a prefeitura não cumpria as rubricas e deixou de investir verba carimbada do Ministério da Saúde em ações de Vigilância Sanitária. “A verba chegava no Fundo Municipal de Saúde, mas o prefeito não cumpria o carimbo. Mais de 80% eram destinados a hospitais e compra de remédios. Isso é improbidade administrativa”, disse.
Mutirão contra o Aedes em mais dois bairros
Segundo Hans Dohmann, os bairros de São Francisco Xavier e Rocha serão os próximos locais a receber o mutirão contra a dengue, a exemplo do que foi feito em Paquetá no sábado. Os agentes de endemias e bombeiros percorrerão as casas entre os dias 19 e 23.
A secretaria espera visitar cerca de dois mil domicílios no primeiro dia de trabalho. Em Paquerá, mais de 1,9 mil imóveis foram vistoriados. O local foi escolhido para receber o projeto-piloto do mutirão. “Apenas 33 domicílios recusaram a entrada das equipes”, disse Dohmann, lembrando da importância de se permitir o acesso dos agentes nos imóveis.
A secretaria começou a fazer o primeiro Levantamento Rápido de Índice de Infestação do ano. O trabalho é necessário para indicar as localidades com maior número de imóveis com focos do mosquito Aedes aegypti. De acordo com Hans Dohmann, o resultado do levantamento ajudará a nortear o calendário do mutirão contra a dengue.