Rio - No momento em que cientistas e religiosos brasileiros debatem as questões éticas das pesquisas com embriões humanos —tema que será votado nos próximos dias no Supremo Tribunal Federal (STF) —, dois pesquisadores, um americano e outro japonês, podem ter encontrado a solução para o problema. Eles conseguiram produzir células pluripotentes — equivalentes às células-tronco embrionárias — sem recorrer a óvulos ou embriões. Como? Eles simplesmente transformaram células-tronco adultas em embrionárias.
No estudo liderado pelo japonês Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto, foram usadas células da pele do rosto de uma mulher de 36 anos. No outro, coordenado pelo americano James Thomson, da Universidade de Wisconsin, foram usadas células de fetos e do prepúcio de recém-nascidos. Em ambos os casos, os cientistas usaram genes específicos das células embrionárias para ‘reprogramar’ geneticamente as células adultas. Por conta disso, as células-tronco adultas passaram a ‘agir’ como se fossem embrionárias.
Desde domingo, O DIA publica série de reportagens sobre os avanços da ciência nas pesquisas sobre células-tronco. “A partir de agora, estamos em posição de gerar células-tronco específicas para pacientes sem precisar recorrer a embriões. Com elas, poderemos compreender os mecanismos de certas doenças, pesquisar drogas mais eficientes e seguras e, principalmente, tratar pacientes com terapia celular”, disse Shinya Yamanaka.
A descoberta foi recebida com entusiasmo por setores mais conservadores, como a Casa Branca e o Vaticano. No Brasil, o frei Antônio Moser, da Comissão de Bioética da CNBB, crê que o método pode acabar com a polêmica envolvendo o uso de células-tronco embrionárias.
“Os pesquisadores japoneses e americanos conseguiram pôr fim a todas as dúvidas: as células adultas podem ser reprogramadas para exercer as funções indevidamente atribuídas às embrionárias. Por conterem um código único, original e irrepetível, as embrionárias são impróprias para qualquer tipo de terapia. Sua função é ser propulsora de vida. Se implantadas, se comportarão como um corpo estranho”, sublinha o religioso.
O geneticista Salmo Raskin é o primeiro a admitir que líderes religiosos poderão se valer da descoberta para pressionar o STF a vetar a Lei de Biossegurança. “A previsão mais otimista é que devemos esperar, no mínimo, mais cinco anos para obter resultado prático. Uma nova linha de pesquisa não invalida anteriores.”
Para cientista, técnica é fácil e barata
Os que rejeitam o uso de embriões humanos em pesquisas não são os únicos a elogiar a descoberta de Thomson e Yamanaka. A façanha merece aplausos também de ‘colegas’ brasileiros, como a neurocientista Rosália Mendez-Otero, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e o imunologista Júlio César Voltarelli, da Universidade de São Paulo, de Ribeirão Preto.
O cirurgião Jefferson Braga Silva, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, chega a comparar o feito ao ‘ovo de Colombo’. “O método é fácil, simples e barato. Dá até raiva por não ter pensado nisso antes. O curioso é que os dois centros chegaram à conclusão quase ao mesmo tempo. Isso dá mais credibilidade à pesquisa”, afirma ele.
Rosália Mendez-Otero prefere não fazer previsões de quando as células embrionárias poderão começar a fazer ‘milagres científicos’. Mas já antecipa que, pelo menos na teoria, será possível repor células do Sistema Nervoso Central e combater doenças como Parkinson e Alzheimer. “Se isso for realmente verdade, a ciência terá dado um grande passo”, afirma.