Diogo Dantas e Gislandia Governo
Rio - Foi tempo em que falar de meio ambiente era assunto de ambientalistas radicais e cientistas. No Brasil demorou, mas parece que chegou para ficar a discussão sobre a questão ecológica, hoje muito além da concepção de bichinhos e florestas em perigo.
Para que o assunto fique realmente enraizado, a educação é apontada como meio mais eficaz e importante. Segundo Sérgio Besserman, Presidente do Instituto de Planejamento Urbano Pereira Passos, a Prefeitura está desde o ano passado reformulando o ensino fundamental nas escolas, e incorporando meio ambiente e o problema do aquecimento global ao planejamento pedagógico.
"Há um levantamento feito na rede educacional, com trabalhos sobre educação ambiental, seminário sobre impactos do aquecimento em vários setores, como saneamento, infra-estrutura, saúde, e um estudo de onde a elevação do nível dos mares vai trazer mais problemas", detalhou Besserman.
Muitas instituições privadas de educação já incluem, no currículo descolar, a temática ambiental. No Colégio Paulo Freire, em Niterói, ações diárias e projetos específicos, como coleta de óleo vegetal, reciclagem de papel para a produção de material informativo, plantio de árvores e coleta seletiva de lixo são realizadas pelos alunos dentro e fora de sala de aula.
"A idéia é fornecer conceitos importantes para a manutenção da vida. E essa conscientização é fundamental para a formação de cidadãos responsáveis, agentes transformadores, pois a escola é o espaço social e o local onde o aluno dará seqüência ao seu processo de socialização", explica a educadora Cristina Morais, 47 anos, coordenadora geral do colégio.
Mãe de Isabela, 11 anos, e Rosa, 9, alunas da escla Oga Mitá, a musicista Daniela Ferreira acredita que a educação ambiental é fundamental na formação de um adulto consciente. Ela conta que suas filhas reclamam de desperdício de água e ficam indignadas quando vêem gente jogando lixo na rua.
Nos condomínios, também cresce a conscientização. "Há dois anos implementamos a coleta seletiva. No início deu trabalho. Depois se otrnou um hábito que gera benefícios. E até dinheiro revertido para os faxineiros", revela Deborah Novaes, síndica do edifício Les Residences Saint Tropez, na Barra da Tijuca.
No entanto, para o professor Haroldo Matos Lemos, presidente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente no Brasil (PNUMA), falta muito ainda para que o meio ambiente esteja de vez nas práticas cotidianas. "É preciso melhorar o nível de educação, particularmente nos em países em desenvolvimento, para que as pessoas aceitem sacrifícios no curto prazo para o bem das futuras gerações", explica.
Maior visibilidade
A ex-ministra do meio ambiente Marina Silva vai ser lembrada na história como a personalidade que se "sacrificou" pela causa ambiental. Ao pedir demissão do cargo, a ex-seringueira debruçou os olhares do mundo sobre o Brasil, que será cobrado cada vez mais para conter práticas insustentáveis na floresta amazônica, nas cidades e no clima do país e do mundo.
"A ministra Marina, em uma atitude corajosa e responsável, demitiu-se para gerar um fato que trouxesse algo a favor da questão ambiental brasileira. O ministro Minc terá muito trabalho pela frente, e o estaremos apoiando. Mas a tarefa mais difícil não é apenas do ministério, mas as políticas governamentais em geral considerarem o meio ambiente em todas suas ações", lembra Sérgio Besserman.
"A troca de ministros pode ajudar a questão ambiental, não pela saída da Ministra Marina, mas de alguns de seus auxiliares diretos que tinham inviabilizado o diálogo com setores importantes do governo", defende Haroldo Lemos.
Amazônia
A saída de Marina motivou questionamentos em todo o mundo sobre o cuidado que o Brasil terá com a Amazônia. Mas segundo Márcio Austrine, Coordenador de Florestas do Greenpeace, a discussão levantada pela saída da ministra foi pura especulação.
"Quem fala sobre a internacionalização como fez o The New York Times é irresponsável. Tem que concordar com o Lula de que o pedaço da Amazônia no Brasil é de nossa responsabilidade e ponto final", defende.
Para o ambientalista, as altas taxas de desmatamento são uma responsabilidade a mais para as ONGs que atuam na Amazônia.
"O assunto ganha importância e responsabilidade cada vez maior. As opiniões das entidades ambientais são relevantes e você as encontra também fora do governo. As denúncias de ONGs que querem tirar proveito oferecendo suposta ajuda não é um privilégio só da defesa da Amazônia. Têm muita gente séria, mas alguns desinformados. O sueco Johan Eliasch, que teria comprado parte de terras, não parece ser uma pessoa que tenha motivação ruim", acredita Márcio.
Desenvolvimento Sustentável
A atuação de empresas também vem sendo bastante questionada quando o assunto é preservação. Em sessão histórica, o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária(Conar) decidiu suspender em abril dois anúncios da Petrobras por divulgarem a idéia falsa de que a estatal tem contribuído para a qualidade ambiental e o desenvolvimento sustentável do país.
"O termo sustentabilidade é largamente utilizado pelos empresários e políticos, porém, fora do seu significado original, pois não incluem a lógica dos processos naturais, apenas as de "sustentabilidade" dos seus negócios e do mercado financeiro global. Portanto, boa parte da propaganda de "responsabilidade ambiental" é enganosa sim", alerta o advogado Luiz Felipe Muniz.
"Já há sinais evidentes de que vai começar a ter refutação a produtos que desmatem a Amazônia", revela o especialista do Greenpeace Márcio Austrine. Segundo ele, porém, a sensibilidade do indivíduo e das empresas com relação ao desmatamento é muito maior que há anos atrás.
"O que "mata" é o pensamento que a preservação é contrária ao desenvolvimento do país".
Marina Silva disse em sua volta à tribuna nesta quarta-feira que a política ambiental deve ser uma política de País, e não de governo, e por isso volta ao Senado. "Não tem nada aqui de bom aprovado que não foi um trabalho de co-autoria, e com essa proposta da co-autoria eu volto a essa Casa", afirmou.