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25/3/2008 01:17:00

Epidemia de dengue cria uma nova cidade partida

Áreas com maior índice de vítimas são evitadas. Governo chama 660 médicos para atuar na luta contra a doença

Rio - Operação de guerra contra a dengue — inclusive com pedido de apoio às Forças Armadas — foi anunciada ontem pelo poder público, ao mesmo tempo em que cariocas começam a evitar regiões da cidade com medo do Aedes aegypti. Uma das principais áreas de risco é Jacarepaguá, que registrou só este ano 6.306 casos da doença, e que é um dos 33 bairros em que o índice de infestação é maior que 300 por 100 mil habitantes.

A preocupação é tamanha que a direção do tradicional Colégio Santo Agostinho, no Leblon, determinou isolamento do sítio em Jacarepaguá usado pela instituição para passeios. Ontem, a direção enviou circular aos pais avisando que as excursões “ficam canceladas provisoriamente devido ao surto de dengue”. Edileuza Santos Franco, mãe de João Henrique, do 5º ano, afirma que a decisão foi acertada. “Lá tem muito mato, muita trilha. É fácil ter água parada”. As idas ao sítio do colégio serão substituídas por horas de lazer num hotel-fazenda.

A epidemia já provocou a morte de pelo menos 47 pessoas no estado — outros 49 óbitos estão sob investigação. O Ministério da Saúde vai contratar 660 profissionais que já trabalharam nos hospitais federais no Rio e foram substituídos por aprovados no concurso de 2006. Serão convocados médicos, enfermeiros e técnicos. Profissionais que atuam em gabinetes e em funções administrativas também serão convocados. Além das cinco tendas de hidratação do estado, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, quer que militares implantem mais unidades semelhantes.

“Há, hoje, um gigantesco esforço das autoridades. Temos que garantir o atendimento para evitar óbitos. O importante é que essas pessoas não fiquem 6 horas na fila”, disse, após a primeira reunião do gabinete de crise, que reuniu ontem representantes das três esferas de governo e das Forças Armadas.

Temporão afirmou que o número de mortes por dengue no Rio é cinco vezes maior do que o tolerado pela Organização Mundial de Saúde. “O número de óbitos no Rio é completamente fora de qualquer expectativa razoável. A OMS considera como máximo a morte de até 1% dos pacientes com a forma hemorrágica da doença. No Rio, esse índice é de 5%”, disse.

Outra medida para conter o aumento do número de mortes — apenas na cidade do Rio já são 30 óbitos confirmados pela doença — é uma mudança radical na abordagem de pacientes. A partir de hoje, toda pessoa que chegar às unidades com queixa de febre e dores no corpo será considerada um caso suspeito da doença.

“Nesse momento, se há febre e dor no corpo, é dengue. Não se pensa em outra coisa. Nesses casos, os que necessitarem serão encaminhados para as tendas”, disse o secretário estadual de Saúde e Defesa Civil, Sérgio Côrtes. “Eu faço um apelo: apesar da demora de 4 ou 6 horas, peço que a população aguarde. Não vá para casa. Precisamos avaliar para que possamos identificar a dengue e fazer o tratamento o mais rápido possível para que consigamos reverter óbitos”.

Ontem, Temporão pediu que as Forças Armadas disponibilizem homens para auxiliar no trabalho, a exemplo do que os bombeiros já estão fazendo. Temporão acrescentou que 300 agentes estão sendo treinados para usar 50 equipamentos de fumacê individuais. O ministério colocou ainda 15 veículos de fumacê no estado. Cada um tem capacidade para cobrir até 100 quarteirões por dia.

Trauma após morte do filho

Os pais de Rodrigo Yamawaki Roig, 6 anos, morto por dengue hemorrágica, ainda não têm coragem de entrar no quarto do filho, um mês após a tragédia. “Só tiramos os colchões das minhas filhas e colocamos no nosso quarto. O resto continua igual. o videogame está no mesmo lugar”, revelou a mãe, Glória Regina Yamawaki, 35, com um pôster do filho no colo. Ontem foi rezada missa em memória de Rodrigo na Matriz de Nossa Senhora da Cabeça, na Penha, onde morava. O material escolar do menino, que cursava o CA, será doado.

“Minhas filhas estão sofrendo. A menor, de 4 anos, acha que ele vai voltar a qualquer momento. Já a maior, de 10, evita falar do assunto e chora escondida” revela o pai, Marcos Garcia Roig, 34.

A família entrou com notícia crime contra os profissionais que atenderam Rodrigo não conseguiram detectar a doença nas três clínicas particulares pelas quais passou. Esta semana entrará com processo contra o estado e a prefeitura. “Isso não vai trazê-lo de volta, mas vai servir de exemplo para outros pais. É inadmissível que um doença como a dengue, de tratamento fácil, ainda mate crianças”, desabafou o pai.

Reportagens de João Ricardo Gonçalves, Jorge Carrasco, Josie Jeronimo, Marco Antônio Canosa, Maria Luisa Barros, Michel Alecrim e Pâmela Oliveira

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