Rio - Os fumódromos — aqueles espaços reservados para tabagistas em locais públicos e particulares — podem estar com os dias contados. Até o fim do mês, o Congresso deve votar a proposta do governo que pede a retirada de trecho do artigo 2º da Lei 9.294/96, que prevê a existência de áreas destinadas para fumantes em bares, hotéis e restaurantes, entre outros estabelecimentos. A médio e longo prazo, o governo estuda também a possibilidade de aumentar o preço dos maços de cigarro.
“Não é uma medida ou outra que, isoladamente, vai promover o fim do tabagismo no Brasil. Além das campanhas educativas já promovidas, o fim dos fumódromos vai contribuir para a população largar o cigarro. A intenção é proteger a saúde, não só dos que não fumam, mas também dos que trabalham nestes ambientes. Garçons são obrigados a conviver com a fumaça por oito horas seguidas”, afirma Felipe Mendes, técnico da Divisão de Controle do Tabagismo do Instituto Nacional do Câncer (INCA).
Segundo especialistas, os fumódromos não funcionam porque, apesar de supostamente “isolados e com arejamento conveniente”, não evitam a propagação da fumaça. “Na prática, os estabelecimentos penduram uma placa e acreditam que o problema estava resolvido. Mas fumaça não sabe ler. Se é preciso respeitar o direito do fumante, é preciso também respeitar o direito do não-fumante”, frisa Sabrina Presman, coordenadora do Programa Municipal de Combate ao Tabagismo.
O projeto de lei ainda não chegou ao Congresso, mas já acirra a discussão nas ruas. A dona-de-casa Dalca Lacorte de Almeida, 41 anos, é fumante desde os 18. Mesmo assim, concorda com o fim dos fumódromos. “Sempre tive a preocupação de não incomodar os outros com a fumaça do meu cigarro. Mesmo sendo fumante, não gosto de sentir o cheiro dos cigarros alheios”, pondera.
Já o gerente do Bar Belmonte, Ruy de Souza, 57 anos, garante que a lei poderá causar um prejuízo significativo para o comércio. “Cerca de 90% dos meus clientes fumam e eu não posso simplesmente expulsá-los do bar. O problema do tabagismo no Brasil só será resolvido no dia em que o governo fechar as fábricas de cigarro”, acredita ele.
Na Itália, redução de infartos
Um ano depois da implantação da lei que proibiu o fumo em locais fechados, o número de infartos na Itália foi reduzido em 11% na faixa etária dos 35 aos 64 anos. A pesquisa foi realizada por médicos de Roma que compararam os números de 2000 a 2004, antes da lei, com os dados de 2005, quando a Itália pôs em prática uma legislação que proibia o fumo em locais públicos, como lojas, escritórios e restaurantes. Além da redução no número de infartos, caiu também o número de fumantes em cerca de 4% entre os homens e 0,2% entre as mulheres. As vendas de cigarro também diminuíram 5,5% no mesmo período. A lei italiana prevê sanções pesadas contra os fumantes e os donos de estabelecimentos que forem flagrados desrespeitando a norma.
CIGARROS BRASILEIROS ENTRE OS MAIS BARATOS
A Secretaria Municipal de Saúde promove, a partir de amanhã, uma nova etapa do Programa de Controle do Tabagismo. Até o dia 3 de março, serão capacitadas novas turmas do Programa Saúde da Família (PSF). Segundo Sabrina Presman, pesquisas comprovam que indivíduos de baixa renda e com pouco nível de escolaridade têm maior probabilidade de se tornar um fumante ativo.
“Quanto menor o nível de escolaridade, maior será o consumo tabagista. Em alguns casos, os fumantes deixam de comprar itens básicos para alimentar o vício. Uma pessoa que compra um maço por dia chega a gastar quase R$ 70 por mês. O impacto social que o cigarro provoca na família é grande”, afirma.
Por conta disso, Sabrina se mostra favorável ao aumento no preço do maço de cigarros no Brasil. Atualmente, o país ocupa o 6º lugar no ranking de cigarros mais baratos no mundo: “Como o tabagismo é maior entre a população de baixa renda, se você aumentar o preço, a tendência é de reduzir o consumo”.