Rio - Medo do desconhecido? Presente! Saudade dos pais? Presente! Mudança de colégio? Presente! Todas as alternativas acima ajudam a explicar um distúrbio que atinge cerca de 5% dos alunos da educação infantil e 2% do ensino fundamental no mundo inteiro: a fobia escolar. Em tempo de volta às aulas, algumas crianças podem não se adaptar tão rapidamente à rotina escolar e apresentar sintomas típicos, como insônia, choro e ansiedade.
Segundo especialistas, o distúrbio é mais freqüente no primeiro ano letivo da vida da criança. Até se transformar na ‘segunda casa’, a escola representa um mundo desconhecido. Por isso, nos primeiros dias de aula, os sintomas podem ser mais intensos porque a criança se vê às voltas com pessoas estranhas e se sente abandonada pelos pais. Nessa idade, ausência de cinco minutos parece uma eternidade.
SOMATIZANDO
“Mais do que medo da escola, a criança tem medo de se separar dos pais e nunca mais vê-los. E, como não consegue verbalizar o que está sentindo, somatiza: perde o sono, acorda chorando, sente dor de barriga, entre outras coisas. Às vezes, a ansiedade é tanta que a criança chega a sentir febre, náuseas e vômitos”, afirma o psiquiatra infantil Fábio Barbirato.
Na semana passada, quem quase acabou ‘somatizando’ foi o músico Gustavo Henrique Schnaider, 32 anos. Pai de Rafael Garcia Schnaider, 1 ano e 10 meses, ele descreve o ‘aperto no coração’ que sentiu quando a professora pediu aos pais que deixassem os filhos sozinhos por alguns minutos.
“No segundo dia, o Rafael estranhou um pouquinho, ameaçou um choro, mas ficou bem. Acho que, no fundo, estranhei mais que ele. A toda hora, me perguntava: ‘será que fiz a coisa certa?’, ‘será que não estão escondendo nada de mim?’. A adaptação não é só dele. É minha também. Se bobear, é até mais minha do que dele. Parecia até que estava mandando meu filho para o exército!”, diverte-se Gustavo.
Apesar de ser mais comum na pré-escola, alunos do fundamental também não estão livres de sentir uma dorzinha qualquer por causa da volta às aulas. Principalmente se a criança for matriculada num colégio novo. É o caso da Vitória Magalhães Vasconcellos, 9 anos. Aluna do 4º ano do Dínamis, em Botafogo, ela já mudou de colégio quatro vezes. Mesmo assim, garante que tira a experiência de letra.
“Quando minha mãe avisou que eu ia mudar de colégio, arregalei os olhos. A primeira coisa em que pensei foi: ‘Meu Deus, como será esse colégio? Será que vou gostar dele?’. Por mais que meus pais conversassem comigo, fiquei um pouquinho ansiosa. Tentei imaginar como seriam os colegas novos, de que brincadeiras gostavam, essas coisas. Felizmente, estou gostando. Os colegas estão me fazendo sentir em casa”, enfatiza Vitória.
Truques para facilitar a integração na creche
Um travesseiro, um brinquedo ou até mesmo a parte de cima do baby-doll da mãe. Vale qualquer coisa para a criançada não estranhar o maternal nos primeiros dias de adaptação escolar.
Outro truque recorrente é o de inserir a criança gradativamente no ambiente escolar. Segundo a psicóloga Marluce Rossi, essa técnica serve para não esgotar a ‘novidade’ nos primeiros dias.
“É preciso respeitar o tempo das crianças e dos pais também. Há mães que voltam para dar um último beijo nos filhos só para vê-los chorando e sentindo a falta delas”, entrega Marluce.
Superação: dever em família
Superar a fobia escolar é uma lição a ser aprendida não só por alunos, mas também por pais e professores. Na maioria das vezes, os pais não só podem, mas devem encorajar os filhos a enfrentar o medo: seja da mudança de colégio, do professor rigoroso, das provas difíceis ou do colega brigão. Segundo Fábio Barbirato, a superproteção pode ser tão prejudicial à saúde dos filhos quanto a negligência.
“Os pais são culpados a partir do momento em que reforçam o medo dos filhos. Muitos insistem em não cortar o cordão umbilical. Não entendem que os filhos precisam aprender a cair e a se levantar também. Caso contrário, como essas crianças vão saber lidar com as frustrações da vida?”, indaga.
A presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Maria Irene Maluf, ressalva que não são todos os professores que estão aptos a lidar com a fobia escolar dos alunos. Segundo ela, os professores mais jovens e inexperientes, principalmente, podem achar que tudo não passa de implicância e concluir que o problema é pessoal. Ou seja, o aluno não gosta dele e acabou.
“Por incrível que pareça, professores também sofrem de fobia escolar. Nos primeiros dias de aula, muitos simplesmente morrem de medo dos alunos não gostarem deles. Como já dizia o falecido Paulo Freire, não há professor que não entre em uma sala de aula sem sentir uma dorzinha de barriga que seja”, assegura Irene.
EDUCAÇÃO SEM TRAUMA
DE 1 A 3 ANOS
Nos primeiros anos de vida, a causa mais comum de fobia escolar é a ansiedade diante da separação dos pais. Nesta idade, as crianças ainda não têm noção de tempo. Para elas, tanto faz ficar uma hora ou um dia inteiro na escola: a sensação de abandono será a mesma. Como não sabem verbalizar a falta dos pais, limitam-se a chorar.
DE 4 A 7 ANOS
Além do tradicional choro, as crianças podem apresentar outros sintomas típicos, como perda de sono, falta de apetite e dor de barriga. Um distúrbio de aprendizado não-diagnosticado corretamente também pode desestimular o aluno a freqüentar as aulas. Neste caso, ele pode começar a inventar desculpas toda vez que tiver que fazer prova no colégio.
DE 8 A 13 ANOS
Nesta fase, a criança já começa a apresentar temores bastante específicos, como ler em voz alta na frente da turma ou participar de atividades que exijam habilidade esportiva na hora do recreio. Em alguns casos, os alunos também podem desenvolver aversão a um professor que tenha fama de rigoroso ou disciplinador.
A PARTIR DOS 14 ANOS
Na adolescência, a recusa do adolescente em ir ao colégio pode estar relacionada a casos de ‘bullying’ — termo de origem inglesa que designa qualquer tipo de violência, física ou psicológica, praticado por um colega de turma mais velho. O aluno pode estar sendo vítima de apelidos, gozações, discriminação, perseguição, roubos e até mesmo agressões físicas.