Rio - Quem poderia imaginar que Neguinho da Beija-Flor teria mais genes europeus do que africanos? Como prever que a ginasta Daiane dos Santos apresentaria 40,8% de ancestralidade européia? Uma pesquisa que analisou o DNA de nove celebridades negras surpreendeu quem pensava que a cor da pele é um indicador dominante de ancestralidade e mostrou que as aparências enganam.
O código genético do sambista apontou que cerca de 67% dos seus genes são europeus, 31% são africanos e apenas 2% são ameríndios. O resultado o espantou: “Sessenta e sete por cento é estranho, né? Europeu, eu? Um negão desse?”, brincou o puxador. Segundo ele, os resultados apontaram que seus genes europeus vieram da Bélgica e da Dinamarca. “Daqui a pouco vão querer que eu seja o Branquinho da Beija-Flor e de branco eu não tenho nada”, continuou.
O DNA de Daiane dos Santos não nega, a ginasta é o protótipo da brasileira. Com 39,7% de ancestralidade africana, 40,8% européia e 19,6% ameríndia, a atleta apresenta proporções equilibradas entre os três principais grupos que deram origem ao povo brasileiro.
Apesar da surpresa, Daiane considerou o resultado uma amostra do que é a sua família. “A parte da família da minha mãe é muito estranha. Tem primo louro, índio, ruivo, negro. É tudo misturado. É igual ao Brasil, ninguém é puro de nenhum lugar, é uma mistura de raças”, explicou a ginasta. O alto percentual de ancestralidade européia da atleta também deixou sua irmã surpresa. “Européia?” perguntou, com certa desconfiança.
A pesquisa, encomendada pela BBC Brasil, examinou as ancestralidades paterna, materna e genômica de alguns negros famosos. Além do sambista e da ginasta, o jogador rubro-negro Obina, a cantora Sandra de Sá, a atriz Ildi Silva, o líder religioso Frei David Santos e os cantores Milton Nascimento, Djavan e Seu Jorge participaram do estudo.
A análise apontou que o Brasil é a expressão da miscigenação racial. De acordo com o professor de Harvard Henry Louis Gates Jr., o Brasil tem a “cara do futuro”. A miscigenação ao redor do mundo fará com que as pessoas descendentes de um único grupo genético sejam cada vez mais raras.
Os altos índices de genes vindos da Europa foram os dados mais surpreendentes da pesquisa. Mas toda essa miscigenação não é exclusividade das celebridades estudadas. De africano, índio americano e europeu todo brasileiro tem um pouco.
Sexo entre colonizador e escrava
Outra pesquisa, realizada pelo geneticista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais Sérgio Pena explicou o porquê de uma população tão miscigenada. A análise genética de 120 negros brasileiros mostrou que a metade dos indivíduos tem pelo menos um ancestral europeu por parte de pai e que 85% têm conjuntos de seqüências genéticas africanas por parte de mãe.
De acordo com Sérgio Pena, os resultados apontaram uma “assimetria sexual” nos cruzamentos que deram origem ao povo brasileiro. Houve uma predominância de genes europeus nas linhagens paternas e uma maior concentração de genes vindos da África nas linhagens maternas. O estudo confirmou os dados históricos de que os colonizadores europeus mantiam relações sexuais com escravas trazidas do continente africano.
Para o professor, nenhum brasileiro é puro: “É praticamente impossível que um brasileiro não carregue um pouco de ancestralidade africana, ameríndia ou européia”.