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5/7/2007 01:11:00

Os temores da sala de aula

Distúrbios de aprendizagem, como dislexia e gagueira, podem atrapalhar rendimento escolar

André Bernardo


Rio - Notas baixas no colégio, dificuldade na interpretação de textos e aversão à leitura em sala de aula. Estes e outros infortúnios nem sempre devem ser encarados como falta de interesse ou atenção. Às vezes, o fraco desempenho pode ser explicado por transtornos de aprendizagem, como dislexia e gagueira, que comprometem tarefas específicas, como leitura e escrita.

“Na maioria das vezes, o primeiro a perceber que há algo de errado com as crianças é o professor. No caso dos disléxicos, embora sejam espertos e inteligentes, não conseguem acompanhar o ritmo da turma porque não compreendem o que lêem. E, de todos os distúrbios, dislexia é o de mais difícil diagnóstico porque, ao contrário da gagueira, não é tão evidente”, afirma a fonoaudióloga Maria Ester Borlido, da Associação Nacional de Dislexia (AND).

A dislexia é também o mais comum de todos os distúrbios de aprendizagem. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 15% da população infanto-juvenil apresenta dislexia. O estudante José Guilherme Silveira, 10 anos, sofre de dislexia desde os 7. Na escola, sente dificuldade para distinguir as letras ‘p’ e ‘b’ e ‘t’ e ‘d’. Com isso, leva mais tempo que o habitual para ler o enunciado das questões e entregar as provas.

NEM MELHOR NEM PIOR

“No começo, ele ficava tão agoniado quando tentava ler e não conseguia, que vivia se xingando. Dizia que era burro e que jamais conseguiria. Hoje ele já sabe que a dislexia não o torna melhor ou pior do que ninguém”, afirma a mãe de Zeca, a professora Maria Camila Avelino Silveira, 43 anos. Aluno do Colégio São Paulo, em Ipanema, Zeca sonha em ser biólogo, gosta de ler enciclopédias e de assistir ao Discovery Channel.

A dislexia, porém, não é o único distúrbio a comprometer o aprendizado de crianças e adolescentes. A gagueira prejudica também o desempenho oral do aluno. Com medo de ser ridicularizado, muitos alunos gagos se recusam a ler em voz alta, deixam de fazer perguntas por vergonha e começam a se isolar. Atualmente existem cerca de 60 milhões de gagos em todo o mundo — 1,6 milhão deles só no Brasil.

“As pessoas precisam entender que ninguém é gago porque quer. Um dos erros mais comuns é supor que, se prestasse mais atenção ou falasse mais devagar, a cri<MC>ança não seria gaga. Isso não é verdade. A gagueira é involuntária e, em 80% dos casos, desaparece nos primeiros seis meses. Ainda assim, recomendo que os pais não esperem todo esse tempo. O ideal é procurar um especialista o quanto antes”, aconselha a fonoaudióloga Daniela Verônica Zackiewicz, da Associação Brasileira de Gagueira (Abra Gagueira).

Portadores dão exemplo de superação

A universitária Larissa Fontes Molinos, 19 anos, e o fonoaudiólogo Joel Dalton Palomino, 34, são dois exemplos de que distúrbios de aprendizagem não atrapalham o desenvolvimento profissional de ninguém. Larissa descobriu que era disléxica ainda criança, quando repetiu a 1ª e a 4ª séries. Em sala de aula, nunca conseguiu ler na frente dos outros. Nas poucas vezes em que tentou, foi motivo de chacota. “Ainda hoje, tenho dificuldade quando os professores ditam algum trabalho. Mesmo assim, não sinto mais vergonha. Resolvi assumir que sou disléxica”, diz.

Já Joel Palomino ainda lembra do ‘pânico’ que sentia quando precisava falar em público na universidade. Certa vez, numa entrevista de emprego, não conseguiu pronunciar uma palavra sequer. “Saíam apenas soluços incontroláveis”, descreve. Formado em Fonoaudiologia, atende crianças portadoras de gagueira: “Sinto-me numa condição privilegiada porque tenho total consciência do problema”.

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