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4/8/2007 19:38:00

Cordão umbilical gera polêmica científica

Processo de congelamento para assegurar curas futuras em transplantes autólogos provoca disputa entre médicos

Pâmela Oliveira


Rio - A certeza de cura para graves doenças que podem ocorrer no futuro ou a venda de falsas promessas sem evidências científicas? O congelamento de sangue de cordão umbilical e placentário para uso autólogo — do próprio paciente — tem despertado polêmica no meio científico. O processo, feito exclusivamente por bancos de sangue e de cordão umbilical privados, tem conquistado pais — que buscam no congelamento uma garantia de saúde para os filhos — na mesma proporção que vem recebendo críticas de especialistas.

“Congelar o cordão do filho como seguro de saúde é besteira. É como comprar um terreno em Marte porque a situação na Terra pode se arruinar tanto que ter um terreno em Marte pode ser interessante. Isso é rasgar dinheiro, não tem importância prática”, afirmou o coordenador do hemocentro da Unicamp, Carmino de Souza, no XI Congresso Brasileiro de Transplante de Medula Óssea, em Gramado, no Rio Grande do Sul.

Coordenador de Transplantes do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, o hematologista Nelson Hamerschlak concorda. “Se o seu filho de 4 anos tem leucemia, as últimas células- tronco que se deveria usar no transplante é a dele mesmo porque elas já estariam geneticamente programadas para a doença. Prefiro dar a ele a célula-tronco de outra pessoa do que a dele mesmo. O risco é menor”.

INVESTIMENTO DE R$ 5 MIL

Coordenador da Rede Brasil Cord, que reúne bancos de cordão umbilical públicos no país, o médico Luis Fernando Bouzas questiona a relação de benefícios que o congelamento do cordão para um transplante autólogo poderia trazer: “Eles estão enganando as pessoas ao divulgar coisas que não têm indícios capaz de provar que poderão ser usados dessa forma. Isso cria uma angústia para os que não têm recursos para pagar e uma ilusão para aqueles que têm”.

Segundo Bouzas, há dois tipos de células-tronco: as hematopoéticas e as mesenquimais. As primeiras são responsáveis pela produção sanguínea enquanto as mesenquimais teriam a capacidade de regenerar tecidos. “O cordão umbilical tem células hematopoéticas, mas a presença das mesenquimais é limitada. Vender ilusão sem perspectiva é errado. Pode ser que, algum dia, as células do cordão umbilical sirvam para alguma coisa. Mas, no momento, não servem para a regeneração de músculos ou de órgãos nem em animais”, diz. “O que será feito se uma empresa dessas falir?”, indaga.

Uma família paga em média R$ 5 mil para ter o sangue do cordão umbilical do filho congelado na rede privada. E cerca de R$ 600 anuais para manutenção.

Em nota técnica, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) diz que os Bancos de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário para uso autólogo “utilizam propagandas que extrapolam os dados científicos comprovados e que estão voltadas para atingir os pais em momento de vulnerabilidade pelo nascimento do filho”. Na Itália e na França, os bancos privados são proibidos.

Médico sócio de clínica discorda de críticas

Em todo o mundo já foram realizados mais de 6mil transplantes de medula óssea com sangue de cordão umbilical doador de uma pessoa para outra. Segundo a Anvisa, não há estatística sobre o uso do sangue de cordão umbilical armazenado em banco privado para transplantes autólogos. Estatísticas indicam que em aproximadamente 20 mil amostras de sangue de cordão somente uma será usada em transplante nos primeiros 20 anos de vida.

Sócio da Cryopraxis, Banco Cordão Umbilical e Placentário para uso Autólogo, o médico Eduardo Cruz contesta a informação. “Eles afirmam que essas doenças são raras, mas três das dez mil crianças que tiveram o sangue do cordão umbilical congelado pela Cryopraxis tiveram doenças hematológicas. Eles não precisaram do transplante, mas isso mostra que não são raros”.

Diferentemente do que dizem os demais médicos, Eduardo afirma que há embasamento teórico para o transplante autólogo de células-tronco de cordão umbilical. “Classifico as declarações dos médicos como irresponsáveis e infantis. Numa patologia genética, a sinalização do DNA de que aquele indivíduo tem alteração significa que pode levá-lo a desenvolver um câncer, não quer dizer que ele vai”. Por dia, a empresa congela o sangue do cordão de dez crianças.

Nota técnica da Anvisa afirma que a principal indicação para o transplante de medula, em pacientes com menos de 20 anos, é para o tratamento de leucemia. “Para estes casos, e para os demais em que o paciente seja portador de doença de natureza genética, o uso autólogo é contra-indicado, já que as células presentes no sangue do cordão umbilical e placentário apresentarão os mesmos defeitos genéticos. Transplante alogênico apresenta melhores resultados”, afirma o texto da agência.

Entenda o tema

MEDULA ÓSSEA
É um tecido líquido que ocupa o interior dos ossos, sendo conhecido popularmente por ‘tutano’. Na medula óssea são produzidos os componentes do sangue: as hemácias, os leucócitos e as plaquetas

TRANSPLANTE DE MEDULA ÓSSEA
É recomendado a pacientes com doenças que afetam as células do sangue, como leucemias, alguns tipos de anemia e linfomas. Pode ser feito com células-tronco doadas por outras pessoas ou da própria pessoa

COMO SER DOADOR
Os interessados devem ir ao INCA fazer um cadastro de doador. Seu sangue será colhidos e analisado para a verificação das características genéticas. Os dados vão para o Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome). As informações são constantemente cruzadas com as dos pacientes que necessitam do transplante de medula. Caso seja encontrado um receptor, o doador é contactado

QUEM PODE SER DOADOR DE MEDULA ÓSSEA
É preciso ter entre 18 e 55 anos, estar em bom estado de saúde e não ter doença infecciosa ou incapacitante




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