Ministério da Saúde quer unidades particulares credenciadas
Rio - O Ministério da Saúde pretende cadastrar mais hospitais particulares com equipes próprias para realizar transplantes de órgãos e tecidos no Rio. Segundo o Sistema Nacional de Transplante (SNT), o objetivo é aumentar o número de cirurgias no estado, que está em 9º lugar no ranking nacional, atrás de estados como Ceará e Pernambuco. Em relação aos transplantes de fígado, a situação é mais crítica. Ontem, a Defensoria Pública da União constatou, após vistoria no Hospital Geral de Bonsucesso (HGB), que a unidade não tem condição de atender sozinho os mais de mil pacientes que aguardam por um fígado no Rio.
O HGB tornou-se a única unidade autorizada a realizar este tipo de transplante no Estado desde que o Hospital Clementino Fraga Filho (Fundão) suspendeu as cirurgias devido à Operação Fura-Fila da Polícia Federal (PF), dia 30. Na ocasião, quatro médicos da unidade foram acusados de desviar órgãos e burlar a fila de espera . Um deles, Joaquim Ribeiro Filho, foi preso.
“Faltam, principalmente, cirurgiões especializados”, disse o defensor público da União André Ordacgy, acrescentando que solicitará reunião com os gestores estaduais e federais. “É preciso recompor as equipes”, disse, após a vistoria.
Coordenador do SNT, Abrahão Salomão Filho afirma que o ministério prepara mudanças para melhorar a rede. “A legislação é muito rigorosa porque a equipe tem que ser qualificada e dotada de modernos equipamentos tecnológicos. Mas muitos hospitais têm interesse em trabalhar com transplantes porque a remuneração feita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é recompensadora”, afirma Salomão, que pretende anunciar outras medidas no dia 27 de setembro, dedicado ao Doador de Órgãos e Tecidos. Desde o dia 30 não houve doação no estado. A Secretaria Estadual de Saúde diz que, desde então, houve só uma morte encefálica, mas o possível doador teve parada cardíaca antes da conclusão dos exames necessários para o diagnóstico.
A Procuradoria da República no Rio encaminhou parecer ao Tribunal Regional Federal pedindo o indeferimento do habeas corpus de Joaquim, que foi colocado em liberdade depois que a juíza federal Andréa Esmeraldo revogou a sua prisão, segunda-feira.
RIO TEM MENOS DOENTES DO QUE INSCRITOS
O número de pessoas que esperam hoje por um transplante de fígado no Rio é menor do que o de inscritos na lista, que começou a ter os pacientes recadastrados no início da semana. De acordo com a superintendente de Atenção Especializada da Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil, Hellen Miyamoto, após o recadastramento a fila será entre 20% e 30% menor. Hoje, 1.077 estão inscritos na lista única.
“Encontramos pacientes na lista de espera que já tinham sido transplantados e constavam como ativos. Ou seja, eles receberam transplante intervivo e ainda continuavam na lista. Pessoas mortas também constavam na lista como ativos”, diz Hellen, explicando que “ativo” significa que a pessoa em questão está em condições de ser transplantada.
Segundo Hellen, até ontem cerca de 50 dos 252 pacientes que não tinham sido localizados para o recadastramento telefonaram para o 0800-285-7557 e agendaram seus exames. Ontem, o estado começou a enviar telegramas para os que não foram localizados.
Escândalo prejudica as doações
Uma denúncia de fraude, como a que envolveu o ex-chefe da equipe de transplante do Fundão, Joaquim Ribeiro Filho, compromete o trabalho de captação de órgãos. Esta é a opinião de especialistas, como Valter Garcia, presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).
“Qualquer notícia já interfere na doação. Se a notícia for boa, a repercussão será favorável. Se for ruim, será desastrosa. Na maioria das vezes, as pessoas na fila de espera pelo órgão são sempre as primeiras a serem prejudicadas”, lamenta Valter.
O presidente da Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos do Rio (Adote-RJ), Rafael Paim, concorda. “Escândalos como o do Joaquim geram um medo na população sem precedentes. Ninguém quer ver o órgão de um parente sendo comercializado. As pessoas querem é transparência e seriedade”, afirma Paim.
Para Abrahão, a denúncia de fraude contra Joaquim Ribeiro serviu também para mostrar que “o Sistema Nacional de Transplante é tão rigoroso que, quando alguém não respeita a fila, é punido imediatamente”.