Pâmela Oliveira e Maria Mazzei
Rio - O juiz Lafredo Lisboa, da 3ª Vara Federal Criminal, suspendeu ontem à noite a licença do médico Eduardo de Souza Martins Fernandes para praticar qualquer atividade relacionada a transplante de fígado no Brasil. Também ontem, a Polícia Federal (PF) abriu inquérito para apurar nova denúncia contra o médico Joaquim Ribeiro Filho, preso quarta-feira durante a Operação Fura-Fila, que trouxe à tona esquema de desvio de órgãos.
“Não recebi nada oficialmente sobre isso. Não sei quais são as bases. Vou procurar meus direitos”, disse Eduardo, ao saber da decisão judicial sobre ele, acrescentando que vai recorrer. Além dele e de Joaquim, mais três médicos da equipe de transplantes de fígado do Hospital Clementino Fraga Filho (Fundão) foram denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF). Joaquim é acusado de liderar as irregularidades, segundo o MPF com o conhecimento dos outros médicos.
De acordo com a denúncia do procurador Marcello Miller, Eduardo, sócio de Joaquim na empresa CHBPRJ (Centro Hepatobilioancreático do Rio), foi o chefe da equipe que captou um fígado em Belo Horizonte (MG) em julho de 2007. O órgão deveria ser transplantado em paciente do Hospital do Fundão que estava em 4º lugar na fila de espera.
Porém, acabou sendo implantado em Carlos Augusto de Arraes, filho do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, que ocupava a 65ª posição. A cirurgia foi particular, na Clínica São Vicente.
Como O DIA noticiou ontem, nova denúncia feita à PF revelou que Joaquim usava a lista de espera para transações comerciais. Depois de saber da prisão do médico, D., irmã de um ex-paciente do Fundão, procurou a PF para relatar o que acontecera com o rapaz, que morreu ano passado aguardando um fígado.
CONSULTA DE R$ 400
Ela contou que seu irmão era assistido por Joaquim no Fundão. Com a piora clínica dele, D. procurou o médico para saber a exata situação do irmão. Joaquim a teria “convidado” para conversa em seu consultório particular. Apesar de ter sido chamada, D. teve que pagar R$ 400 pela consulta. Durante a conversa, Joaquim teria perguntado se o paciente tinha plano de saúde. Diante da negativa, Joaquim disse que “a única solução para salvar a vida dele” era pagar R$ 150 mil pelo transplante. D. chegou a oferecer apartamento de R$ 60 mil em Alcântara, mas o médico disse que só aceitava dinheiro em espécie. A transação não foi feita.
LISTA DE ESPERA NÃO SERIA RESPEITADA
Os pacientes que esperam por um transplante de fígado no Rio receberam um duro golpe, com a revelação de um escândalo, quarta-feira, na Operação Fura-Fila da Polícia Federal. Segundo denúncia do Ministério Público Federal, o médico do Hospital do Fundão Joaquim Ribeiro Filho, que foi preso, liderava grupo que desviava órgãos.
Os órgãos eram implantados em pacientes que pagavam e os que ocupavam o primeiro lugar na fila era prejudicados. Além de Ribeiro, outros quatro médicos foram denunciados.
Um deles, o cirurgião Eduardo Fernandes, chegou a denunciar, em 31 de dezembro, que um fígado captado em São Paulo seria jogado no lixo por falta de autorização da Central Estadual para transplante. Eduardo alegou, na época, que o primeiro paciente compatível era o de número 80. Mas que ele não estava com exames atualizados. Sendo assim, J., 41 anos, seria transplantada. A central impediu o transplante. De acordo com o MPF uma das estratégias usadas pelo grupo era alegar a falta de exames para desviar o órgão para outro paciente.