Rio - Internet: inimiga ou aliada? É essa a pergunta que milhares de médicos se fazem todos os dias diante do crescente número de pacientes que, antes mesmo da consulta propriamente dita, já sentaram na frente do computador para pesquisar sobre doenças, remédios e afins. Segundo pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), 84% dos internautas admitiram fazer buscas regulares na web sobre temas relacionados à saúde. E mais: 85% voltam a navegar após as consultas para conferir o prognóstico médico.
A busca por informações na Internet é um tema que divide os médicos. Para muitos, o Google — o mais famoso site de busca virtual — fez surgir um novo tipo de paciente: mais consciente e questionador, que não hesita em avaliar, com o médico, os riscos e benefícios do tratamento recomendado. Para outros, porém, o excesso de buscas em sites nem sempre confiáveis de ciência e saúde pode levar os internautas mais hipocondríacos — já batizados de ‘cibercondríacos’ nos EUA — à sempre tão temida automedicação.
“Na maioria das vezes, essa curiosidade é saudável e natural. Afinal, informação só melhora a qualidade de vida das pessoas. O acesso à Internet deixa os pacientes mais seguros para tomar decisões que dizem respeito a eles. O que esses pacientes precisam entender é que a informação, por mais valiosa que seja, não substitui a formação, que pressupõe prática e conhecimento”, pondera a pesquisadora da USP, Wilma Madeira da Silva.
SITES OFICIAIS
“Gosto mais de atender pacientes esclarecidos, que preferem tomar decisões com conhecimento de causa, do que outros que se isentam de qualquer responsabilidade sobre o próprio tratamento. A única ressalva que faço é para os internautas se aterem a sites de sociedades médicas. Caso contrário, poderão se deparar com equívocos e inverdades. Há muito lixo na Internet”, alerta o cardiologista Roberto D'Ávila, do Conselho Federal de Medicina (CFM).
Se os ‘cibercondríacos’ já chegaram ao Brasil, a universitária Júlia Costa, 22 anos, é uma delas. Todos os anos, ela se submete a uma infinidade de exames. Até aí, nada demais. O problema é que, ao contrário da maioria dos mortais, Júlia não consegue esperar nova consulta para conferir o resultado. Ela mesma se encarrega de avaliar os níveis de colesterol, glicose e triglicerídeos, entre outros, na frente do computador.
“Normalmente, o resultado do exame fica pronto no mesmo dia. Já o médico nunca tem horário disponível para a mesma semana. Você acha que consigo esperar duas ou três semanas? De jeito nenhum. Sou daquelas que sempre espera pelo pior”, reconhece Júlia, que descobriu uma leve anemia em uma de suas últimas consultas virtuais na Internet.
Pesquisa requer orientação
O caso da empresária Ana Racy, 28 anos, não chega a ser tão grave quanto o de Júlia. Em vez de conferir resultados pela Internet, ela gosta de navegar em busca de novos tratamentos para emagrecer. “Não posso ouvir que um tratamento revolucionário está prestes a chegar ao Brasil, que corro logo para a frente do computador”, exagera Ana, que emagreceu 11 quilos desde o início do ano — ela passou de 66 quilos para os atuais 55.
A empresária admite que, nas mãos de um hipocondríaco, a Internet pode ter um efeito devastador. Por isso, gosta de submeter tudo o que pesquisa na web à aprovação de seu médico de confiança. “Se você não tiver a orientação de um especialista, acaba louca”, reconhece Ana, bem-humorada.
Para o endocrinologista Tércio Rocha, o hábito de pesquisar na rede mundial de computadores seria saudável se não fosse perigoso. “Já cansei de atender paciente que suspendeu tratamento receitado ou alterou dosagem de remédio só porque o irmão do vizinho da amiga leu na Internet”, lamenta.
INTERNAUTAS VÊEM WEB COMO ALIADA
A Internet virou uma extensão do consultório médico — não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Nos EUA, uma pesquisa da The Harris Poll revelou que a parcela da população que acessa temas ligados à saúde em sites especializados cresceu de 53% em 2005 para 71% em 2007.
Na Europa, segundo dados da socióloga Hege Kristi Andreassen, do Centro de Telemedicina da University Hospital of Northern Norway, o fenômeno se repete. Países como Alemanha, Portugal e Dinamarca registraram índices de 50%, 58% e 71%, respectivamente, entre internautas que vêem na rede mundial de computadores uma forte aliada da saúde.
“A Internet é uma excelente ferramenta para complementar o atendimento médico e nunca para substitui-lo”, afirma Pablo Vasquez, do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj).
‘Medicina não é matemática’
O que mais preocupa os médicos é o ‘lixo eletrônico’ que circula na rede. Muitos garantem que o excesso de informação leva pacientes a tirar conclusões sobre novos remédios ou tratamentos revolucionários em fase experimental. A rede abriga instituições de reputação duvidosa e até blogs produzidos por leigos, que nada entendem do que apregoam — apenas confirmam a tese do “de médico e louco, todo mundo tem um pouco”.
“Há casos de pacientes que já chegam ao consultório com o medicamento que gostariam de tomar. O que eles não entendem é que medicina não é matemática. Um remédio pode ser indicado para um paciente e não ser para outro”, avalia o dermatologista Murilo Drummond, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).