Rio - O Instituto Nacional do Câncer (Inca) aproveitou o dia de ontem, dedicado ao Combate ao Câncer de Próstata, para anunciar um comunicado polêmico: o de que não existem evidências científicas de que o exame de toque retal ajuda a reduzir a mortalidade causada pela doença. A conclusão foi tirada a partir da análise de dois estudos populacionais — um americano e outro europeu — que investigam o impacto do câncer de próstata na mortalidade masculina.
“Os estudos compararam dois grupos: um de homens que foram submetidos ao rastreamento por toque retal, e outro formado por homens que não foram submetidos ao exame clínico. Embora o exame tenha ajudado a descobrir alguns casos de tumor em estágio precoce, o resultado aponta que não houve impacto na redução da mortalidade.
Ou seja, os benefícios não superam os malefícios causados por tratamentos agressivos, como cirurgia e radioterapia”, afirma Ana Ramalho, gerente da Divisão de Gestão da Rede Oncológica do Inca.
O comunicado do Inca causou mal-estar na Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), que preconiza que homens acima dos 45 anos façam exame de toque retal e de dosagem do PSA para detecção do câncer de próstata. “Há muito, o câncer de próstata no Brasil tornou-se questão de saúde pública. Nos últimos 25 anos, houve um aumento de cerca de 95% nos casos de mortalidade causada pela doença. Nos EUA, porém, exames preventivos provocaram uma redução de 4% nos números de óbitos por câncer de próstata na última década”, compara Aguinaldo Nardi, diretor da SBU.
Segundo Aguinaldo, na fase inicial, o câncer de próstata é assintomático. Os primeiros sintomas, como presença de sangue na urina, necessidade freqüente de urinar, e dor ou queimação ao urinar, só começam a surgir num estágio mais avançado. “A SBU tem feito o possível para conscientizar os homens da importância do exame de toque retal. É preciso que eles entendam que, na fase inicial da doença, o tratamento é curativo. Mas, num estágio mais avançado, é apenas paliativo”, pondera.
Na opinião de Ana Ramalho, a melhor providência a ser tomada para evitar uma doença que, só em 2005, matou mais de 10 mil brasileiros, é adotar um estilo de vida saudável. Segundo a especialista, tabagismo, alimentação rica em gordura, vida sedentária e excesso de peso são os principais fatores de risco do câncer de próstata. “Em alguns tipos de câncer, como o de cólo de útero, o rastreamento se mostrou eficaz. Em outros, como o de próstata, por exemplo, não”, salienta Ana Ramalho.
Tumor pode se espalhar pelo corpo
O câncer de próstata surge quando as células da glândula passam a se dividir e a se multiplicar de forma desordenada, o que leva à formação de um tumor. Alguns desses tumores podem crescer de forma rápida, espalhar-se para outros órgãos do corpo e, principalmente, levar à morte do paciente. Outros, porém, crescem de forma tão lenta que não chegam a causar sintomas durante a vida do paciente, e sequer ameaçam sua saúde.
Segundo especialistas, os dois únicos fatores associados a um aumento do risco de desenvolvimento do câncer de próstata são a idade e história familiar. A grande maioria dos casos ocorre em homens com idade superior a 50 anos e naqueles com história de pai ou irmão com câncer de próstata. Outros fatores, como a dieta, estão sendo estudados, mas ainda não há confirmação científica.