Rio - O Secretário de Estado de Meio Ambiente, Carlos Minc, anunciou nesta segunda-feira um levantamento da quantidade de gases poluentes emitidos na atmosfera pelo Rio de Janeiro. O inventário, coordenado pelo Professor Emílio La Rovere, da COOPE/UFRJ, calculou que a energia usada no setor industrial é o que mais contribui para o aumento da concentração dos chamados gases de efeito estufa, que são responsáveis pelo aquecimento global.
A produção da indústria fluminense concentra 20% das emissões, com uma produção de 12,2 milhões de toneladas de CO2 por ano. Em segundo lugar vem o processo e uso de produtos pela indústria, que corresponde a 18% da poluição, emitindo 11,4 milhões de toneladas de CO2 anualmente.
Em seguida aparece o transporte rodoviário, com 15% do total, levando para o meio ambiente 9,2 milhões de toneladas de gases estufa todo ano. A construção civil residencial e comercial aparecem na seqüência, com 10% da fatia, e com 6,4 milhões de toneladas de carbono na atmosfera.
Em 2005, o estado do Rio foi responsável pela emissão de 56,9 milhões de toneladas de CO2, 333 mil toneladas de CH4(gás metano), e 5,7 milhões de toneladas de N2o. O CO2 responde por 87% do total das emissões, valor equivalente ao do resto do mundo. A emissão per capita é de 4,4 toneladas por ano, em média, número referente ao ano de 2005.
Minc: queremos ser a Califórnia brasileira
Carlos Minc disse que o Brasil ainda está tímido no combate às mudanças climáticas, e ressaltou a importância de o Rio de Janeiro servir de exemplo ao liderar essa discussão. "A gente diz que os ricos que detonaram o meio ambiente, mas também temos que pensar em redução. A Califórnia temposição diferente do presidente dos Estados Unidos, George Bush, e possui metas de redução de emissões. A gente quer que o Rio seja a Califórnia do Brasil."
A Superintendente de Mudanças Climáticas e Mercado de Carbono do Estado, Suzana Kahn, que também é membro do Painel da ONU sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, esteve na coletiva ao lado do secretário e esclareceu que o inventário foi feito com base na metodologia da entidade, e no princípio de responsabilidade. "Só é contabilizada a produção de poluentes do estado, ou seja, o álcool que é produzido no Rio e consumido em São Paulo tem suas emissões contabilizadas para o estado paulista.", explicou.
Segundo Suzana, a tendência é o aumento do uso de combustíveis fósseis para produção de energia com o uso dos potenciais hidrelétricos. "Com isso é cada vez mais importante planejar as ações daqui para a frente, se nada for feito os gases estufa vão só aumentar.", alertou a pesquisadora do IPCC, que não acredita que na reunião que começa nesta segunda em Bali, na Indonésia, seja acordado um tratado para substituir o Protocolo de Kyoto. "Só vão começar as discussões."
Medidas contra a poluição
Minc informou que o estado vai exigir uma série de posturas para a mitigação das emissões, por setor. Na indústria, serão impedidas de se instalarem em locais saturados empresas com fontes geradora de emissão elevada, e as empresas terão de investir emtecnológicas abatedoras de emissões. Ainda para o setor, está previsto decreto para que as empresas produzam um percentual de energia limpa correspondente. No setor de gás, cada 100 megawats produzidos devem ser compensados por 5 de energia limpa. Para óleo, a equivalência é de 100 para 10 megawats, e para o carvão de 100 para 15.
As indústrias também terão que fazer seus próprios inventários, agora não só com gases poluentes, mas com os gases específicos que contribuem para o agravamento do efeito estufa.
No setor de transporte o estado vai fazer um acordo entre a Feema e a Fetranspor para redução em até 40% das emissões para o ano de 2012. Para isso serão exigidos a regulagem de motores, pneus e menos desperdício de energia, além do plantio de árvores para compensar as emissões.
A partir de janeiro, a vistoria de automóveis particulares também será reprobatória. E o transporte em trens e metrôs terá mais incentivos, com a previsão de aumento de 460 mil passageiros por dia para cada modalidade de transporte, para 1 milhão e 200 mil. Campanhas de televisão informando os motoristas sobre os cuidados com o carro tambémestão previstas.
Na questão do lixo, os resíduos sólidos terão o gás que emitem nos aterros, o metano, captado para produção de energia através do biogás. O aterro de Nova Iguaçu já possui o sistema para geração de créditos de carbono, ou seja, compra por países ricos do carbono que não foi despejado como forma de reduzir emissões e contribuir para as metas do Protocolo de Kyoto. O aterro de Gramacho também terá o sistema de captação.
Na Construção Civil pública haverá obrigatoriedade de investimento em aquecimento de água com energia solar em hospitais, escolas e até no PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) das favelas. A captação da água da chuva também está prevista. Os materiais, como a madeira, deverão ter certificação de que foram retirados de áreas de reflorestamento, para serem usados na construção. Para 2008, o estado quer promover ainda a troca de 30 mil geladeiras que ainda utilizam o gás CFC, que contribuiu para o buraco na camada de ozônio, problema ambiental que não tem nada a ver com o efeito estufa.
As medidas de mitigação ainda incluem o plantio de 20 milhões de árvores em quatro anos, e a criação de parques para a ampliação da biodiversidade e recuperação da Mata Atlântica.
Impactos na Baixada
O inventário também prevê medidas para a mitigação dos impactos relacionados aos recursos hídricos no estado. Com a possibilidade de elevação do nível dos mares, a região, conhecida por inundações freqüentes, terá uma política de realocação de pessoas que vivem em cima de palafitas e correm risco de contaminação pela água. O Projeto Iguaçu terá dragagem dos riosIguaçu, Sarapui e Botas, onde vivem 2 milhões de pessoas e criação de reservatórios para escoar a água em dias de chuva. Mais detalhes desses impactos serão divulgados em outra oportunidade pelo também professor da COOPE/UFRJ, Marcos Freitas, ainda em dezembro.
O que polui mais
As principais fontes de emissões do estado são a queima de combustíveis fósseis - como gás natural, óleo diesel, coque, gasolina, GLP, óleo combustível e querosene. Logo depois vem o uso desses combustíveis em processos industriais não energéticos. A agropecuária, as mudanças de uso do solo aparecem na seqüência, seguida pelos resíduos sólidos e líquidos, como o lixo.
O transporte rodoviário contribuiu principalmente pela emissão gerada em função da queima de combustíveis em ônibus, caminhões e carros particulares.
Em conjunto, os setores residencial e comercial correspondem por uma poluição maior do que a do transporte. Não só pelo uso de energia como gás natural e eletricidade, mas também pelo despejo de resíduos em aterros e e esgoto sanitário na rede de coleta de tratamento.
Em quarto lugar no geral está a chamada mudança no uso do solo, como desmatamento. No Rio ele corresponde por 10% das emissões, enquanto no Brasil chega a 75%, em razão do desmatamento na Amazônia. Em quinto o consumo de energia para gerar energia elétrica e produção de combustíveis.