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21/6/2008 21:15:00

Tentações da vida moderna

Uso exagerado de celular, Internet e videogame pode causar dependência e atrapalhar estudos

André Bernardo


Foto Ag. O Dia

Rio - Loreena é capaz de varar a madrugada conectada à Internet, Juan já perdeu ano por causa do videogame, Lara leva o celular até para o chuveiro e Yohan não sai de casa sem o MP3. O uso contínuo de apetrechos tecnológicos pode afastar adolescentes do mundo real, atrapalhar o rendimento escolar, gerar conflitos familiares e até causar danos físicos e psicológicos, como ansiedade, estresse e depressão.

O transtorno que atinge quem não vive sem celular já ganhou até nome na Inglaterra: nomofobia – ‘nomo’ é a abreviatura de ‘no mobile’, ou ‘sem celular’ em inglês. Segundo cientistas britânicos, 53% dos usuários do Reino Unido já têm nomofobia. No Brasil, ainda não há estimativas sobre o número de usuários que sofrem só de ouvir a frase ‘fora da área de cobertura’.

“Não existe idade ideal para dar celular aos filhos. O importante é que o uso dele seja discutido. Há casos de jovens que desistiram de viajar porque não pegava sinal. Celular vicia porque dá a falsa ilusão de que os outros estão à nossa disposição 24 horas por dia, sete dias por semana”, afirma Pedro Paulo Bicalho, do Conselho Regional de Psicologia.

AMIZADES VIRTUAIS

Com a Internet, a situação não é muito diferente. Calcula-se que, no mundo, já existam 100 milhões de ‘netaholics’ — pessoas que não conseguem viver sem estarem conectadas a e-mails, MSN ou Orkut. O jovem começa a se tornar ‘netaholic’ quando passa a maior parte do tempo on-line e prefere amizades virtuais às reais.

“Os pais precisam prestar atenção quando os filhos deixam de ir à praia ou ao colégio para ficar em casa teclando com amigos virtuais. Na maioria dos casos, eles migram para a Internet para superar frustrações na vida real. É como se eles se sentissem protegidos atrás do monitor”, alerta Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso.

A recepcionista Elvira Vianna Neta, 44, já não sabe o que fazer para manter os filhos longe da Internet. Ela comprou o computador para ajudar Loreena e Juan Carlos, 14 e 15 anos, nas tarefas escolares, mas a última coisa em que os dois pensam quando estão conectados é em Matemática, História ou Geografia. “Até estabeleço horários, mas eles não cumprem. Já aconteceu de mandá-los para a cama e, quando acordei de madrugada, os flagrei no computador. O pior é que, muitas vezes, nem sabem com quem conversam. Certa vez, até tentei descobrir, mas não consegui decifrar aquele alfabeto. A partir de agora, vou instalar o modem no meu quarto”, avisa.

LIMITES SEM TRAUMA

O drama da recepcionista Elvira Vianna é compartilhado pelo técnico de Informática Edson Pereira, 47 anos. Até hoje, o pai da estudante Lara Rôças Pereira, 13, não se esquece do dia em que deu um celular de presente para a filha, então com 9 anos. “No mês seguinte, vieram três páginas de conta para eu pagar”, resume.

Lara calcula que leva uma média de duas horas por dia ao celular. Certa vez, a moça passou apuros ao saber que o celular custava a dar sinal em Conservatória, no interior do Estado. “Pela primeira vez, me senti incomunicável. Felizmente, essa sensação só durou uma hora. Já imaginou se tivesse que passar um final de semana inteirinho sem celular? Não sei se conseguiria”, reconhece.

O namorado dela, o estudante Yohan do Nascimento Figueiredo, 15, não fica atrás. Ele é do tipo que só desliga o celular quando... a bateria acaba. “Não desligo para nada. Nem para dormir. A impressão é que, se desligar, um monte de gente vai tentar falar comigo e não vai conseguir”, tenta explicar.

Para Lúcio Simões de Lima, da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil, o uso desregrado de celular é um transtorno de impulso como outro qualquer. E, como tal, pode se transformar em compulsão no futuro. “É preciso impor limites porque os filhos não têm noção de gastos ou despesas. É como cartão de crédito. Algum pai em sã consciência daria um cartão sem limite para o filho? O mesmo acontece com celulares e Internet. Os pais têm que ter limites e dar limites aos filhos”, pondera Lúcio.

Diálogo de pais e filhos necessário

Aluna da 7ª série, Loreena esboça um sorrisinho ao falar do seu recorde on-line: 12 horas. Neste dia, só se levantou da frente do monitor para ir ao banheiro e pegar comida. “Fiz a refeição em cima do teclado”, recorda. Loreena só não passa mais tempo no computador porque o divide com o irmão. Ano passado, Juan repetiu a 8ª série. E o culpado foi o videogame: “Não consigo passar um só dia sem. Nem tentei, mas acho que não conseguiria.” Para o especialista Cristiano Abreu, pais não devem adotar postura rigorosa. “Eles vão arranjar dinheiro e ir à lan-house. Mais importante que proibir é tentar descobrir o que está por trás da dependência tecnológica”.

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