Rio - Manuel foi pro céu — e parece que ainda vai continuar lá por muito tempo. Aos 20 anos de carreira, iniciada em 1988 com o disco feito com o grupo Conexão Japeri, Ed Motta permanece longe do pop e do funk em seu nono CD de inéditas, ‘Chapter 9’, na lojas este mês.
FAIXA DE TOM ROQUEIRO
O cantor apresenta dez temas compostos e cantados em inglês. Em vez do flerte com o samba-jazz do CD anterior, ‘Aystelum’ (2005), Ed se reaproxima do soul. Mas que ninguém espere um hit como ‘Manuel’. O disco tem atmosfera refinada.
Logo na primeira (longa) faixa, ‘The Man from the Oldest Building’, de seis minutos e 42 segundos, o ouvinte se depara com tom meio sombrio. Na seqüência, um dos temas mais inspirados, ‘You’re Supposed to’, ratifica a boa surpresa de ‘Chapter 9’: Ed Motta abandonou as firulas vocais que rebuscavam demais o seu canto.
Em bom português, deixou de cantar em ‘edmottês’, aquele estranho idioma que vem afastando Ed do grande público. A acertada decisão valoriza músicas como ‘The Runaways’ (soul de sotaque pop) e ‘Twisted Blue’, de clima mais viajante.
Sem os habituais floreios vocais, é possível entender as letras, algumas assinadas pelo DJ inglês Rob Gallagher, egresso de um coletivo de jazz eletrônico, e por Claudio Botelho, parceiro de Ed nos temas do soturno musical ‘7’, a primeira incursão de Ed no teatro.
Além do canto de estrutura mais usual, ‘Chapter 9’ surpreende ao apresentar faixa de ambiência mais roqueira, ‘Tommy Boy’s Big Mistake’, cujo arranjo destaca as guitarras em detrimento do piano que sobressai em quase todo o disco.
O refinamento do instrumental salta aos ouvidos em faixas como ‘Ikarus on the Stairs’ — canção que encerra o CD — e ajuda a disfarçar a rala inspiração melódica de temas como ‘The Caretaker’. Distante da efervescência do funk que norteou seu início de carreira, Ed prioriza temas bem lentos como ‘St. Christoper’s Last Stand’ e ‘Georgie and the Dragons’. A julgar por músicas como a melodiosa e bela ‘The Sky Is Falling’, Manuel ficará no céu por toda a eternidade.