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15/08/2008 01:16:00

Arredores da Rua do Ouvidor e do Mercado viram ponto de encontro no fim semana

Beatriz Mota


Rio - Consta nas memórias da boemia carioca que, nas primeiras décadas do século 19, os arredores da Rua do Ouvidor, no Centro do Rio, eram referência da vida cultural brasileira. A área, fechada apenas para pedestres por decreto de D. Pedro II, concentrava intelectuais, músicos e simpatizantes, em busca das novidades que chegavam de Paris.

Conservando o charme daquele tempo, depois de muitos anos esquecidas entre os prédios comerciais levantados nas proximidades, as ruas retomam hoje seu espaço como pólo de expressão e diversão na cidade.

Embora os traços arquitetônicos não escondam a inspiração européia nas fachadas e construções, o que se vê no local durante os fins de semana é a presença do espírito tipicamente carioca. Os habituais homens engravatados dos dias úteis dão lugar a muita — e cada vez mais — gente com visual despojado, que aproveita a calmaria dos sábados e domingos para devorar produtos de todos os tipos: de artísticos a gastronômicos.

“Há pouco tempo, não havia uma alma por essas bandas nos fins de semana. Quando fazíamos um evento por aqui, com música até de noite, as pessoas achavam que estávamos loucos”, revela Rodrigo Ferrari, um dos ‘desbravadores’ do local, que é sócio da livraria Folha Seca, instalada há cinco anos na Rua do Ouvidor.

É ali em frente, numa mesa montada no meio da passagem, que acontece aos sábados, quinzenalmente, o Samba da Ouvidor, evento que já entrou no calendário festivo do Rio e tem chamado público para outras atrações do Centro.

Recentemente, restaurantes, bares, galerias de arte, livrarias e centros culturais, que antes não abriam suas portas depois do happy-hour de sexta-feira, perderam os dias de descanso. E começaram a investir na revitalização da área.

“Queremos mostrar que o Rio não é só praia e Corcovado. Nosso esforço é tentar segurar os cariocas no Centro e apresentá-lo também aos turistas”, explica Luiz Antônio Rodrigues, sócio da confeitaria Brasserie Rosário, na Rua do Rosário, que, ao lado de Rodrigo Ferrari e outros empresários locais, compõe a diretoria do recém-criado Pólo Praça XV. Entre os feitos da equipe também está o Mercado Cultural que, no primeiro sábado de cada mês, transforma a Rua do Mercado numa grande feira de arte, comida e música.

Mas mesmo em dias sem grandes programações, a Ouvidor e ruas próximas são ótima pedida para quem quer satisfazer paladar, olhos e ouvidos. Confira nas próximas páginas um roteiro com 15 dicas para aproveitar um dia inteiro, da manhã até a noite, em poucos quarteirões. Na página 15, há um mapa para ajudar na localização. Bom passeio.


ADEGA DO TIMÃO
O bar inaugurado em 1915, todo enfeitado com instrumentos náuticos, é paradeiro certo para quem sai dos três centros culturais que ocupam a mesma rua. Entre os petiscos mais pedidos está a porção de bolinho de bacalhau (R$ 16). Para acompanhar, chope Brahma (R$ 3). Rua Visconde de Itaboraí 10, Centro (2224-9616). Ter a dom, das 16h à 0h. Cc.: Todos.

AL FARABI
Inaugurado em 2004 como sebo e livraria, o casarão centenário de três andares ganhou espaço para exposições e, recentemente, também virou restaurante. O barato é almoçar em meio aos livros (há um acervo de 4 mil volumes), discos de vinil e quadros. Estão à venda no local gravuras de nomes como Di Cavalcanti e Gerchman. Para saborear, há pratos como o Picadinho Carioca, picadinho de carne que leva ovo frito, banana à milanesa, arroz e farofa (R$ 28 para duas pessoas; R$ 20 meia porção). Rua do Rosário 30 (2233-0879). Ter a sex, das 10h às 22h. Sáb, das 10h às 17h. Cc: Todos.

ANTIGAMENTE
Há apenas nove meses na Rua do Ouvidor, o bar já ganhou a simpatia dos freqüentadores da área e fica lotado durante os sambas e outros eventos. Seu proprietário, Carlos Laguna, o Carlinhos, português boa-praça que investe na revitalização da área, recebe os clientes e apresenta pratos como o Filé à Rua do Ouvidor (foto na pág. 12), filé com ovos servido com fritas, feijão e farofa (R$ 22,90). Rua do Ouvidor 43, Centro (2507-4050). Seg a sex, das 11h30 à 0h. Sáb, das 11h30 às 20h. Cc.: Todos.

BRASSERIE ROSÁRIO
Misto de restaurante, delicatessen, cafeteria e adega, o espaço tem ares sofisticados e lembra os cafés europeus. À frente da casa está Luiz Antônio Rodrigues, um dos fundadores do Garcia & Rodrigues, e o chef francês Fredéric Monnier. O cardárpio tem opções como o galeto desossado e recheado com legumes (R$ 28). Para sobremesa, há deliciosos doces, expostos num balcão na entrada do restaurante, entre eles os tarteletes de frutas (R$ 7,50). Rua do Rosário 34 (2518-3033). Seg a sex, das 11h às 20h. Sáb, das 10h às 18h. Cc.: Todos.

CAIS DO ORIENTE
Decorado com antigüidades e peças das culturas tailandesa, marroquina e indiana, o sobrado possui três ambientes e funciona como restaurante, além de abrigar festas e eventos fechados. Especializado em culinária contemporânea, a cozinha oferece pratos como o avestruz à Ban Chiang (R$ 53). Rua Visconde de Itaboraí 8, Centro (2203-0178). Ter a sáb, das 12h à 0h. Seg e dom, das 12h às 16h. Cc.: todos.

CASA FRANÇA-BRASIL
A exemplo do CCBB, e a poucos passos do centro cultural, a casa é voltada para vários tipos de manifestações artísticas com preço em conta. Neste mês, podem ser conferidas a peça ‘A Falta que nos Move’, com Pedro Brício, e a exposição ‘Luiz Ferraz’, com obras do pintor amazonense. Rua Visconde de Itaboraí 78, Centro (2253-5366). Ter a dom, das 10h às 20h. Grátis.

CASUAL RETRÔ
Funcionando há um ano na Rua do Rosário, o restaurante é uma versão arrumadinha do boteco Casual, que fica na vizinha Travessa do Comércio, e também é comandado de perto pelo chef português Santos. De olho nos antigos clientes do mestre-cuca, que já esteve à frente de cozinhas na Zona Sul, a casa possui charutaria, adega climatizada e cachaçaria.

Entre os destaques do cardápio, está o bacalhau grelhado com batatas ao murro, brócolis, tomate e cebola salpicada com alho dourado (foto na pág. 12), para duas pessoas (R$ 76). Rua do Rosário 24, Centro (2233-6904). Seg a sáb, das 11h ao último cliente. Cc: Todos.

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL
Referência para o público que procura boas programações gratuitas ou com preços que cabem no bolso, o CCBB funciona no local há 19 anos, apresentando exposições, peças, shows, sessões de cinema e outros projetos. Atualmente, há quatro exposições em cartaz, entre elas ‘O Tempo Sob Medida’, com relógios antigos, além da peça ‘Pelo Amor de Deus, Não Fale Assim Comigo’, com Cissa Guimarães. Rua Primeiro de Março 66, Centro (3808-2020). Ter a dom, das 10h às 21h.

CENTRO CULTURAL CORREIOS
O imóvel de 1922, que promove eventos culturais de qualidade, está fechado para reformas em sua estrutura até setembro, quando reabre com novidades que ainda estão sendo programadas. Rua Visconde de Itaboraí 20, Centro (2253-1580). Ter a dom, das 12h às 19h. Grátis. Livre.

CENTRO CULTURAL JUSTIÇA ELEITORAL
Reinaugurado no início deste ano, depois de mais de dez anos fechado, o espaço cultural foi projetado em 1892 e já abrigou a sede de vários órgãos públicos. Combinando elementos da arquitetura neoclássica e do barroco, com toques do art nouveau, o prédio possui salões imensos, que ainda passam por reformas, mas já apresentam exposições. Atualmente, três mostras ocupam o centro cultural. Rua Primeiro de Março 42, Centro. Qua a dom, das 12h às 19h. Grátis.

GALERIA PROGETTI
Aberta ao público há poucas semanas, num sobrado de três andares de 1889 na Travessa do Comércio, a galeria chama a atenção por ficar entre dois bares na rua estreita. A mostra individual de Jannis Kounellis, um dos nomes centrais da arte contemporânea internacional, abre a programação de exposições. Travessa do Comércio 22, Arco do Telles, Centro (2221-9893). Ter a sáb, das 11h às 19h. Grátis. Livre.

IGREJA NOSSA SENHORA DA LAPA DOS MERCADORES
A construção foi inaugurada em 1750, e remodelada em 1872. Sua arquitetura guarda marcas da história brasileira. Em 1893, durante a Revolta da Armada, sua torre foi atingida por uma bala, que ainda está alojada no local. Mas para conhecê-la é preciso contar com um pouco de sorte. A igreja abre em horários imprecisos, geralmente das 8h às 14h. Rua do Ouvidor 35, Centro (2509-2339).

KING CRAB
O restaurante, que tem nome do caranguejo gigante ‘king crab’, de aproximadamente 1,5 kg, oferece programação musical aos sábados, a partir das 14h, com grupos de bossa nova. Especializado em frutos do mar, o cardápio tem opções como o bufê frio (R$ 22), com mais de 20 variedades, como ostras, carpaccio de salmão, lula, comida japonesa, manjubinha e trilha. Rua do Ouvidor 12, Centro (2220- 2532). Seg a sáb, das 11h ao último cliente. Cc: Visa e American Express.

MERCADO CULTURAL
Iniciativa dos empresários locais, o projeto acontece desde o início do ano, no primeiro sábado de cada mês, e vem enchendo a Rua do Mercado e arredores. A partir das 11h, e durante todo o dia, acontecem manifestações culturais de todos os tipos, com artistas que freqüentam a região: apresentações de música, teatro, performances, exposições e oficinas.

SAMBA DA OUVIDOR
A roda de samba começou como uma diversão entre amigos e já virou referência entre os eventos mais bacanas que acontecem pela cidade. Quinzenalmente, aos sábados, os músicos se reúnem em frente à livraria Folha Seca, uma das patrocinadoras da farra cultural, e lotam a rua de apreciadores.

Na mesa, Gabriel Cavalcante (cavaquinho), Tiago Prata (violão 7 cordas) e mais uma garotada da nova geração do samba, que toca como gente grande, aposta em repertório que privilegia compositores tradicionais e menos conhecidos do público, como Walter Rosa e Manacéia. Amanhã, a partir das 14h.

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