Rio - Chico César armou seu arraial com CD de frevos e forrós turbinados com a sonoridade moderna de BiD, produtor que já pilotou disco da Nação Zumbi. Em ‘Francisco, Forró y Frevo’, BiD incrementa repertório inédito com bom uso de sintetizadores, ‘samples’ e ‘scratches’.
PRODUÇÃO DE BID É BOA
Nas lojas esta semana, o discos impressiona pela ótima qualidade da safra de inéditas de Chico, que enfatiza a afinidade rítmica do reggae com o xote em faixas como ‘Comer na Mão’ e ‘Ociosa’. O álbum tem tom festivo. Já na faixa de abertura, o frevo ‘Girassol’, as guitarras de Fernando Catatau sinalizam a intenção do artista — que produziu o CD ao lado de BiD — de buscar outras sonoridades para o gênero.
Em ‘Pelado’, frevo que protesta de forma espirituosa contra a industrialização do Carnaval baiano, Chico integra a pulsação da guitarra baiana — a cargo de Armandinho, referência do instrumento — com os metais típicos dos frevos tocados nas ruas de Pernambuco.
Embora dirigido ao mercado de festas juninas, o disco tem forte munição para a folia em frevos como ‘Humanequim’ (faixa de longa passagem instrumental), ‘Armando’ e ‘Solto na Buraqueira’. Os metais estão em brasa nestes temas de pique carnavalesco.
Dentro do universo forrozeiro, o CD prioriza xotes como ‘Feriado’, mas ‘Abaeté, Abaiacu e Namorado’ tem levada rápida que evoca os xaxados. Nos versos, Chico César recorre à metáfora para abordar de forma sutil os crimes praticados contra homossexuais na Lagoa do Abaeté, ponto de encontros gays em Salvador (BA).
“Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa”, suplica o compositor no xote ‘Deus me Proteja’, em que requisita a voz e a sanfona nobres de Dominguinhos. Outro convidado do CD, Seu Jorge canta ‘Dentro’ em registro tão grave e suave que lembra Arnaldo Antunes. A letra, aliás, é pura poesia.
Única regravação incluída entre as inéditas de Chico César, a ‘Marcha da Cueca’ — parceria de Livardo Alves com Carlos Mendes e Celso Teixeira — reaparece unida em ‘medley’ com a ‘Marcha da Calcinha’, parceria de Chico e Pedro Osnar, de alto teor erótico. “Música eletrônica sem energia não dá”, sentencia Chico em verso de ‘Eletrônica’, outra faixa de um disco que prova que, se utilizados com moderação, os timbres eletrônicos têm muito a oferecer. O arraial moderno de Chico César é animado.