Rio - O funeral de Yves Saint Laurent terá início na próxima quinta-feira, às 15h30, com a missa na Igreja de Saint-Roch, em Paris. Entre as celebridades esperadas, várias de suas modelos, musas e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, desta vez acompanhando por sua mulher, Carla Bruni, que já desfilou diversas vezes para o mestre. O corpo do estilista será cremado e suas cinzas serão depositadas nos Jardins Majorelle, em Marrakesh.
A França está comovidíssima. Na TV, de hora em hora surgem documentários, programas, declarações. No país que respira moda, a perda do gênio, que deu o último suspiro domingo, em sua residência parisiense, enterra um dos capítulos mais fascinantes da cultura francesa. Yves foi dos primeiros a globalizar a Alta Costura, com franca exposição mediática.
Já posou nu para vender perfume, criou terninhos e smokings para a nova mulher que trabalha e até organizou um megadesfile na cerimônia de abertura da Copa do Mundo de 98, lembram? O que seria inacessível para o homem comum — vestidos entre US$ 50 mil e US$ 300 mil — virou objeto pop de desejo.
“Era muito comum que nós pedíssemos que um modelo apresentado em preto, por exemplo, fosse produzido em verde. Mas Saint Laurent não aceitava isso, ao contrário dos outros estilistas. Ele achava que a roupa deveria ser executada da maneira como ele concebeu”, lembra a socialite Carmem Mayrink Veiga, uma de suas clientes brasileiras mais fiéis.
E como me esquecer daquele espetáculo maravilhoso que foi sua despedida no Centre Georges Pompidou, em 2002, o museu que ele ajudou a reformar e cujo Conselho integrava ativamente há tantos anos? Eu tinha 23 anos, no frescor da descoberta do mundo da moda, e lá estava num lounge vermelho com corações gigantescos e a palavra ‘Love’ escrita em neon por todos os cantos. Na platéia, viam-se princesas, primeiras-damas, atrizes, cantoras e socialites prontas para prestar sua última homenagem a Saint Laurent e, por que não, à Alta Costura?
É fato que ela começou a morrer com a aposentadoria do estilista. Só para se ter uma idéia, a semana das coleções reduziu-se a três dias (este ano, a de verão irá de 1º a 3 de julho) e a uma clientela de árabes, russas e poucas megaexecutivas americanas.
Depois de ver a moda da segunda metade do século XX desfilar aos nossos olhos, eles se encheram de lágrimas quando Catherine Deneuve e Laetitia Casta levantaram-se de suas cadeiras para cantar ‘Ma plus belle histoire d’amour c’est vous’, imortalizada na voz de Barbara. Emoção, emoção...
Antes de a doença avançar implacável e o retirar da boemia parisiense, Saint Laurent dedicou-se a criticar o novo espírito industrial do mundo fashion e seu sucessor em sua linha de prêt-à-porter, o texano Tom Ford, que se inspirou na sensualidade de suas campanhas para escancarar — com uma pontinha de vulgaridade — a nova palavra de ordem, o sexy.
Hoje, a grife subsiste nas mãos talentosas de Stefano Pilatti, que vem apresentando belas coleções e apresentando resultados financeiros satisfatórios para o PPR Group, conglomerado de luxo que comprou a marca. E adivinhem quem comanda a presidência da Saint Laurent a mão de ferro? O brasileiro Roberto Paz, cabra bom do Piauí.
É o fim da androginia Betty Catroux, das jóias Loulou de la Falaise, dos bordados Lessage, da Bela da Tarde, do beatnik chic, dos smokings femininos bem cortados, das vestes safári-chic, dos jantares de Marie-Hélène de Rothschild, dos brunches pós-desfiles. Se o ofício de costureiro morreu com a genialidade das formas de Balenciaga, o de estilista desaparece agora com Saint Laurent, o homem que achava que o estilo superava a efemeridade da moda. Estamos hoje na era dos designers que suam para acompanhar as novas tendências — e elas mudam a cada três meses.