Rio - Depois da coletânea ‘Viva Cartola! 100 Anos’, dois CDs com gravações inéditas festejam o centenário de Cartola (1908 — 1980). A cantora Cida Moreira registra músicas pouco conhecidas do compositor no álbum ‘Angenor’. Já ‘Chora Cartola’ rebobina a obra do mestre com o espírito do choro.
NO ESPÍRITO DO CHORO
O CD da cantora é especialmente importante porque alterna os clássicos de Cartola com músicas belas que passaram despercebidas nos dois últimos LPs do compositor, gravados em 1977 e 1979. Dentre as jóias garimpadas por Cida no baú do compositor, ‘Feriado na Roça’ flagra Cartola em raro tom ruralista.
A viola caipira de Omar Campos e o acordeom de Oswaldinho criam a moldura perfeita para Cida entoar a letra cinematográfica sobre um crime passional. Outra pérola, ‘A Canção que Chegou’ — ouvida também na voz de Moyseis Marques em ‘Chora Cartola’, CD produzido por Henrique Cazes — é exemplo de um Cartola feliz. Tanto no recorte melódico (refinado, como de hábito) como na letra festiva.
Intérprete de expressiva carga dramática, Cida Moreira acerta ao baixar o tom para cantar Cartola. Até porque sua sensibilidade como cantora independe de arroubos vocais. O registro interiorizado e sentido que a cantora imprime em ‘O Mundo É um Moinho’ consegue despertar novo interesse para uma música já batida.
Basicamente instrumental, ‘Chora Cartola’ resulta sedutor porque a transposição da obra do compositor para o universo do choro foi feita com respeito ao desenho melódico original dos 15 temas, tocados no disco por um time de solistas que destaca o bandolinista Joel Nascimento (sublime em ‘Alvorada’) e o clarinetista Paulo Sérgio Santos (nas músicas ‘Divina Dama’, ‘Tempos Idos’ e ‘Que Sejam Bem-Vindos’). Músicos como o gaitista Rildo Hora e o saxofonista Carlos Malta fazem solos sem querer ‘recriar’ temas que já nasceram perfeitos. ‘Angenor’ e ‘Chora Cartola’ ratificam o óbvio: Cartola foi mestre na arte da composição. E sua obra ainda permite novas leituras. Viva!