Rio - No dia 28 de janeiro de 2000, quando Raimundo Fagner subiu ao palco do Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza, suas pernas tremeram. Diante dele, 40 mil conterrâneos o esperavam para fazer coro a 20 de suas canções mais emblemáticas, inclusive ‘Canteiros’, que Fagner não cantava há mais de duas décadas, por conta de uma briga judicial com as herdeiras de Cecília Meireles, dona do poema que ele musicou.
Ano passado, Fagner descobriu que o cineasta Rosemberg Cariri (“cearense astuto”, ele diz) havia registrado o show, que virou o lançamento ideal para celebrar seus 35 anos de carreira. “É um presente encontrar as imagens desse show. Recompõe um material muito importante da minha vida.”
Até o fim do ano o cantor quer trabalhar na divulgação deste ‘Raimundo Fagner Ao Vivo’ (Sony&BMG) e produzir um outro, feito a partir de registros de um encontro seu com Luiz Gonzaga que virou disco em 1988. “Tem depoimentos do Gonzagão, cenas dele tocando comigo, participação de Gonzaguinha”, conta ele, que ainda prepara um CD de inéditas para 2009. Fagner diz que trabalha para espantar a crise que toma conta da indústria da música. “A crise é boa para purificar. É nela que as pessoas crescem”, aposta.
Ele não deixa de responsabilizar o ministro da Cultura, Gilberto Gil, pela crise — ao menos por omissão. “A atuação dele é um fracasso. Ele é ausente, não pode estar no cargo dessa forma. Promove a Internet, que ainda é uma incógnita, e não combate a pirataria ostensivamente. Talvez porque nunca tenha sofrido pressões. Gil nunca vendeu discos, então não pode saber o que é perder mercado”, afirma.
Fagner assume o papel de contestador sem problemas. “As pessoas estão comprometidas e congeladas. Falta indignação, está se fazendo pouca música para pensar”, diz ele, feliz com o retrospecto da própria carreira. As 40 mil pessoas cantando sucessos como ‘Mucuripe’ e ‘Deslizes’ no DVD só reforçam seu contentamento. “Sou um artista que está no coração do povo. Não é autopromoção: não paro de fazer shows por aí e vejo isso no dia-a-dia.”