Rio - Fãs do cantor João Gilberto começaram a fazer fila às 15h de quarta-feira — 17 horas antes do início da venda de ingressos, ontem pela manhã — no Theatro Municipal do Rio. O sacrifício era para acabar de vez com a saudade, que já dura cinco anos, de ver o papa da Bossa Nova em palco nacional. O show do dia 24 integra a série do ItaúBrasil em homenagem aos 50 anos da Bossa Nova.
O aposentado Sebastião Cataldo, de 65 anos, foi o primeiro da fila e, logo em seguida, ganhou a companhia do auxiliar administrativo Igor Carvalho, de 27 anos, que veio do Amazonas especialmente para ver o cantor. Representantes de Minas Gerais, Goiânia e diversos bairros do Rio engrossaram a turma de cerca 40 fãs, que, sentandos em banquinhos e acompanhados por um violão, passaram o sereno cantando músicas do ídolo.
No entanto, após a longa espera, Igor frustrou-se ao comprar o ingresso de R$ 350 (platéia). “Cheguei cedo para ficar na primeira fila, de frente para o palco. Para quem ouve muito João, é preciso ficar perto para ver o dedilhar do violão dele. Não é igual a show da Ivete Sangalo”, lamentou o rapaz, que só conseguiu lugar na fila E (a quinta). O mesmo sentimento tomou conta do DJ Marcelinho da Lua, que chegou às 5h45.
“Queria ficar na platéia, mas só encontrei ingressos de galeria (às 11h30), a sociedade anônima levou tudo”, reclamou ele, referindo-se à cota de ingressos para vips. Segundo a assessoria do evento, 40% dos convites foram separados para o cantor e patrocinadores e não entraram em venda.
Mas nem tudo era insensatez. Entre os fãs entre 17 a 70 anos, a maioria estava feliz por garantir passaporte para o universo que tomou conta do país nos anos 50. “João é o maior cantor de samba vivo”, elogiou o cantor Pedro Paulo Malta, ao lado do também cantor Alfredo Penho, ambos da nova geração de sambistas da Lapa.
Os músicos eram presença maciça na fila. Todos, como a estudante de música Alice Passos, de 17 anos, loucos para assistir ao ‘Desafinado’ mais afinado do planeta. “Paguei R$ 15 para vê-lo com a carteira de estudante. Mas isso não tem preço.”
Farra dos cambistas continua
De acordo com a asssessoria de imprensa do show de João Gilberto, dos 2.329 lugares do Theatro Municipal do Rio, apenas 60% foram postos à venda. Os 1.397 ingressos vendidos se esgotaram em pouco mais de três horas. O que revoltou alguns fãs que esperaram durante horas na fila foi ver cambistas oferecendo lugares antes mesmo de a venda começar oficialmente.
“Fui abordada por um rapaz às 9h45, que me disse que na mão dele, a galeria custava R$ 200. Mas a bilheteria só abria às 10h”, reclamou Ana Maria de Azevedo, de 40 anos. Sem recorrer ao vendedor, ela esperou por mais de três horas, mas não conseguiu entrada. No entanto, a assessoria de impresa do Theatro Municipal nega que possa ter havido qualquer tipo de venda, mesmo pela Internet, antes da abertura das bilheterias.
Ainda segundo outra fã, que não quis se identificar, era possível comprar um lugar na fila por R$ 100. Sem anunciar aos gritos que ainda tinham ingressos para o show, cambistas abordavam discretamente pessoas na fila, mas agiam livremente próximo aos policiais militares que estavam nas imediações do teatro.