Rio - Na luta contra a violência, o rock pede passagem. Baixista do Barão Vermelho, Rodrigo Santos lança o primeiro disco solo, ‘Um Pouco Mais de Calma’, que traz entre as faixas a música ‘Cidade Partida’, composta a partir do assassinato de João Hélio Fernandes, 6 anos, morto covardemente em assalto na Zona Norte. A convite de O DIA, Rosa Cristina e Elson Vieites, pais do menino, foram à casa do músico, num encontro emocionante.
Na noite de 7 de fevereiro, o carro onde estavam João, Rosa e Aline, 14 anos, irmã do garoto, foi cercado por bandidos. As duas conseguiram sair do veículo, mas os criminosos arrancaram e o garoto, preso ao cinto de segurança, foi arrastado por sete quilômetros.
Dia seguinte, a barbárie foi capa de todos os jornais. “Quando vi a manchete fiquei chocado, tentei me colocar no lugar dos pais. Fechei o jornal naquele dia e escrevi a música chorando muito”, lembra Rodrigo, pai de Leonardo, 8 anos, e Pedro, 10 meses.
Pasmo com o caso de João Hélio, Rodrigo diz que começou a questionar o valor da vida.
“Depois de ler a reportagem, pensei: ‘Caramba! A vida humana não significa porcaria nenhuma’. Esses desalmados devem pensar: ‘Não sinto nada por essa pessoa, nem conheço, vou matar’”, indigna-se. “A sociedade civil tem que chamar a atenção do governo para o que está acontecendo. Não podemos deixar que os casos de violência se transformem apenas em estatística. Estamos abertos para tudo que possa sensibilizar as pessoas e a música ajuda”, diz Elson. “Quem sofre a perda continua sempre com a dor, mas temos que buscar transformações”, completa Rosa.
No momento mais emocionante do encontro, Elson lembrou detalhes do dia-a-dia de João Hélio. “A dor da perda é uma ferida constante. O João era muito ativo e carinhoso, a todo instante a gente lembra dele. Quando íamos a uma lanchonete, ele pedia: ‘Quero caaa-tchup!’, ou quando me abraçava, que eu brincava: ‘Abraça mais forte, rapaz’”, conta o pai, com os olhos cheios d’água.
Para Rodrigo, a solução para combater os problemas sociais está dentro de casa. “É importante que a educação passada de geração à geração seja de qualidade”, diz o músico. Rosa concorda e lembra o caso da empregada doméstica Sirlei de Carvalho, 32, espancada por jovens de classe média no último fim de semana. “É dever dos pais ensinar o que é certo e errado”, fala a mãe. “Não adianta jogar toda a culpa no Estado, tem que ver como anda a situação dentro de casa”, diz Elson.
TRABALHO DE FORMIGUINHA
A luta contra a violência pelos pais de João Hélio não é tão simples. “É difícil, é um trabalho de formiguinha. Só aos poucos e com força de vontade a gente consegue”, diz Elson. Assim foi a batalha de Rodrigo Santos para largar as drogas. “O trabalho de formiguinha é o mais eficiente. Estou há dois anos longe do álcool e de outras substâncias”, conta o músico, que procurou terapia para ajudar. Para comemorar o recomeço, lançou o CD ‘Um Pouco Mais de Calma’, seu primeiro disco solo. Entre as músicas estão ‘O Peso do Passado’, com participação especial de Zélia Duncan, ‘Tempos Difíceis’ e ‘Nunca Desista do Seu Amor’, além de ‘Cidade Partida’, feita em parceria com George Israel. “A música é jovem e fala sobre a realidade urbana atual”, elogia Rosa.
MÚSICA - ‘CIDADE PARTIDA’ (Rodrigo Santos/George Israel)
A criança na porta da escola/ Sorrindo sem traços de dor/ Corre atrás de uma bola/ E não volta mais/ Os pais acendem uma vela/ Eles são dois e não mais três/ Inconsoláveis se perguntam/ Se só se morre uma vez/ Os heróis colados na agenda/ Não puderam lhe salvar/ E contam as horas em vão/ Esperando você voltar/ E agora a cidade se junta em pedaços/ Pra tentar dormir em paz/ E depois se parte em pessoas perdidas/ Vivendo como animais/ E a vida segue... segue... me dê a mão... a vida segue.../ Olhando pro espelho da vida/ Como você se sente assim?/ Com as perguntas que ficam no ar/ E que também faço agora pra mim/ Você um dia já pensou /Nas coisas que não viu?/ No tempo que perdeu?/ Nas drogas que ingeriu?/ No álcool que bebeu?/ Se a sua parte você fez/ Ou se dormiu demais?/ E das pessoas que ama, você cuidou?/ Ou deixou o amor pra trás?/ E de repente tudo pode mudar/ Num sopro do destino (...)