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9/7/2007 00:52:00

Rock e funk na lama de Roskilde

Evento na Dinamarca reúne shows de Björk e The Killers, que virão ao Brasil no Tim Festival, além do Bonde do Rolê

Zean Bravo


Foto Divulgação

Roskilde (Dinamarca) - Enquanto os senhores ingleses do The Who apresentavam sábado à noite show emocionado no palco principal do Roskilde Festival, na cidade a 40 minutos da capital da Dinamarca e sede de um dos maiores festivais de música da Europa, outra tenda do evento começava a encher para presenciar uma experiência bizarra, mas divertida: o show de ‘funk’ do trio curitibano Bonde do Rolê, verdadeiro fenômeno na Europa.

Com o som dos bailes misturados a samplers de rock, os DJs Rodrigo Gorky e Pedro Déyrot e a MC Marina Ribaski empolgaram a platéia gringa que lotou a apresentação brasileira. Ninguém entendia os palavrões, nem mesmo as letras absurdas de músicas cantadas em português como ‘Dança da Ventuinha’ (que traz o verso ‘assopra o meu saco’ no refrão).

Mas isso pouco importava. O público não conseguiu ficar parado diante da vibrante performance do trio, que interagia com a platéia em inglês, fazendo piada o tempo inteiro. “Gorky (o cada vez mais gordo produtor e DJ) é o homem mais sexy vivo no Brasil”, debochava Pedro, ao apresentar o parceiro.

Animadas, as louras escandinavas agitavam os bracinhos e mexiam os ombros. Rebolar o quadril e descer até o chão não parece fazer parte da coreografia gringa em um baile funk. Afinal, as tchutchucas européias não tinham a quem copiar. No palco, a doidinha Marina dançava funk de forma caricatural, se contorcendo o tempo todo. A platéia reagia ao seu modo: muitos gritos e socos no ar. E, claro, todo mundo dançava.

“Não entendo o que eles cantam, mas a música é contagiante”, elogiou a dinamarquesa Ulla Henssel, de 23 anos, que fechava os olhinhos verdes e pulava como se não houvesse amanhã ao som do ‘Funk da Esfiha’, do refrão ‘Tem mosca/ tem barata/ tá mofada/ essa esfiha é uma graça’.

Todo mundo queria mais era se acabar com o ‘baile funk’ (nomenclatura usada para definir o pancadão brasileiro). “O Bonde do Rolê vai começar?”, perguntou, bastante atrasado, um norueguês que acabava de entrar na tenda. Quando percebeu que o show estava na reta final, sacolejou enquanto pôde e se mandou. Os luso-angolanos do Buraka Som Sistema, que ocuparam a tenda depois do Bonde de Curitiba, não pareciam ser tão populares como os representantes brasileiros.

Tão famosos e ainda mais elogiados no circuito de festivais do verão europeu, os paulistas da banda Cansei de Ser Sexy, conhecidos pela alcunha de CSS, também lotaram o palco Odeon, na sexta-feira. O grupo está com a moral elevada e foi ovacionado numa performance elétrica. Mas a principal diferença entre Mariana, do Rolê, e Luiza Lovefoxxx, do CSS, é que a segunda parece se levar a sério demais.

Vocês estão aí mesmo com essa chuva?

Sexo é a primeira coisa que vem à cabeça de Brandon Flowers, vocalista e tecladista do The Killers, quando ele pensa no Brasil. “Mas não é de forma pervertida”, jurou o músico americano, minutos antes de entrar no palco principal do Roskilde Festival, quinta-feira.

Atração confirmada do Tim Festival deste ano, marcado para o fim de outubro no Rio, a banda de Las Vegas mostrou em Roskilde a razão de ser tão cultuada já no segundo disco, ‘Sam’s Town’. Nem mesmo a chuva sem interrupção e a lama, que chegava a cobrir a canela das pessoas, foram suficientes para amenizar a euforia do público por uma hora e meia. “Vocês estão aí mesmo com toda essa chuva?”, chegou a perguntar Brandon, que vestia calças e paletó dourados.

A julgar pela apresentação em Roskilde, o show que os brasileiros verão em outubro é vibrante. Brandon não pára quieto no palco e a platéia vibra a cada sucesso como ‘Somebody Told Me’ e ‘All These Things’. “Estes festivais de música estão entre os nossos shows favoritos. Geralmente o público está eufórico. É uma celebração”, empolgou-se o guitarrista da banda, David Stoermer.

David espera o melhor do show que fará no País. E apela para o clichê. “Vocês ganharam a última Copa do Mundo, não foi?”, diz, demonstrando pouco conhecimento sobre o Brasil. Mas faz questão de fazer média. “Nossa expectativa para ir ao seu país é grande. Sei que o público é caloroso e muitas bandas tiram uns dias de folga após seus shows para aproveitar a praia.”

David defende as músicas alegres do The Killers, mas debochou de Brandon ao ser perguntado sobre as declarações polêmicas do vocalista, que já criticou o politizado álbum do Green Gay, ‘American Idiot’. “Brandon às vezes deveria calar a boca. Mas, para mim, algumas músicas com discurso político soam oportunistas. Não sinto orgulho do nosso presidente, nem de muita coisa que rola em meu país, mas não acho que música tenha que tocar só nesses temas”, explica o guitarrista.

Depois do show dos americanos, foi a vez de a islandesa Björk hipnotizar o público, com show que começou às 22h. Um grupo de mulheres tocando instrumentos de sopro e usando roupas coloridas chamava a atenção no palco. Apesar de ter escolhido repertório pouco dançante, a cantora, que tirou os sapatos verdes e se apresentou com os pés nus, foi ovacionada pela platéia, que parecia alheia ao frio e à chuva ainda mais intensa na hora do show da islandesa.

BOTAS DE PLÁSTICO DE VÁRIAS CORES

Depois do Cansei de Ser Sexy e do Bonde do Rolê — que se apresentaram sexta-feira e sábado, respectivamente —, não teve atração brasileira no último dia do festival realizado na cidade dinamarquesa de Roskilde. Uma das mais aguardadas atrações do domingo, os ingleses do Arctic Monkeys estão confirmados para o Tim Festival, que acontece em outubro, no Rio.

Ontem, eles fizeram bonito para o público que pisava com gosto na lama em frente ao principal palco do evento, o Orange. Com mais lama que o recente festival de Glastonbury, na Inglaterra, o Roskilde atraiu multidões no fim de semana. Botas de plástico, das mais variadas cores e modelos, eram acessórios obrigatórios nos pés do empolgado público do evento, que escorregava na espessa lama.

“Aqui, ninguém está preocupado com isso. O melhor em Roskilde é mesmo o espírito do festival, de muita união”, tentou falar bonito o dinamarquês Frank Saderup. “Tenho vindo a Roskilde nos últimos sete anos e este foi o ano que mais choveu aqui. Mas nada estraga ou atrapalha”, acredita o norueguês Klaus Flyvbjerg.

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