Rio - João Moreira Salles foi extremamente corajoso ao assumir em ‘Santiago’ o quanto era arrogante e despreparado em 1992. Na época, viu no mordomo que serviu sua família por 30 longos anos o potencial para um filme e ‘direcionou’ seu depoimento. Santiago fala diversas línguas, canta, dança, toca piano e castanholas e tem uma memória prodigiosa, para o bem e para o mal. Ao longo de sua vida, catalogou centenas de dinastias e histórias da nobreza e entre elas vivia, enquanto servia os Salles nos salões da grande casa da Gávea.
Mas Moreira Salles estava tão cego por querer reproduzir os quadros fixos do diretor japonês Yasujiro Ozu, que não ouvia o que Santiago lhe dizia, e o cortava, impedia que enveredasse por caminhos que não estavam pré-estabelecidos ou até mandava-o repetir. Filmando na cozinha do pequeno apartamento do mordomo no Leblon, Santiago e Salles mantinham a relação distanciada de empregado e filho do patrão. Esse filme ele nunca conseguiu montar.
Em 2005, deu nova chance ao material e a si mesmo. O ‘Santiago’ de agora — que mostra os bastidores dessa relação — é uma declaração de amor a uma pessoa importante em sua formação e um ajuste de contas com o passado. ‘Santiago’ morreu poucos anos depois de ter dado o depoimento, mas certamente teria ficado orgulhoso de seu ‘Joãozinho’