PARIS - Fantasia. É assim que os fashionistas definem a moda que foi apresentada nesta temporada de desfiles primavera/verão 2008 (só na de Paris, que termina domingo, são 90). Uma profusão de cores, estampas e padrões gráficos substitui os tons neutros que causam arrepios nas brasileiras. Será uma estação alegre e assumidamente primaveril, com um festival de flores meticulosamente cultivadas pelo impactante desfile de Balenciaga.
Parece mesmo inesgotável a criatividade de Nicolas Ghesquière, o estilista da grife. Ao som de ‘As Quatro Estações’, de Vivaldi, ele compilou numa só coleção o trabalho de engenharia têxtil que vem apresentando nos últimos dois anos. Envolvendo as modelos em verdadeiros casulos e desafiando o limite das formas, ele transformou o óbvio (flores na primavera) em algo revolucionário, dando um tom quase impressionista nos tecidos. O comprimento curtíssimo dos shorts e dos vestidos são compensados por maravilhosas botas 3/4 de gladiadores, vazadas pelas laterais.
Jean-Paul Gaultier, por sua vez, levou a fantasia ao extremo, infantilizando a feminilidade com uma coleção inspirada nos piratas. Piratas internacionais, viajados, que abusam das estampas de camuflagem de uma maneira doce (combinando-as a camisas de musseline) e ousada (sob chapéu de cowboy) e do visual marinheiro. Na luta entre masculino e feminino, vencem um coloridíssimo vestido em crochê e não uma, mas várias noivas de cigarro na mão.
Aliás, vê-se uma grande influência do vestuário masculino no feminino. As calças vêm mais amplas, com cós altos, marcadas por cintos largos. Adeus, skinny jeans. No ótimo desfile de Yves Saint Laurent, o estilista Stefano Pilati mostrou que andou estudando os arquivos do mestre, reeditando as pantalonas de bainha curta, que deixam entrever as escandalosas sandálias com estrelas amarradas até por fora dos saltos. Estrelas por toda parte, nos cintos, nos colares, nos ombros, em teias de metal. Nota-se uma referência ao militarismo em insígnias coloridas e no azul-marinho dos blazers.
A boníssima surpresa da estação foi o desfile da Balmain, uma casa que vem passando por um gradual processo de rejuvenescimento, sobretudo após a contratação do jovem Christophe Decarnin. Os vestidos — ora curtíssimos e bordados, ora longos e fluidos em musseline — remetiam tanto às índias sioux quanto às jet-setters que freqüentam a Côte d’Azur. Strass, paetês, lingeries, tudo está lá para quem gosta de ser notada e está pronta a conquistar. Não é à toa que ele vem sendo saudado como um Cavalli francês.
E se exuberância fosse nome próprio, certamente seria Christian Lacroix. Expert no assunto, ele mostrou um vestido de seda que parecia ter levado um banho de colorjet, outro de organza com pétalas pintadas a mão, jaquetas metalizadas, alternando a paleta entre cores fortes e suaves. Estrelas também enfeitaram a passarela da Chanel. Uma constelação de jeans, acessórios de prata, vestidos transparentes, laços e calças volumosas dominaram a apresentação de ontem, concentrada nas cores-fetiches da grife: preto, branco e vermelho.