Rio - Há exatos dez anos, Cuba iniciou uma nova revolução. Em 1996, o guitarrista Ry Cooder gravou o histórico disco ‘Buena Vista Social Club’, que levou veteranos artistas cubanos a rodar o mundo e a protagonizar um filme homônimo, dirigido pelo cineasta alemão Wim Wenders e lançado em 1999. A tempo de fazer o mundo reconhecer o talento, entre outros, de Compay Segundo, Ibrahim Ferrer e Rubén González, todos já mortos.
A revolução continua, e conta mais uma vez com a ajuda de Wenders, produtor de ‘The Sons Of Cuba’, filme que apresenta “a próxima geração do Buena Vista” e acaba de ser lançado no Brasil em DVD. Não se trata exatamente de um documentário, como ‘Buena Vista’, embora deste copie a estrutura que entremeia perfis dos artistas e números musicais, até a apresentação final redentora, em Tóquio.
O fio condutor do filme, dirigido pelo argentino German Kral, é o cantor Pio Leiva, veterano do Buena Vista, que encena situações com jovens músicos, ao lado de quem planeja unir os talentos da velha e da nova geração. Mera desculpa para conhecer artistas como El Nene, Mayito, Luis Frank ou o grupo Chiki Chaka. E descobrir que Cuba não está imune ao hip hop. “Em Cuba, hoje, ouve-se música de todo o mundo. Hip hop, reggaeton, sons de Porto Rico, dos Estados Unidos”, conta a O DIA o gorducho Luis Frank. As novas misturas visuais e musicais dos músicos de Havana — que poderiam muito bem ter saído diretamente do Baixo Gávea —não interferem em sua reverência aos mais antigos. “O mundo todo sabe que o ‘boom’ de ‘Buena Vista Social Club’ foi imenso, o mundo reconheceu o valor da música cubana. Agora, é conosco”, brinca Frank.
Ele sonha em abrir mercados, viajar mais pelo mundo, ser mais popular. Mas, garante, nem ele nem os companheiros jamais deixarão Cuba. “Eu aprecio a igualdade, e em meu país estamos seguros”, explica Frank, a certa altura do filme.
Ele não é contra, porém, os artistas que optam por viver no exterior. “Hoje existem músicos cubanos no México, na Europa, no Japão. Você pode viver em qualquer canto do mundo e fazer música cubana”, diz, e acrescenta: “Mas tem que ser cubano para isso”.
Frank atesta ainda os efeitos da revolução do Buena Vista: os antigos amargaram décadas de ostracismo antes de ser ‘redescobertos’. Os novos levam uma vida mais fácil. “Estamos sempre na Europa, vivemos de música. E é um prazer levar nossa música para o mundo.”
HAVANA POBRE E GENTE FELIZ
Em ‘The Sons Of Cuba’, os músicos vão de “Alto Cedro para Macarné”de uma nova maneira: em ‘Chan Chan’, clássico da música cubana que foi consagrada pelo ‘Buena Vista Social Club’, um rap envenenado, feito pelas belas Osdalgia e Telmary, vai arrepiar os cabelos dos puristas. Mas não os do simpático ‘maestro’ Pio Leiva, que se diverte com seus discípulos cantando-a na seqüência final do filme, um show quentíssimo em Tóquio. Cenas de Havana, mais pobre do que nunca, contrastam com a alegria popular que explode nos clubes da cidade, onde se pode ouvir o grupo Interactivo cantando em inglês e espanhol, para além de qualquer bloqueio, comercial ou ideológico, as razões de ser da juventude cubana: “Com dinheiro ou sem dinheiro/ Faço sempre o que quero/ Vivo assim sem desespero”. “A água que sempre falta, coisas caindo, a TV aos berros: isso é Cuba”, resume a cantora Osdalgia.
El Nene, que canta a pungente ‘Fiebre de Ti’, segue à risca os conselhos de Pio Leiva. “Escute sempre o que dizem os velhos do Buena Vista: quer tomar rum, tome. Mas vá cedo para a cama”, ensina.
O clima do filme está mais para Bollywood, a Hollywood indiana, do que para a produção ocidental que foi o ‘Buena Vista’ original. Cuba, porém, é o eterno tema da nova geração. “Se todos formos embora, quem vai tomar conta disso aqui?”, pergunta, entre risos, a rapper Telmary.