Rio - O Rio de Janeiro ficou ainda mais colorido na última semana. Muros e fachadas de prédios da cidade ganharam os desenhos e as letras criados pelas mãos de grafiteiros. A arte, que a cada dia ganha mais destaque nas ruas cariocas, subiu até o Morro da Mineira, no Catumbi, para alertar sobre diversos temas, como criminalidade e a epidemia de dengue.
Foram usadas mais de 400 latas de tintas para pintar 40 muros. “Fizemos o mapeamento das áreas que receberiam o grafite. Diariamente, das 8h às 18h, nove artistas colocaram mãos à obra nos desenhos. A idéia é levar este projeto para outros morros da cidade”, contou Junior Medeiros, 26 anos, produtor do ‘Favela Graffiti Social 2008’, evento que começou na comunidade no dia 19 e termina hoje, com apoio da Superintendência de Políticas da Juventude, do governo estadual.
Para o grafiteiro Aira-Ilu-Aiê Ferraz de Almeida, o Airaocrespo, 26, que participou do movimento, a iniciativa aumenta a auto-estima dos moradores. “Levamos ao morro cor e informação, que é absorvida de maneira fácil. O grafite é uma ferramenta de comunicação poderosa”, afirma Airaocrespo, que ensina a arte de grafitar na Fundição Progresso, na Lapa.
Colega de profissão do artista, Marcelo Vaz, o Ment, 31, pôde mostrar à comunidade o trabalho que desenvolve há 10 anos, com passagens em festivais internacionais. “É interessante porque o grafite vira até ponto de referência nas ruas. Nossa arte tem crescido e sido muito bem aceita pela sociedade”, disse.
Um dos desenhos estampados em um dos muros do Morro da Mineira alerta sobre a prevenção contra o mosquito da dengue. “Desenhei garrafas de cabeça para baixo, caixas d’água cobertas e o mosquito caindo morto. Isso serve para alertar a população sobre os cuidados para evitar a proliferação do Aedes Aegypti”, acredita o grafiteiro Airaocrespo.
Já em outro ponto da cidade, na esquina das ruas do Rosário e do Mercado, no Centro, uma iniciativa parecida de outro grupo de grafiteiros tem protestado mensalmente contra a poluição visual deixada por pichadores — que apenas e a favor da recuperação de espaços públicos abandonados.
O primeiro manifesto ocorreu no dia do aniversário do Rio, em 1º de março. Debaixo de chuva, cinco grafiteiros pintaram telas de 2m de altura por 1,70m de comprimento. “Nosso objetivo é levar cor para espaços abandonados. No primeiro protesto, o tema foi o mar, roubado do carioca por aterros e obras de gosto discutível, como o Elevado da Perimetral”, acredita Leandro Vieira, 28, um dos líderes do movimento.
Uma questão de estilo:
Grafitar virou mesmo arte, tanto que já pode ser dividida em estilos, Cada ano nasce um novo, mas os mais usados, conhecidos mundialmente, servem de base para todo artista que quer iniciar a carreira. É escolher um e soltar a criatividade sobre ele.
Wild Style - Desenho de letras quase ilegíveis e trançadas. Mais abstrato, é um dos primeiros estilos a ser utilizado no surgimento do grafite
Throw-up - Utiliza letras rápidas, normalmente sem preenchimento de cor (apenas contorno). É feito em pouco tempo.
Realismo - Retrato de pessoas e paisagens que ilustram o mais próximo da realidade. Possui um tema específico.
3D - Estilo tridimensional, usa muita sombra no desenho
As gíras dos artistas:
Writer: Artista que pinta grafite.
Tag: Pseudônimo do artista.
Cap: Cápsula aplicável às latas para a pulverização do spray. Existem ‘caps’ diferentes, que variam de acordo com a pressão, formando traço mais suave ou grosso.
Spot: Denominação dada ao lugar onde é feito um grafite.
Bite: Cópia ou influência do estilo de outro writer.
King: Rei dos ‘writers’ que adquiriu respeito dos grafiteiros.
Toy: O oposto de King. Writer iniciante (brinquedo em inglês).
Crew: Grupo de grafiteiros que se reúne para pintar.
Characters: Personagens pintados, retratos e caricaturas.