Rio - Tudo começou no fim do ano passado, a poucos dias do Natal. A jornalista Rozane Monteiro, depois de tomar um fora do namorado, que dias atrás lhe prometera casamento, entrou no ônibus a caminho de Visconde do Rio Branco, pequena cidade de Minas Gerais, onde moram seus pais.
Encharcada de ressentimento, ódio e saudade — sentimentos recorrentes de todos que são abandonados assim, tão de repente, sem direito a resposta —, ela abriu seu laptop e escreveu: ‘Sua Excelência, o Canalha’.
Começava aí um processo de catarse da dor, uma maneira de expurgar o veneno amoroso que corria nas suas veias. Começava aí também o blog — que ganhou este mesmo título — recrutando outras mulheres, também vítimas deste pesadelo feminino: o homem 171. Dia 17, o sofrimento que Rozane narrou com ótima dose de humor terá valido a pena. O livro ‘Sua Excelência, o Canalha’ (Ed.Litteris, R$ 23, 152 págs.) será lançado na livraria Da Conde, no Leblon, a partir das 19h.
“O pior canalha é aquele sem carteirinha, que não parece ser. O homem explicitamente cafajeste deixa as regras claras logo de cara. Já o outro promete mundos e fundos e depois afirma que não disse nada daquilo ou até mesmo que não se lembra”, explica Rozane.
Outra característica básica do predador, segundo a autora, é ter uma atitude supersensível, já na primeira noite. “Falar logo em relação é indício de canalhice. E dizer eu te amo rapidinho também é suspeito”, ensina ela, que, por se colocar tão nua e crua nos posts do blog, virou uma espécie de radar de pilantras e conselheira para todas as horas. “Amigas e leitoras me passam e-mail e pedem a minha opinião”, ri a autora, que se surpreendeu com a participação das mulheres no blog e até dos homens.
“Fizemos um concurso da pior história. Ganhou o companheiro de uma mulher de 30 anos, que descobriu ter câncer nos seios. No meio do processo de quimioterapia, ele falou: ‘Você, além de magra, está ficando chata’”, conta Rozane. Outra confissão que impressionou a jornalista foi a de um rapaz, de apenas 21 anos. “Ele falou que tinha se identificado com o blog por ter sido abandonado no fim do ano por uma mulher canalha. Ou seja, canalhice não tem sexo, nem idade”.
Histórias absurdas à parte, jogue a primeira pedra quem nunca se encantou por um homem desses. E jogue a segunda pedra também quem nunca demorou um bom tempo para apagar o infeliz da mente. “Jamais esquecerei o muso que inspirou o livro. Mas, claro, existem maneiras de ir se distanciando. Parei de freqüentar os restaurantes que íamos juntos, conversei muito com os amigos e criei o blog para purgar meus sentimentos”, analisa ela.
O tema costuma mesmo provocar reações exaltadas entre as mulheres. A designer e publicitária Alessa Migani, por exemplo, sugere que Rozane crie um site com foto e ficha corrida dos condenados. “Funcionaria como um Google de homens canalhas”, diz Alessa. Já a estilista Patrizia D’Ângello desenvolve uma teoria: “São uns coitados que não conseguem se envolver.
São homens com problemas, que iludem quem está ao lado. No fundo, são vítimas deles mesmos”. A atriz e produtora de moda Jacquie Sperandio acha difícil se prevenir contra o tal lobo em pele de cordeiro, mas mantém a fé: “Ninguém resiste a um grande amor”. Será?
O Livro
“O canalha enrustido é assim: ele vai falando de relação, de namoro, com as metáforas mais estapafúrdias, te envolvendo num jogo de gestos e culpas que faz tanto mal, e você se dana toda se cair na conversa do gajo, como, aliás, eu fiz. Duas vezes. Na verdade, o canalha enrustido não tem compromisso com o que diz, muito menos com o que promete. E, por ser superfofo, você acha que o cara tá falando sério”.
“Um último aviso: nada do que acontece ao canalha enrustido, nada do que o próprio faz é culpa ou responsabilidade dele. E, quando acaba o estoque de argumentos pra contradizer descaradamente o que disse há dias, o bonitão irá sempre apelar pro bom e velho “não me lembro de ter dito isso”. Vale pra “eu amo você”.
“Dada a dramaticidade destes últimos dias de 2007, só tenho uma resolução de Ano Novo: não dou, não dou e não dou. Se o Dalai Lama e o Padre Marcelo podem viver sem sexo, eu também posso. Um vive rindo, o outro vive cantando, não há de ser de todo ruim. Feliz Ano Novo!”.
“Tenho duas alas de amigos: aqueles que estão em choque, como eu, com o chute quando tudo parecia bem; e aqueles que agora dizem “eu sabia que era um traste”. Juram? Sabiam e não me falaram só de sacanagem, né?”.