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23/02/2008 17:40:00

Lázaro Ramos vive seu auge profissional aos 29 anos

Ator conta como enfrentou todos os preconceitos até aqui

Sabrina Grimberg


Rio - Que negro nunca sofreu preconceito racial no Brasil? Para o ator Lázaro Ramos, hoje, o assunto só faz parte de seu passado porque ganhou fama e atualmente brilha em ‘Duas Caras’ como o mocinho negro da TV, o que, acredite, impressiona e até põe fim à discriminação. Porém, a caminhada até o horário nobre foi longa e, infelizmente, inclui histórias que Lázaro, aos 29 anos, lembra desde a infância.

“Quando criança eu não entendia por que era tratado diferente já que não me sentia assim. Na adolescência, cheguei a entrar em supermercado e ser seguido por segurança. Outra vez, estava no ônibus, uma autoridade entrou para fazer vistoria e mandou descer só os negros. ‘Ôxe, por que só desceu a gente?’, perguntei. Sem contar as diversas vezes que fui parado em blitz... Até o tratamento era diferenciado, de me chamarem ‘ô rapaz’ e o branco, de cidadão”, enumera Lázaro.

Um dos temas de ‘Duas Caras’, a discussão sobre o preconceito ganhou força desde a estréia da trama de Aguinaldo Silva, que mostra os confl itos vividos pelos personagens de Evilásio (Lázaro) e Júlia (Débora Falabella). O enredo é aquele: morador da favela, negro, pobre, que se envolve com a mocinha branca, de família rica e ainda enfrenta a fúria do sogro preconceituoso –Barretão, interpretado por Stênio Garcia.

“Estou doido para o dia que chegar a cena em que eu possa dizer: “Barretão, você é caboclo”, diverte-se Lázaro, satisfeito com a repercussão de seu personagem: “Em 45 anos de telenovela nunca houve um herói romântico negro. Isso é uma aposta alta e felizmente está dando certo”. Pesa? “Não. Dá satisfação poder ter esse privilégio”. Desde quando começou a conceder entrevistas por causa da popularidade de personagens como a Priscila, de ‘Sexo Frágil’, e o Foguinho, de ‘Cobras e Lagartos’, ele toca no assunto em todas as conversas.

“Por que um ator como eu, que tem uma série de assuntos para falar, sempre tem que tocar nessa questão em todas as minhas entrevistas? Isso é um retrato da sociedade. O preconceito no Brasil é tão velado e está tão arraigado nos nossos hábitos culturais que, às vezes, é até difícil explicitar ou provar”, opina Lázaro, que sempre teve o estímulo da família para se defender dessas ‘situações’ e ganhou consciência política com o Bando de Teatro Olodum.

Se por um lado a fama ajudou Lázaro a não ser mais discriminado, por outro ele precisa lidar diariamente com a falta de liberdade, ‘obrigação’ de dar autógrafos mesmo quando está almoçando e assédio dos paparazzi, aos quais ele garante nem prestar atenção.

“Nada disso me incomoda porque eu descobri um estratégia para conviver com isso. Conhecido eu já sou e não deixarei de ser. Se eu me irritar, vou ter dois trabalhos: me irritar e me ‘desirritar’. Então, procuro me comportar como se não fosse conhecido. Ou seja, se uma pessoa chega e estou no celular, digo: ‘Peraí, estou no telefone’. Se estou almoçando, brinco, faço uma gracinha, dou uma gargalhada, faço ‘glu-glu’ e a pessoa entende”, brinca o ator, acrescentando que gosta de ser conhecido porque aprendeu a utilizar bem a fama.

Segundo ele, foi graças a esse fator que conseguiu, por exemplo, ter um programa de entrevistas, ‘Espelho’, no Canal Brasil (que dirige e fala sobre os temas que deseja), escolher as peças de teatro em que quer atuar e ainda tem a aposta de diretores de cinema. Na opinião de Lázaro o anonimato só vai fazer falta no dia em que passar a ser considerado uma celebridade e não um ator.

“A Britney Spears é um bom exemplo. Hoje em dia eu não lembro qual é música dela. A minha função como ator é representar a vida de outras pessoas. Depois do ‘Homem Que Copiava’, as pessoas achavam que eu era tímido. Depois do Foguinho, as pessoas começaram a achar que eu era bobo. No filme ‘Madame Satã’, outros achavam que eu era gay”, conta Lázaro, todo orgulhoso.

Agora, no papel de galã das 20h, os comentários nas ruas não param e Lázaro continua a alimentar seu ego. “Muita gente começou a dizer que não sabia que eu era bonito. As pessoas diziam que o Foguinho era aquele ‘trambolho’, e agora me chamam de ‘negro gato’. Eu digo: ‘Que bom! Também consegui enganálos. Além de atrapalhado posso ser bonito’”, conta o ator, aos risos, e com modéstia de sobra.

Com 25 peças de teatro no currículo – entre elas, ‘Um Tal de Dom Quixote’, ‘Zumbi Está Vivo e Continua Lutando’ e ‘A Máquina’ –, Lázaro diz que está na TV e no cinema quase que ‘por acaso’.

“Nunca tinha planejado seguir esse caminho. Eu brinco, com um fundo de verdade, que o que eu sei fazer mesmo é teatro. O resto eu enrolo as pessoas”, afi rma Lázaro, mais uma vez minimizando seu talento, descoberto a partir da brilhante atuação em ‘Madame Satã’, em 2002. Com o fi lme, ele faturou os prêmios de melhor ator nos festivais de Huelva (Espanha), Quito (Equador), e Lima (Peru).

A partir daí a bombação não parou. Só em 2003, Lázaro lançou ‘O Homem do Ano’, ‘Carandiru’ e ‘O Homem Que Copiava’ nas telas grandes. A trajetória na TV começou em 2004 com ‘Sexo Frágil’, ‘Programa Novo’ e ‘Levando a Vida’. Novato mesmo, ele só é nas novelas: ‘Duas Caras’ é a sua segunda, depois de ‘Cobras e Lagartos’.

‘Vou ter crise para quê?’

Casado com a atriz Taís Araújo, mas não no papel, Lázaro Ramos evita ao máximo falar de sua vida a dois. “Quando me fazem perguntas que eu me sinto constrangido, digo logo: ‘Gente, para que me perguntar isso? Não sabem como eu sou?’”, responde o ator,  jurando que não sente ciúme da mulher. “E tem como? Taís fez par romântico com Reynaldo Gianecchini. Tem que compreender...”, brinca ele, referindose ao trabalho da dupla na novela ‘Da Cor do Pecado’.

Como qualquer mortal, Lázaro também tem manias: só dorme com barulho. “Preciso de TV ou uma música. Tenho dificuldade para dormir num silêncio total”, conta ele, que também gosta de colecionar objetos, como chapéu, CD, DVD e bibelô. Nos cuidados com a alimentação, Lázaro só se priva de leite porque tem alergia a lactose. “Como bastante porque tenho muita facilidade de perder peso”, comemora ele, agradecendo a sorte de não precisar malhar para exibir a boa forma: “Não pratico esportes, sou preguiçoso.

A dieta do nutricionista é que tem me mantido”. Nascido em 1 de novembro, Lázaro completa 30 anos neste ano. Crise? “Não tem isso. Tenho tanta coisa bacana na vida: trabalho, uma família, uma mulher ótima, vou ter crise para quê? Vai ser bom porque vou poder mudar o perfil dos meus personagens, fazer uns de barba”, brinca ele.

Lázaro só muda de tom para falar de drogas. “Já convivi com pessoas que usavam, mas nunca tive curiosidade. Nunca precisei. O efeito da maconha que eu via nas pessoas que usavam eu já tinha naturalmente dado pelo teatro: um relaxamento, entrar em outra realidade. Pelo menos na minha percepção de ignorante do assunto. Dentro de casa isso sempre foi muito falado: Droga não! Droga não!”, enfatiza o ator, contratado pela Globo até o início de 2009. Após ‘Duas Caras’, o fi lme ‘Ó Paí Ó’ (que no dialeto baiano quer dizer ‘olhe para isso, olhe’), de Monique Gardenberg, vai virar série de TV na Globo e Lázaro está escalado para o papel principal. Ao todo serão seis episódios. Ou seja, Lázaro de sobra para os fãs.

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