Rio - Nada de dançarina de vestido com fenda e o parceiro com rosa na boca. Em 2007, o bandoneon compõe a melodia com laptops; a cantora de voz poderosa desfila melodias dramáticas diante das imagens poéticas projetadas por artista gráfica. É o novo tango, que o Gotan Project mostra aos cariocas domingo no Circo Voador.
O trabalho do grupo vai além de remixar obras dos grandes mestres com batidas eletrônicas. “Não me sinto parte do que chamam de ‘tango eletrônico’. Vai parecer muito pretensioso, mas em geral o que fazem é misturar clichês de música eletrônica com tangos antigos. Não tem muita criatividade ali. O que nós fazemos é uma nova forma de tango, com repertório próprio, em vez de colagens de coisas heterogêneas”, define um dos idealizadores do Gotan, o francês Philippe Cohen-Solal.
O grupo toca no Circo Voador (a casa abre às 21h), depois de lotar o Canecão em junho com o show do CD ‘Lunático’, lançado ano passado — o mesmo que eles fazem agora.
Eles tocaram pela primeira vez por aqui em 2003, no Tim Festival, com o disco ‘La Revancha del Tango’, de 2001, que estourou no mundo inteiro e emplacou na trilha de filmes, seriados e até novela — a música ‘Epoca’ foi tema de Tony (Guilherme Weber) em ‘Da Cor do Pecado’. “No festival, foi uma surpresa que estivesse cheio, porque nosso disco só saiu no Brasil na semana seguinte”, diz.
Cohen-Solal veio pela primeira vez ao País em 2002, para tocar como DJ em São Paulo e Rio. “Fui à Feira Nordestina (de São Cristóvão) e conheci o ‘baile funk’. Foi uma grande revelação, comprei vários discos. O funk carioca é a grande música de pista brasileira”, elogia.
Cohen-Solal é dono do selo Ya Basta!, por onde saem seus discos. “Não queria ter ninguém me dizendo: ‘Sua música vai ser assim, seu clipe assim’. É inestimável fazer o que se quer, quando se quer”, analisa ele, que vê a Internet como grande aliada na divulgação, mas faz críticas ao download gratuito de músicas. “Conheço um monte de selos pequenos que estão desaparecendo por isso e é uma pena”, desabafa.
A turnê de ‘Lunático’ já havia chegado ao fim quando o grupo foi surpreendido com o convite para voltar ao Brasil. “Não dá para recusar turnê no Brasil”, ri Cohen-Solal, apaixonado pelo Rio. “É uma das minhas duas cidades preferidas, ao lado de Paris”, derrete-se.
Espetáculo de luz, cores e projeções
O Gotan Project foi formado em 1998 pelo francês Philippe Cohen-Solal, o argentino Eduardo Makaroff e o suíço Christoph H. Müller, todos residentes em Paris. O nome Gotan é “tango” ao contrário, brincadeira de inverter as sílabas que é comum tanto na França quanto na Argentina.
Cohen-Solal e Müller são músicos e fazem as programações, Makaroff é guitarrista e, nos discos e shows, eles convidam um time de músicos: cordas, um bandeonista, um pianista e a cantora espanhola Cristina Vilallonga, um dos trunfos.
Além disso, as apresentações do Gotan — os ingressos no Circo custam R$ 80 (R$ 60 com filipeta) — têm como peças importantes o figurino (escolhido por Cohen-Solal), luz e as projeções da artista gráfica francesa Prisca Lobjoy. “Queremos que o público fique submerso no nosso universo do tango, com ouvidos, olhos, corpo e coração, é claro”, diz Cohen-Solal. “Lobjoy extrai o espírito do tango evitando os clichês”, afirma.