Rio - ‘Madrugada’, sétimo disco de Mart’nália, chega às lojas este mês com duas guinadas na vida da cantora: trará mais música negra americana mesclada ao samba e será lançado por uma gravadora maior, a Biscoito Fino.
“Ficou grande demais para a Quitanda”, explica a também cantora Maria Bethânia, dona do selo e responsável pela chegada de Mart’nália ao sucesso, ao produzir o elogiado ‘Menino do Rio’.
Produzido por Arthur Maia e Celso Fonseca (produtor de ‘Pé do Meu Samba’), o novo disco traz a mistura de soul, samba e charme, experimentada pela cantora nas apresentações do show ‘Sambacharme’ no começo do ano.
“Eu pedi para participar. Fizemos a pré-produção no meu estúdio”, conta Maia, que não teme as inevitáveis comparações com o disco anterior, que emplacou sucessos como ‘Cabide’. “‘Menino do Rio é maravilhoso, mas ‘Madrugada’ é diferente”, afirma.
Baixista de Gilberto Gil, ele se empolga ao falar da “parceira de décadas”. “Ela está num momento especial, suas apresentações no Festival de Montreux foram sensacionais. Os ingressos para os shows em Miami e Nova Iorque esgotaram uma semana antes”, diz o autor de ‘Alívio’ (com Djavan), faixa que abre o disco.
Parceiro de Mart’nália em ‘Tava Por Aí’, faixa escolhida para ‘puxar’ o CD nas rádios, Mombaça concorda. “É uma das artistas mais completas do Brasil hoje”, elogia o músico, que conheceu a artista num antigo bar de Vila Isabel, Cerveja, Amada Cerveja. “Temos muita afinidade para compor, a gente se encontra e vara a madrugada até um cair. Vou embora sem avisar, jogo as chaves por debaixo da porta”, conta o co-autor de ‘Chega’ (no álbum ‘Pé do Meu Samba’) e ‘Pretinhosidade’ (em ‘Menino do Rio’).
“Hoje eu sonhei que cerveja dá na bica”, canta Mart’nália em ‘Sai Dessa’, música lançada por Elis Regina em seu último disco, ‘Elis’, de onde já havia pescado ‘Só Deus É Quem Sabe’ para o CD anterior — antecipando a ‘redescoberta’ da obra de Guilherme Arantes, feita por suas colegas em shows recentes. “Se ela gosta de uma música, não quer saber se já foi gravada”, diz Moska, que teve sua balada ‘Sem Mais Adeus’ incluída no CD. “Fico honrado em participar de seus discos, ela moderniza o samba”.
Mesmo sendo lançado pela Biscoito Fino, ‘Madrugada’ não passou despercebido pela dona da Quitanda. “Detesto me meter na voz dos outros, assim como detesto que se metam com a minha, mas passei um dia trabalhando a voz com ela. Mart’nália sabe tudo, só tem que ter um limitezinho”, sentencia Bethânia. A filha de Martinho da Vila conquistou mesmo a MPB.
Canção em inglês de Vila Isabel
‘Madrugada’ traz, ainda, dois sucessos da década de 70: a debochada ‘Batendo a Porta’ (João Nogueira e Paulo César Pinheiro), e ‘Alegre Menina’, parceria de Dori Caymmi e Jorge Amado (gravada por Djavan para a trilha da novela ‘Gabriela’) que volta, agora, com a participação de Luiza Possi. Gravada por Martinho da Vila em 1969, a clássica ‘Tom Maior’ também está de volta.
“Sempre que ouço essa música, a imagem que me vem à cabeça é a da minha mãe com as crianças no colo, fazendo dormir. É o ‘Boi da Cara Preta’ lá de casa”, diz a cantora, que encerra o disco com versão inusitada de ‘Don’t Worry, be Happy’, do cantor americano Bob McFerrin, “num inglês de Vila Isabel”, brinca Mart’nália, fazendo charme.